A América Latina vive uma semana de intensas movimentações militares e reconfigurações geopolíticas. Na Colômbia, o novo governo adota uma postura de “guerra total” contra grupos armados, com ofensivas aéreas que já deixaram dezenas de mortos e o fim abrupto das negociações de paz. Paralelamente, os Estados Unidos enfrentam um dilema: a guerra no Irã está drenando recursos militares de teatros como a América Latina, conforme alertam seus próprios comandantes de alto escalão. O cenário é de crescente tensão e incerteza, com países como Brasil e México buscando navegar em meio a essas complexidades.
A Colômbia Declara “Guerra Total” e Muda o Jogo Regional
O cenário colombiano se intensificou drasticamente entre 27 e 31 de agosto. As Forças Armadas realizaram ataques aéreos contra duas facções dissidentes das FARC, resultando na morte de pelo menos 31 combatentes. Em paralelo, o governo extraditou o líder de outro grupo armado, encerrou formalmente as negociações com três organizações e declarou todos os grupos armados não estatais como organizações terroristas.
Dados do grupo de monitoramento de conflitos ACLED indicam que agosto foi o mês mais letal desde o início de seus registros na Colômbia em 2018, com pelo menos 84 mortos em confrontos entre forças de segurança e grupos armados desde que o presidente De la Espriella assumiu em 7 de agosto. Essa nova doutrina, segundo analistas, substitui a política de “Paz Total” de seu antecessor por um conflito aberto, oferecendo aos membros de grupos armados apenas duas opções: prisão ou morte.
A mudança de postura tem um componente estratégico importante. A Colômbia ofereceu Medellín como sede do “Escudo das Américas”, um bloco de segurança liderado pelos EUA do qual o país faz parte desde agosto. A delegação americana para a posse do presidente foi liderada pelo chefe da DEA, e Washington prometeu US$ 1 bilhão em assistência de segurança. Conforme o Campo Grande NEWS checou, essa oferta para sediar a organização pode ancorar institucionalmente a aliança em solo colombiano, algo que nem mesmo o Plano Colômbia formalizou.
Alerta dos EUA: Guerra no Irã Drena Recursos da América Latina
Um relatório do The Washington Post revelou que os mais altos comandantes militares americanos, incluindo o responsável pela América Latina, alertaram formalmente o Secretário de Defesa Pete Hegseth sobre o impacto da guerra de seis meses contra o Irã. A campanha militar está esgotando navios, aeronaves e equipamentos de suas respectivas regiões, levando a objeções formais de “não concordância”.
Mais de 50.000 soldados estão comprometidos com o teatro de operações iraniano, com alguns desdobramentos previstos até 2027. Equipamentos foram retirados de diversas regiões, incluindo a América Latina, para sustentar o bloqueio e os ataques no Estreito de Ormuz. Para a América Latina, essa redução de recursos coincide com o aumento da campanha de ataques a embarcações no Caribe e no Pacífico Oriental, que já ultrapassou 227 mortos em pelo menos 68 operações, enquanto um grupo de porta-aviões dos EUA permanece na região. A objeção formal do Comando Sul (SOUTHCOM) é um ato burocrático com peso estratégico, indicando que o teatro de operações está sendo esvaziado. Conforme o Campo Grande NEWS apurou, se a guerra no Irã diminuir, espera-se uma rápida realocação de ativos navais para o Caribe, mas caso contrário, países que apostam na capacidade americana podem enfrentar atrasos.
Equador: Aprofundamento da Presença Militar Americana
O Equador confirmou que os soldados americanos operando em seu território pertencem ao 7º Grupo de Forças Especiais do Exército, a unidade “Boinas Verdes” responsável pela América Latina. Esses militares trabalham em conjunto com as forças equatorianas no combate ao narcotráfico. O governo do presidente Noboa concedeu entrada sem visto por até 180 dias por ano para o pessoal militar dos EUA, e dois navios de guerra americanos chegaram para apoiar a campanha.
O Equador também discute a reabertura da base militar dos EUA em Manta, fechada em 2009. Essa cooperação representa a mais profunda penetração militar americana na América do Sul desde a Guerra Fria, com “Boinas Verdes” em terra, navios em alto mar e operações secretas em suas águas. Para o presidente Noboa, a luta contra os cartéis que transformaram seus portos em centros de violência global é uma promessa de segurança. O risco, no entanto, é a possibilidade de uma missão que começa com treinamento evoluir para uma presença permanente, um cenário familiar na região.
UNITAS LXVII: Exercício Naval Multinacional Ganha Nova Dimensão
O Peru está sediando a UNITAS LXVII, a mais longa e tradicional série de exercícios navais multinacionais do mundo. Este ano, a edição expandiu suas fases para incluir operações anfíbias, fluviais na Amazônia, defesa cibernética e de lagos, indo além do tradicional exercício marítimo. A Argentina enviou navios e pessoal para o Peru, participando também do exercício de submarinos Siforex XIV.
O exercício ocorre em um momento de fortalecimento das relações de defesa entre EUA e Peru, com a modernização da base naval de Callao e negociações para a aquisição de caças F-16. A UNITAS representa a face multilateral e respeitável de uma tendência maior: a integração das marinhas do hemisfério em torno de estruturas de comando americanas. As novas fases do exercício indicam um reajuste sutil, focando nos rios e redes onde os conflitos reais da região se manifestam, em vez de apenas ações de frota em águas abertas. Conforme o Campo Grande NEWS destaca, essa expansão reflete a adaptação das forças navais aos desafios contemporâneos.
Venezuela: A Lição da Guerra Cibernética Contra Defesas Russas
Novas reconstruções da operação americana na Venezuela em janeiro revelaram como a densa rede de defesa antiaérea russa foi neutralizada. Um ataque cibernético cortou a energia em Caracas, permitindo que cerca de 150 aeronaves americanas se aproximassem sem detecção, seguido por ataques a seis locais de defesa antiaérea. Os sistemas russos, incluindo S-300VM, Buk-M2 e Pantsir, com suporte de radar chinês, destruíram poucas ou nenhuma aeronave americana.
Essa operação é um estudo de caso para todos os ministérios da defesa do continente. Uma rede de defesa aérea robusta, construída com tecnologia russa e sensores chineses, foi desativada por meios cibernéticos antes mesmo de ser atacada fisicamente. Essa lição influenciará futuras aquisições e diplomacia, explicando em parte a escolha da Colômbia pelo alinhamento com os EUA e a busca por alternativas por parte de outros países da região. O governo pós-Maduro, que emergiu após a operação, agora coopera com as forças americanas, como demonstrado por uma operação conjunta em junho que eliminou o líder do grupo criminoso Tren de Aragua.
México: Entre Washington e Pequim, a Arte de Não Escolher Lados
Enquanto os Estados Unidos intensificam o combate aos cartéis em sua fronteira, o Secretário das Relações Exteriores do México, Roberto Velasco Álvarez, iniciou sua primeira visita a Pequim. A viagem visa aprofundar a parceria estratégica com a China, ocorrendo dias após os primeiros abates operacionais de drones de cartéis por lasers militares americanos na fronteira e em meio a pressões comerciais dos EUA sobre o México.
Este cenário ilustra a complexa dança diplomática da região. Cada capital latino-americana observou as operações na Venezuela e no Caribe e tirou uma conclusão semelhante: o guarda-chuva de segurança americano vem com condições. O México cortejando Pequim enquanto lasers americanos guardam sua fronteira norte é um microcosmo da tensão hemisférica: dependência de segurança de Washington, cortejo econômico a Pequim e a clara intenção de não se posicionar. A postura de “equilíbrio” do México, conforme analisado pelo Campo Grande NEWS, reflete uma estratégia de diversificação em um mundo cada vez mais multipolar.


