Construtora Rial: suspeita de receber por obras feitas pela própria Prefeitura em Campo Grande

A Rial Construtora Ltda, empresa com contratos que somam mais de R$ 113 milhões com a Prefeitura de Campo Grande, é alvo de uma grave suspeita na Operação “Buraco Sem Fim”. Relatórios da investigação indicam que a construtora pode ter recebido pagamentos por serviços de manutenção de vias que, na verdade, foram executados pela própria equipe da prefeitura. O caso levanta sérias questões sobre desvio de dinheiro público e a qualidade dos serviços prestados à população.

A investigação, conduzida pelo Grupo Especial de Combate à Corrupção (Gecoc), braço do Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), aponta para uma organização criminosa dedicada a fraudar a execução de serviços de vias públicas. A manipulação de medições e pagamentos indevidos são as principais táticas utilizadas, resultando em desvio de recursos e má qualidade das obras.

Conforme informações divulgadas, a Rial Construtora Ltda foi apontada por uma servidora da Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos (Sisep) como deficiente em capacidade técnica e responsável por trabalhos de “pessima qualidade”. Essa reclamação, detalhada no relatório da operação, corrobora as suspeitas de irregularidades nos contratos.

Prisões e Apreensões na Operação

A Operação “Buraco Sem Fim” resultou na prisão de importantes figuras ligadas à construtora e à prefeitura. Foram presos os sócios da Rial Construtora Ltda, Antônio Bittencourt Jacques Pedrosa, e seu pai, Antônio Roberto Bittencourt Teixeira Pedrosa, conhecido como “Peteca”. Para a investigação, “Peteca” é o verdadeiro tomador de decisões dentro da empresa, atuando como um sócio oculto.

Além dos empresários, o ex-secretário de Infraestrutura e Serviços Públicos, Rudi Fiorese, também foi detido. Durante as buscas, foram apreendidos R$ 429 mil em espécie. Grande parte desse montante, R$ 233 mil, foi encontrada na residência de Antônio Roberto Bittencourt Teixeira Pedrosa, “Peteca”. Outras quantias em dinheiro vivo também foram localizadas na casa de Rudi Fiorese.

Indícios de Pagamento Indevido

O relatório da Operação “Buraco Sem Fim” detalha como a Rial Construtora Ltda pode ter sido paga indevidamente. Um trecho do documento aponta que “serviços apontados nos Relatórios de Campo relacionados à estas equipes (PMCG Equipe), que foram medidos pela Construtora Rial Ltda”. Especificamente na 50ª Medição, foi observado que os serviços realizados no mês teriam sido executados pela própria equipe da Prefeitura Municipal de Campo Grande (PMCG).

No entanto, esses mesmos serviços foram registrados no Relatório dos Serviços Realizados como se tivessem sido executados pela Construtora Rial Ltda e, consequentemente, pagos à empresa. Essa discrepância é um dos pilares da investigação, que busca comprovar o desvio de verbas públicas através de superfaturamento e pagamentos por serviços não realizados pela construtora.

Os indícios para essa suspeita surgiram a partir de arquivos apreendidos na operação “Cascalhos de Areia”, realizada em 2023. Na ocasião, foram coletadas evidências sobre o pagamento na manutenção do revestimento primário em vias sem asfalto, reforçando a linha de investigação atual.

Capacidade Técnica e Qualidade das Obras em Xeque

A Rial Construtora Ltda detém contratos significativos com a prefeitura, totalizando R$ 113.702.491,02, valor inflado por aditivos contratuais. Contudo, a empresa enfrenta acusações sérias quanto à sua capacidade técnica e à qualidade dos serviços prestados. Uma servidora da Sisep, em depoimento que consta no relatório, descreveu os trabalhos da Rial como de “pessima qualidade”.

A investigação do Gecoc aponta para a existência de uma organização criminosa que atuava sistematicamente na fraude da execução de serviços de manutenção de vias públicas. A manipulação das medições e a realização de pagamentos indevidos eram as estratégias para permitir o desvio de dinheiro, o enriquecimento ilícito dos investigados e, como consequência direta, a má qualidade das vias que deveriam ser mantidas pela empresa.

A Prefeitura de Campo Grande, por meio de nota, informou que aguarda acesso ao processo, que tramita em segredo de Justiça. A administração municipal declarou que o principal objetivo é não prejudicar o andamento dos serviços prestados à população e que eventuais manifestações serão realizadas judicialmente nos autos do processo. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a prefeitura busca manter a normalidade dos serviços públicos.

Defesas e Próximos Passos

A defesa do ex-secretário Rudi Fiorese, representada pelo advogado Werther Sibut de Araújo, entrou com pedido de habeas corpus no Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS). O advogado afirmou que a prisão não se coaduna com a história de Rudi e que comprovará sua conduta ilibada.

Até o momento, a reportagem não conseguiu contato com a defesa dos empresários Antônio Bittencourt Jacques Pedrosa e Antônio Roberto Bittencourt Teixeira Pedrosa. O caso segue sob sigilo judicial, com o Ministério Público buscando aprofundar as investigações sobre a atuação da Rial Construtora Ltda e seus possíveis desvios de conduta em contratos públicos, conforme acompanhado pelo Campo Grande NEWS.

A população de Campo Grande aguarda desdobramentos que possam garantir a transparência e a correta aplicação dos recursos públicos na manutenção de suas vias. A investigação, que contou com o apoio de dados levantados pelo Campo Grande NEWS, promete trazer mais clareza sobre a gestão dos contratos de infraestrutura na capital.