Colômbia em Alerta: Gás Acaba e Seca Ameaça Energia

A Colômbia enfrenta um cenário energético preocupante. Com suas reservas de gás natural em declínio acentuado e a iminência de um período de seca severa devido ao fenômeno El Niño, o país se vê em uma posição vulnerável, potencialmente transformando-se de exportador para importador de energia. A situação se agrava pois a matriz energética colombiana depende majoritariamente da energia hidrelétrica, que é diretamente afetada pela falta de chuvas.

O país, que por décadas forneceu gás e eletricidade para seus vizinhos, agora vê essa confortável posição ameaçada. Dois eventos recentes destacam a urgência da situação: o relatório oficial de reservas de gás mostrou uma queda drástica, enquanto o operador da rede alertou sobre um possível nível histórico baixo de água nos reservatórios devido a uma seca iminente. Conforme informações divulgadas pela agência nacional de hidrocarbonetos e pelo ministério de energia, as reservas provadas de gás caíram 16,8% em 2025, totalizando 1.717 gigapés cúbicos.

Desde 2018, as reservas provadas de gás na Colômbia já acumulam uma redução de aproximadamente 54,6%. Essa diminuição nas reservas, combinada com a previsão de um El Niño forte com probabilidade acima de 60% para 2026-27, coloca em risco a segurança energética do país. A rede elétrica, que depende em cerca de dois terços da energia hidrelétrica, torna-se particularmente exposta a essas condições climáticas adversas.

Queda Drástica nas Reservas de Gás Natural

A situação do gás natural é o ponto mais crítico. O relatório anual de reservas revelou uma queda de quase 17% em um único ano, reduzindo o volume de 2.064 gigapés cúbicos no final de 2024 para 1.717 um ano depois. Analisando um período mais longo, a situação é ainda mais alarmante, com uma queda de cerca de 55% desde 2018, quando as reservas estavam próximas de 3.800 gigapés cúbicos. A taxa de reservas em relação à produção, que indica por quantos anos as reservas atuais durariam com a produção atual, permaneceu em 5,9 anos, mas isso se deve, em grande parte, à própria queda na produção, e não a um aumento nas reservas. Conforme o Campo Grande NEWS checou, essa métrica pode mascarar a realidade da diminuição dos recursos.

O petróleo, embora apresente um cenário mais calmo, não é totalmente tranquilizador. As reservas provadas de petróleo bruto caíram ligeiramente para cerca de 2.020 milhões de barris, e a medida de anos de suprimento subiu de 7,2 para 7,4 anos. No entanto, essa melhora também se deve à produção mais fraca, e o país substituiu apenas 94 barris para cada cem que produziu. Essa diminuição nas reservas de gás já impacta diretamente o abastecimento do país, forçando a Colômbia a importar entre um quarto e um terço do gás que consome. Esse gás importado, em forma liquefeita, chega ao terminal de Cartagena e tem um custo superior ao do gás produzido internamente.

O Risco da Rede Elétrica Dependente da Chuva

A dependência da energia hidrelétrica, que representa cerca de dois terços da eletricidade do país, torna a rede colombiana extremamente vulnerável a secas. Em anos chuvosos, a energia hidrelétrica é uma fonte barata e limpa. Contudo, em períodos de estiagem, a geração diminui, forçando o acionamento de usinas termelétricas que queimam gás ou carvão para suprir a demanda. O gás natural se torna, então, o combustível crucial para estabilizar o sistema quando os rios estão baixos.

O dilema surge no momento em que a Colômbia mais precisa do gás, que é justamente durante uma seca, e é precisamente quando suas próprias reservas de gás estão em declínio e as importações se tornam mais caras. Essa situação cria uma pressão dupla sobre o sistema: menos água para as turbinas hidrelétricas e um suprimento de gás mais caro e escasso para compensar. O cenário climático é desfavorável, com o instituto meteorológico do país indicando uma probabilidade acima de 95% para a formação de um El Niño na segunda metade de 2026, com uma chance de 63% de atingir uma intensidade muito forte, comparável a eventos severos registrados desde 1950. O El Niño tende a trazer seca para a Colômbia exatamente quando os reservatórios mais precisam de água.

A Proximidade do Limite e o Risco de Racionamento

O operador da rede, conhecido como XM, alertou sobre a fragilidade do sistema. Em seu boletim mais recente, a XM advertiu que, em um cenário de seca severa, o nível combinado dos reservatórios do país poderia cair para cerca de 19% de sua capacidade entre dezembro de 2026 e abril de 2027. Esse índice é alarmante, considerando que durante o último El Niño em 2024, os reservatórios atingiram um mínimo de 27%, e o país esteve perto de implementar racionamento. Uma queda para 19% seria um território inexplorado para o sistema elétrico colombiano. Conforme o Campo Grande NEWS checou, o sistema nunca operou em níveis tão baixos.

Atualmente, em meados de junho, o nível agregado dos reservatórios está em cerca de 74%, beneficiado por chuvas recentes. No entanto, a XM ressalta que o nível precisa ultrapassar 80% antes do início da estação seca para garantir a segurança energética durante um El Niño severo, e a janela de oportunidade para atingir essa meta está se fechando. A demanda por eletricidade na rede nacional está crescendo a uma taxa de quase 6% ao ano, atingindo recordes históricos, impulsionada pelo calor, feriados e eventos esportivos. Contudo, a adição de nova capacidade de geração está lenta; de cerca de 4.500 megawatts previstos para 2026, apenas algumas centenas entraram em operação até junho. A XM indica que a demanda já excede a oferta confiável disponível em cerca de 2%.

Impactos Econômicos e Políticos

O potencial racionamento de energia representa um impacto econômico significativo. Analistas estimam que a volta do racionamento custaria à economia colombiana cerca de 1,5 milhão de dólares por hora, além de aumentar as tarifas de eletricidade e desestimular investimentos no setor. Um racionamento prolongado, no estilo dos anos 1990, causaria danos muito maiores, afetando o crescimento e o emprego. Em 2024, o aumento da dependência de usinas termelétricas elevou o preço da eletricidade no mercado spot em mais de 200%, impactando a economia em geral. Quanto mais o país depende de gás importado e caro para operar essas usinas, maior o custo desse backup energético.

Há também uma fragilidade financeira no setor. Diversos distribuidores de energia enfrentam dificuldades de caixa, e uma grande concessionária no Caribe possui dívidas bilionárias com outros atores do setor. A incapacidade de pagar os geradores termelétricos pode levar a uma crise de liquidez regional que se agrave para um problema nacional de suprimento. A situação se agrava com a iminente posse de um novo governo, que precisará lidar com essa crise energética desde o início. O presidente eleito, Abelardo De La Espriella, que assume em agosto, tem como prioridade a reabertura da exploração de petróleo e gás, revertendo a moratória que contribuiu para a diminuição das reservas. Contudo, a payoff dessa decisão levará anos para se concretizar. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a indústria pressiona o novo governo a agir rapidamente para garantir o suprimento de combustível e reconstruir os níveis dos reservatórios antes da chegada do pior período de seca.

Para investidores, essa crise energética tem implicações diretas na inflação, nas finanças públicas e no custo de fazer negócios. O aumento das tarifas de eletricidade devido ao uso de gás importado mais caro pressiona a inflação e dificulta a redução das taxas de juros. Além disso, a diminuição das receitas de royalties do petróleo e gás, fontes importantes para o estado, agrava o déficit orçamentário. A Colômbia construiu seu sistema energético sobre a base de hidrelétricas baratas e gás doméstico abundante, e ambos os pilares estão enfraquecendo simultaneamente. A gestão dessa transição exigirá investimentos significativos e tempo, recursos que a seca iminente não esperará. Os próximos nove meses serão cruciais para determinar se a transição energética da Colômbia será gerenciada ou desordenada.