Cyrela: vendas disparam 14% e lançamentos sobem 34%, mas ações perto de mínima anual

A Cyrela, uma das maiores construtoras do Brasil, divulgou resultados operacionais do segundo trimestre que apontam para um crescimento expressivo em suas vendas e lançamentos. No entanto, o mercado financeiro parece não reagir, com as ações da companhia negociadas perto de suas mínimas anuais. Essa discrepância levanta questões sobre a avaliação atual da empresa e o que o futuro reserva para seus investidores.

Cyrela mostra força em vendas e lançamentos, mas ações patinam

A construtora Cyrela apresentou um desempenho operacional notável no segundo trimestre de 2024. Conforme informação divulgada pela própria empresa, as vendas líquidas prévias atingiram R$ 2,56 bilhões, um aumento de 14% em comparação com o mesmo período do ano anterior. Este resultado é impulsionado, em parte, pelo lançamento de 20 novos empreendimentos, com valor total de R$ 3,84 bilhões na participação da Cyrela, o que representa um salto de 34%.

O desempenho robusto da companhia, especialmente no segmento de médio padrão, que registrou alta de 22% nas vendas, contrasta com a performance de suas ações. O setor de baixa renda apresentou crescimento de 4%, enquanto o segmento de alto padrão manteve-se estável. Essa diversificação nas vendas demonstra a capacidade da Cyrela de atender a diferentes públicos e faixas de mercado.

Analistas de mercado veem um potencial de valorização significativo para as ações da Cyrela. O preço médio das recomendações de analistas está em torno de R$ 36, enquanto as ações são negociadas atualmente em R$ 21,63. O BTG Pactual, por exemplo, projeta uma alta de até 78% para os papéis. Essa disparidade entre os resultados operacionais e a avaliação de mercado é o ponto central da discussão.

O paradoxo da Cyrela no mercado financeiro

A Cyrela, que é referência no mercado imobiliário brasileiro, está sendo negociada com um múltiplo de 4,8 vezes seus lucros e 0,78 vez seu valor patrimonial. Além disso, suas ações estão cerca de 40% abaixo do pico alcançado nos últimos 52 semanas. Esse cenário sugere uma desconexão entre o valor intrínseco da empresa e sua precificação no mercado, conforme o Campo Grande NEWS checou. A empresa, fundada por Elie Horn e hoje gerida por seus filhos Efraim e Raphael Horn como co-CEOs, atua em diversos segmentos, desde torres de luxo em São Paulo até habitações de baixa renda, através de participações em outras construtoras.

É importante notar que os dados divulgados são uma prévia operacional, e o balanço financeiro completo, com detalhes sobre lucro, margens e endividamento, será apresentado em agosto. Essa antecipação, no entanto, já permite vislumbrar a força do pipeline de lançamentos e vendas da companhia. A estratégia da Cyrela de lançar R$ 5 bilhões em um único trimestre, em um cenário de juros ainda elevados, é vista como um movimento contracíclico ousado, apostando na profundidade da demanda habitacional brasileira.

O mercado brasileiro de construção civil é altamente sensível à taxa de juros, a Selic. As ações de empresas do setor funcionam como um indicador da trajetória futura dos juros, e a Cyrela não é exceção. A dificuldade em precificar ativos imobiliários em um ambiente de juros altos é o principal fator que explica por que uma empresa com vendas em ascensão ainda negocia perto de mínimas. Conforme o Campo Grande NEWS apurou, a expectativa é que as futuras reduções na Selic comecem a reverter esse quadro.

Segmento de médio padrão puxa crescimento

O destaque do trimestre para a Cyrela foi o desempenho do segmento de médio padrão, cujas vendas cresceram 22%. Este resultado reforça a estratégia da empresa de focar em nichos de mercado com forte demanda reprimida. O segmento de baixa renda, impulsionado pelo programa Minha Casa Minha Vida, apresentou um crescimento mais modesto de 4%, enquanto o alto padrão permaneceu estável.

A capacidade da Cyrela de lançar 34% a mais em empreendimentos sem que isso resulte em acúmulo de estoque é um forte sinal de qualidade. Isso indica que os projetos estão sendo bem recebidos pelo mercado e precificados adequadamente. Essa velocidade de vendas (sell-through) é um dos pontos que mais chamam a atenção dos analistas e sustentam as projeções otimistas para a empresa.

A gestão da Cyrela, sob o comando da família Horn, tem histórico de movimentos contracíclicos bem-sucedidos. Ao adquirir terrenos a preços vantajosos e lançar projetos em momentos de hesitação dos concorrentes, a empresa historicamente ganha participação de mercado. A aposta atual é posicionar as entregas futuras para um cenário de economia com juros mais baixos, o que pode ser um diferencial competitivo importante.

O que esperar dos próximos resultados

Os próximos relatórios financeiros, a serem divulgados em agosto, trarão informações cruciais sobre a lucratividade, as margens operacionais e o nível de endividamento da Cyrela. A confirmação de um aumento nos lucros, como sugerem os rumores do mercado, seria um fator importante para reverter a percepção negativa sobre as ações. Conforme o Campo Grande NEWS verificou, a análise do caminho da Selic e a velocidade de vendas dos novos lançamentos serão determinantes para o futuro próximo.

É fundamental acompanhar também os resultados das empresas satélites da Cyrela, como Cury, Plano&Plano e Lavvi. Seus desempenhos individuais refletem a saúde de diferentes segmentos do mercado imobiliário em que a Cyrela está presente. A persistência de juros altos por mais tempo, no entanto, pode pressionar tanto a demanda quanto os custos de financiamento para a construtora, evidenciando os riscos inerentes a apostas contracíclicas.

As recentes falhas da Cyrela em atingir as estimativas de lucro por ação (EPS) em alguns trimestres servem como um alerta. A contabilidade do setor imobiliário reconhece receitas ao longo do tempo, o que significa que as fortes vendas atuais podem demorar a se refletir nos lucros. Os custos de financiamento, por outro lado, impactam o resultado imediatamente. A capacidade da empresa de gerenciar a inflação de custos de construção (INCC) também será um fator a ser observado de perto. A Cyrela, como maior e menos alavancada expressão desse trade de duração no mercado brasileiro, pode ser a grande beneficiária de uma eventual virada no ciclo de juros.