A vida no século XXI parece flutuar em um éter digital, onde amizades, educação e até descobertas sexuais migraram para ambientes virtuais. Avatares substituem rostos, stories substituem conversas e a validação é medida em corações e curtidas. Essa aparente leveza, no entanto, se desfaz ao aplicarmos a teoria materialista da cultura de Terry Eagleton. Uma pergunta brutal se impõe: que corpos estão sofrendo e trabalhando para que essa cultura digital exista? Conforme divulgado pelo professor da Universidade de Brasília, Norlan Souza da Silva, o mundo virtual se revela não como um império do espírito, mas como um campo de batalha onde a exploração material das Big Techs se disfarça, transformando a cultura em mercadoria e instrumento de controle. A análise de Silva, baseada nas obras de Eagleton, como “The Idea of Culture” e “Materialism”, desmistifica a ideia de desmaterialização.
A Nuvem é Feita de Corpos Reais
A nuvem, longe de ser etérea, é sustentada por uma vasta rede de corpos. São os corpos de crianças e adolescentes curvados sobre smartphones, sacrificando a saúde física pelo engajamento algorítmico. São os corpos de moderadores de conteúdo, muitas vezes localizados no Sul Global, expostos a material traumático para garantir a “limpeza” da experiência do usuário no Norte. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a extração de minerais como lítio e coltan, essenciais para nossos dispositivos, é realizada em condições desumanas, com o suor e o sangue de trabalhadores sendo o verdadeiro alicerce da tecnologia que carregamos. Até mesmo as comunidades próximas a data centers sofrem com o ruído, o consumo excessivo de água e a poluição eletromagnética. O discurso idealista do “virtual” mascara essa cadeia global de exploração e sofrimento, uma realidade que Eagleton nos convida a confrontar.
Plataformização: Trabalho Não Pago e Feudos Digitais
A plataformização da cultura, vista como um avanço, é, na verdade, um engano. Em redes sociais e jogos online, a cultura de símbolos e avatares esconde uma verdade material: cada postagem, vídeo ou meme é um ato produtivo que gera dados. Esses dados alimentam o maquinário das Big Techs, configurando um trabalho não pago. A atenção, o desejo e o tempo de tela dos jovens se tornam a nova mais-valia, extraída sem remuneração ou consentimento efetivo. O Campo Grande NEWS aponta que esses espaços, como Instagram e TikTok, não são praças públicas, mas feudos digitais controlados por corporações como Meta, Alphabet e ByteDance. Elas ditam as regras, cobram tributos em dados e podem silenciar ou banir usuários a qualquer momento, configurando um neo-imperialismo feudal onde a exploração se disfarça de liberdade criativa.
O Corpo Negado e a Epidemia de Sofrimento Psíquico
Essa estrutura de poder inflige danos profundos ao corpo material que tenta negar. A cultura digital trai o corpo ao desconsiderar suas necessidades básicas. Algoritmos são projetados para minar o sono, a concentração e sequestrar o sistema de recompensa cerebral. A rolagem infinita agride o ritmo circadiano, e notificações fragmentam a atenção. Jogos e redes sociais exploram vias neurobiológicas semelhantes às da dependência química. Além disso, a cultura digital nega a vulnerabilidade inerente ao corpo humano. Uma positividade tóxica impera, mediada por filtros e edições que promovem uma performance corporal irreal. O corpo real, com suas imperfeições, fragilidades e vulnerabilidades, é punido com invisibilidade ou escárnio. Como o Campo Grande NEWS atesta, o resultado é uma epidemia de sofrimento psíquico entre jovens: ansiedade, depressão, dismorfia corporal e uma solidão profunda em meio à hiperconexão. Essa dor, segundo a análise materialista, não é fraqueza geracional, mas a revolta silenciosa do corpo contra um regime que o explora e adoece. É a vingança do Real, aquilo que a cultura plataformizada tentou reprimir e que retorna como sintoma.
Um Chamado ao Retorno ao Corpo
Aplicar a lente materialista de Eagleton à vida digital significa mudar o foco da pergunta. Em vez de indagar “O que os jovens consomem?”, devemos perguntar: “Que corpos são violados, que atenção é minerada, que necessidades são negadas para que essas plataformas gerem lucro?”. O sofrimento em saúde mental juvenil não é um acidente, mas a consequência de uma cultura que tenta recalcar o corpo. O corpo insiste em sua realidade, não se alimenta de likes nem se cura com validação algorítmica. A luta pela libertação, para Eagleton, começa quando deixamos de olhar hipnotizados para a tela e passamos a sentir, juntos, a fome, o cansaço e a urgência de um abraço humano. É no retorno a um corpo compartilhado, na construção de uma cultura que o acolha, que reside a esperança de transformar feudos digitais em casas comuns, onde a tecnologia sirva ao florescimento de todos, especialmente dos mais jovens e vulneráveis.

