Um marco para as políticas públicas em Campo Grande foi alcançado com a conclusão da contagem e do levantamento do perfil da população em situação de rua. O trabalho, coordenado pelo Grupo de Trabalho Intersetorial da População em Situação de Rua (GT-PSR), com forte atuação do Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), identificou 1.476 pessoas vivendo nas ruas da capital sul-mato-grossense. Este mapeamento detalhado é considerado um divisor de águas para a formulação de ações governamentais mais eficazes e direcionadas.
A Promotora de Justiça Paula Volpe, coordenadora do Núcleo de Cidadania (Nuci) do MPMS, ressaltou a importância dos dados coletados. “Não se faz política pública sem dados. Não há como trabalhar em cima de uma realidade que não é plenamente conhecida”, afirmou Volpe. Ela enfatizou que o diagnóstico preciso é fundamental para estruturar ações eficientes, especialmente diante de um desafio complexo que atinge grandes centros urbanos e exige articulação contínua entre Estado, Município e forças de segurança.
Contagem Detalhada: Um Retrato da Realidade
A contagem, realizada em 30 de setembro de 2025, utilizou a metodologia Point-in-Time Count (PIT), combinando observação direta em espaços públicos com dados de registros administrativos. O objetivo foi produzir um retrato fiel da população em situação de rua em uma data específica. Do total de 1.476 pessoas, 842 (57%) foram observadas em vias públicas, enquanto 634 (43%) constavam em registros de serviços e instituições da rede de atendimento.
Os dados revelam um perfil predominantemente masculino, com 1.190 homens (80,6%), 234 mulheres (15,9%) e 52 crianças (3,5%) identificadas. Em termos de distribuição territorial, a Região Urbana do Centro concentrou o maior número de pessoas, com 566 registros (40%), seguida pelo Anhanduizinho, com 363 (25,6%). Outras regiões como Prosa, Lagoa, Segredo, Bandeira e Imbirussu também apresentaram registros, além de 60 pessoas contabilizadas em uma comunidade terapêutica na área rural.
Perfil Socioeconômico e Desafios Enfrentados
A segunda etapa do levantamento focou na aplicação de questionários, resultando em 257 entrevistas. O perfil predominante dos entrevistados é masculino e pardo, com uma idade média de 39,6 anos. Dentre os entrevistados, 196 são homens cis (76,3%) e 54 são mulheres cis (21%). A predominância de pessoas pardas (60,3%) e pretas (17,1%) também foi observada.
A questão da documentação é um ponto crítico, com 46,7% dos entrevistados (120 pessoas) sem nenhum documento em posse. Entre as pessoas em situação de rua, esse percentual sobe para 57,5%. Apesar disso, 135 pessoas estavam inscritas no Cadastro Único e 101 recebiam algum benefício social. A recorrência na situação de rua foi apontada por 64,6% dos entrevistados (166 pessoas), e 73,9% (190 pessoas) relataram permanecer sozinhas.
Necessidades e Violência: Um Panorama Alarmante
Em relação ao trabalho e renda, 7 entrevistados possuíam trabalho formal, enquanto 94 declararam trabalho informal. Dentre as pessoas em situação de rua, 45,6% (88 pessoas) relataram trabalho informal, com catagem e reciclagem sendo atividades frequentes. O acesso a direitos e a situações de violência foram também investigados. A violência física foi registrada em 49,4% das entrevistas (127 pessoas), seguida pela violência psicológica ou emocional (121 registros). Violência institucional foi relatada por 56 pessoas e violência sexual por 24.
As necessidades mais apontadas pelos entrevistados incluem trabalho e renda (110 registros), moradia (108), alimentação (107) e saúde (100). Para o grupo em situação de rua, a alimentação surge como a necessidade mais urgente. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a articulação interinstitucional é vista como essencial para atender a essas demandas de forma integrada e humanizada. O GT-PSR, composto por diversas secretarias municipais e estaduais, Defensoria Pública, IBGE e associações, tem o papel crucial de subsidiar o planejamento e o acompanhamento de políticas públicas efetivas para essa população.
Um Esforço Conjunto para o Futuro
O trabalho conjunto do GT-PSR, liderado pelo MPMS, demonstra um compromisso em enfrentar a complexidade da população em situação de rua em Campo Grande. Os dados coletados são essenciais para que as políticas públicas sejam baseadas em evidências, garantindo que os recursos sejam direcionados de forma eficiente para atender às necessidades mais urgentes. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a continuidade desse monitoramento e a articulação entre os órgãos envolvidos são fundamentais para a construção de soluções sustentáveis e para a promoção da dignidade humana.
A Promotora Paula Volpe reforçou que a união de esforços é a única solução viável quando o problema envolve saúde e segurança pública. Com o diagnóstico em mãos, a expectativa é que Campo Grande possa entregar resultados concretos e transformar a realidade de milhares de cidadãos. O Campo Grande NEWS continuará acompanhando os desdobramentos dessas ações e os impactos na vida da população em situação de rua.

