Um projeto pioneiro no Brasil, o “Reciclarbono”, está prestes a mudar a vida de centenas de catadores de materiais recicláveis em Mato Grosso do Sul. A iniciativa, que se encontra em fase final de certificação internacional, tem como objetivo remunerar diretamente cooperativas e associações pelo seu trabalho na reciclagem, gerando créditos de carbono. A expectativa é que os primeiros pagamentos sejam realizados ainda no primeiro semestre deste ano, trazendo um reforço financeiro significativo para os trabalhadores.
Projeto inovador paga por reciclagem com créditos de carbono
O “Reciclarbono” reúne cerca de 260 catadores organizados em 10 cooperativas e associações espalhadas por sete municípios de Mato Grosso do Sul, com quatro delas localizadas na capital, Campo Grande. Este projeto inédito no país busca não apenas a valorização, mas também a dignidade dos profissionais da reciclagem. A coordenadora do projeto, a engenheira ambiental Bruna Gonçalves, destaca que o diferencial é o repasse integral dos recursos obtidos com os créditos de carbono diretamente para os catadores, algo que, segundo ela, ainda não existe em território nacional.
A importância ambiental da iniciativa é notável. Conforme esclarece o projeto, o impacto climático gerado equivale ao plantio e cultivo de aproximadamente 228,5 mil árvores ao longo de 20 anos. Essa equivalência ambiental cobre uma área vasta, comparável a cerca de 28 campos de futebol padrão FIFA. Essa métrica ressalta o papel crucial da reciclagem na mitigação das mudanças climáticas.
Bruna Gonçalves explica que a elaboração e inscrição em projetos de crédito de carbono geralmente demandam altos investimentos, o que se torna um obstáculo para o acesso direto dos catadores a esse mercado. O “Reciclarbono” foi desenvolvido justamente para superar essa barreira, garantindo que os benefícios financeiros alcancem quem realmente faz a coleta e o processamento dos materiais recicláveis.
Certificação internacional e validação de dados
Atualmente, o projeto está em uma etapa crucial: a verificação independente. Nessa fase, a certificadora responsável revisa os cálculos de carbono evitado e os dados coletados pelas cooperativas e associações. Um verificador internacional realiza auditorias para, então, a certificadora emitir os créditos de carbono para as organizações. A metodologia aplicada baseia-se em parâmetros estabelecidos pela ONU e os dados são lastreados pelo SISREV (Sistema de Rastreabilidade dos Materiais Validados pela Legislação de Logística Reversa de Embalagens em Geral).
Somente após essa validação rigorosa é que os créditos de carbono podem ser oficialmente emitidos e comercializados. Conforme divulgado pelo Campo Grande NEWS, a expectativa é que o primeiro pagamento ocorra até o final de junho, dependendo da conclusão do processo de certificação e da velocidade de comercialização dos créditos. A comercialização dos créditos permitirá que o projeto inicie o repasse dos valores arrecadados diretamente às organizações de catadores.
A divisão dos recursos entre as cooperativas e associações será proporcional ao volume de reciclagem gerado por cada uma. Essa transparência na distribuição garante que o trabalho de cada grupo seja devidamente reconhecido e recompensado. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a iniciativa busca assegurar que os recursos cheguem efetivamente aos trabalhadores, com salvaguardas sociais implementadas para esse fim.
Como o “Reciclarbono” opera e gera valor
A operação do “Reciclarbono” se baseia nos dados do SISREV/MS, um sistema em funcionamento desde 2019 no estado. Por meio dele, é possível registrar e rastrear o volume de materiais reciclados por cada organização participante. Com base nessas informações, são calculadas as emissões de dióxido de carbono evitadas pela reciclagem. Essa redução ocorre porque o reaproveitamento de materiais diminui a necessidade de extração de matérias-primas virgens, economiza energia e evita emissões industriais.
A engenheira Bruna Gonçalves explica que os créditos de carbono podem ser gerados tanto pela absorção de carbono da atmosfera, como no plantio de árvores, quanto pelo “carbono evitado”, que é o caso da reciclagem. Quando, por exemplo, uma garrafa de vidro é reciclada, evita-se a extração de matérias-primas como sílica e areia, além de reduzir a emissão de CO2 no processo produtivo.
A expectativa do projeto é gerar em torno de 20 mil créditos de carbono, o que pode se traduzir em aproximadamente R$ 1 milhão em receitas extras para os trabalhadores. Essa renda adicional representa um reforço considerável, considerando que a média salarial atual dos catadores gira em torno de R$ 1,4 mil mensais. Conforme o Campo Grande NEWS apurou, parte dos valores arrecadados poderá ser destinada a melhorias coletivas, como infraestrutura e equipamentos, desde que aprovado em assembleia pelas organizações de catadores.
Impacto social e ambiental do projeto
O “Reciclarbono” já contribuiu para a devolução de aproximadamente 13,2 mil toneladas de materiais recicláveis ao ciclo produtivo nos anos de 2024 e 2025. Essa quantidade expressiva demonstra o impacto direto do trabalho dos catadores na economia circular e na preservação ambiental. O projeto é conduzido pelo IBRAPARC (Instituto Brasileiro de Pesquisa Aplicada em Resíduos e Clima), com o apoio de diversas instituições relevantes, incluindo o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, o Ministério Público de Mato Grosso do Sul e a UCDB (Universidade Católica Dom Bosco).
A iniciativa demonstra um modelo promissor de como a valorização do trabalho dos catadores pode gerar benefícios ambientais e econômicos significativos. Ao conectar a cadeia produtiva da reciclagem ao mercado de créditos de carbono, o “Reciclarbono” abre um novo horizonte de oportunidades para esses profissionais, promovendo sustentabilidade e justiça social.

