China arma terras raras contra EUA: o choque que abala o mercado global

A China demonstrou sua força no cenário global ao responder a medidas dos Estados Unidos com uma jogada estratégica no controle de terras raras. Em uma ação que pegou muitos de surpresa, Pequim adicionou empresas americanas, incluindo aquelas focadas em reduzir a dependência de minerais chineses, à sua lista de controle de exportações. O movimento, embora classificado por alguns como simbólico, carrega um peso significativo, especialmente para países como os da América Latina, ricos em recursos minerais estratégicos.

A Ameaça das Terras Raras Chinesas

No dia 22 de junho de 2026, a China, através do Ministério do Comércio, anunciou a inclusão de dez entidades americanas em sua lista de controle de exportações. A medida, amparada pela Lei de Controle de Exportações e Regulamentos sobre Itens de Uso Duplo, atingiu nomes como Ball Aerospace, Oshkosh Defense e L3Harris Maritime Services. Mais notavelmente, foram incluídas MP Materials e USA Rare Earth, empresas que o próprio governo americano tem financiado para quebrar o monopólio chinês nas terras raras.

A resposta chinesa não foi uma tarifa ou uma negociação, mas sim um aperto no fornecimento de materiais essenciais. A proibição abrange a exportação de itens de uso duplo para as empresas listadas e, crucialmente, impede a transferência de bens de uso duplo de origem chinesa para elas, independentemente de onde estejam localizadas. Essa restrição é um banimento completo, contrastando com regimes anteriores que exigiam apenas licenças.

Embora analistas tenham inicialmente rotulado a ação como simbólica, dados recentes do U.S. Geological Survey e a própria dinâmica da dependência global contam uma história diferente. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a China detém uma posição dominante na cadeia produtiva de terras raras, controlando cerca de 60% da mineração global, 90% do processamento e separação, e impressionantes 94% dos ímãs de terras raras mundialmente. Essa concentração de poder permite a Pequim exercer uma influência considerável sobre o mercado.

O Gatilho Americano e a Resposta Coordenada

O estopim para a ação chinesa foi a atualização, no início de junho, da lista de “Empresas Militares Chinesas” pelo Pentágono. Essa lista, ampliada sob uma definição mais abrangente de “fusão militar-civil”, incluiu gigantes comerciais como Alibaba, Baidu, BYD e NIO. A China havia alertado previamente que uma expansão dessa lista resultaria em uma resposta.

O Announcement No. 23 de 2026 foi precisamente essa resposta, enquadrada por um porta-voz do Ministério do Comércio como uma reação à medida americana e uma salvaguarda à segurança nacional e aos compromissos de não proliferação. A ação chinesa não veio isolada; o Ministério das Finanças também restringiu cerca de 46 empresas americanas de participar de licitações governamentais chinesas. Além disso, novas regras de investimento transfronteiriço, que aumentam a supervisão sobre a transferência de bens, tecnologia e dados sensíveis, entraram em vigor em 1º de julho.

Essa coordenação entre controle de exportações, aquisições governamentais e investimentos demonstra um reflexo institucional de um estado que construiu a maquinaria legal para agir de forma decisiva e estratégica. A China projeta sua influência através do controle de materiais críticos e do know-how de processamento, uma tática que imita a lógica extraterritorial americana. As regras de outubro de 2025, por exemplo, exigem licença para produtos estrangeiros contendo mais de 0,1% de terras raras de origem chinesa ou feitos com tecnologia de processamento chinesa.

A Dependência em Números e o Alvo Americano

Os números pintam um quadro claro da dependência. Entre 2020 e 2023, a China forneceu 70% dos compostos e metais de terras raras importados pelos EUA. Em 2025, os Estados Unidos eram 67% dependentes de importações para terras raras em geral, e 100% para escândio e ítrio, elementos vitais para aplicações de defesa, como revestimentos de motores de jatos. Os estoques domésticos de terras raras dos EUA somam cerca de 1,9 milhão de toneladas, contra 44 milhões da China, uma proporção de 23 para 1 em favor de Pequim.

O problema americano nunca foi a rocha em si, mas sim a capacidade de refino e separação, um processo tecnicamente complexo e ambientalmente desafiador, concentrado majoritariamente na China. Washington investiu pesadamente para mitigar essa lacuna, com o Departamento de Defesa aplicando US$ 400 milhões em participação acionária na MP Materials em 2025 e oferecendo empréstimos e um preço mínimo para a produção de neodímio-praseodímio. A produção americana de terras raras refinadas cresceu mais de 400% em 2024.

É exatamente aí que reside a agudeza da ação de 22 de junho. As empresas MP Materials e USA Rare Earth são o ponto focal desse esforço americano. O novo complexo de ímãs da USA Rare Earth em Oklahoma só deve atingir a produção em 2028, mas seu desenvolvimento ainda depende de validação de processos e suporte material chinês. Ao colocar essas empresas na lista de controle, a China não visa impactar suas exportações de ímãs diretamente, mas sim atingir o calcanhar de Aquiles da independência da cadeia de suprimentos americana: os próprios projetos destinados a acabar com a dependência estão agora presos a ela.

América Latina em Ponto de Inflexão

A disputa pelas terras raras e outros minerais críticos não é um problema distante; é um prenúncio de decisões cruciais que a América Latina enfrentará. O continente possui reservas significativas de lítio, especialmente no “triângulo do lítio” (Chile, Argentina e Bolívia), e um potencial crescente em terras raras, com o Brasil figurando entre os maiores detentores de recursos fora da China. A questão que se coloca para esses países é clara: desejam ser meros exportadores de minério bruto, sujeitos às flutuações e pressões globais, ou buscam desenvolver o processamento e agregar valor, transformando reservas em poder estratégico?

A lição cautionary é que reservas por si só não garantem nada. A Índia, apesar de possuir vastas reservas de minério de terras raras, ainda importa 90% de seus ímãs da China. Os EUA, com 1,9 milhão de toneladas de reservas, mantêm uma dependência de importação de 67%. Para a América Latina, o lítio e as terras raras permanecerão inertes sem o desenvolvimento de refino, separação e fabricação – as etapas que a China protege com rigor, tendo proibido a exportação de sua tecnologia de processamento em 2023. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a oportunidade reside na busca ativa de nações como EUA, Japão e Austrália por jurisdições amigáveis para investimento em cadeias de suprimentos alternativas.

Um governo latino-americano que ofereça estabilidade política e uma estratégia de processamento, e não apenas a promessa de extração, poderá converter este momento em alavancagem duradoura. Aqueles que se limitarem a minerar e exportar, como a Índia exemplifica, descobrirão que possuir a rocha não é o mesmo que possuir o ponto de estrangulamento. Conforme o Campo Grande NEWS aponta, a estratégia de desenvolvimento mineral deve ir além da extração bruta.

O Que Observar no Futuro Próximo

Três fatores indicarão se a ação de 22 de junho permanecerá simbólica ou se tornará estrutural. Primeiro, a expansão da lista chinesa para incluir clientes comerciais de terras raras, o que transformaria um ataque direcionado em uma ameaça real de suprimento. Segundo, a manutenção ou o colapso da trégua em 10 de novembro sobre as regras mais amplas de extraterritorialidade, cujo vencimento teria um impacto muito maior do que a lista atual. Terceiro, para a América Latina, a capacidade de produtores regionais de passar do anúncio de reservas para o financiamento de capacidade de processamento com capital aliado. A China levou quinze anos para transformar uma vantagem material em uma arma estratégica. Os países que aprenderem com 22 de junho serão aqueles que começarão a construir sua própria alavancagem antes que seja tarde demais. Conforme o Campo Grande NEWS analisou, a preparação antecipada é chave para a soberania econômica.