A campanha de Luiz Inácio Lula da Silva acusa a inteligência artificial da Meta, integrada ao WhatsApp, de favorecer o candidato adversário, Flávio Bolsonaro, na disputa presidencial. A alegação central é que a ferramenta teria se recusado a gerar imagens de Lula com seu número de campanha (13), mas produzido materiais promocionais para Bolsonaro (22). A polêmica já chegou à Justiça Eleitoral brasileira e pode se estender a órgãos internacionais, como a Organização dos Estados Americanos (OEA).
A disputa eleitoral no Brasil, prevista para o dia 25 de outubro, ganha um novo capítulo com as denúncias de interferência por parte de uma gigante da tecnologia. A Meta, proprietária do Facebook, Instagram e WhatsApp, nega qualquer tipo de favorecimento e afirma que a IA é instruída a não criar imagens de candidatos, além de ter implementado bloqueios adicionais para evitar manipulações.
A campanha de Lula, representada pela coligação Brasil Pronto pra Mais, protocolou uma representação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), pedindo medidas urgentes contra o que classifica como uma “manipulação do debate público”. A ação busca a suspensão de restrições consideradas injustificadas, a remoção de contas falsas e a restauração do alcance perdido nas plataformas da Meta, tudo isso custeado pela empresa. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a empresa já havia sido notificada anteriormente para apresentar registros e explicações sobre as supostas restrições.
As denúncias ganharam força após testes realizados pela revista CartaCapital e pelos sites Poder360 e Diário do Nordeste. Em 14 de outubro, ao solicitar a criação de cartazes com o nome e número de Lula (13), a IA do WhatsApp teria recusado, alegando um bloqueio automático. Em contrapartida, a mesma ferramenta teria gerado imagens para Flávio Bolsonaro (22) e para Augusto Cury, outro candidato do primeiro turno (70). Poder360 também identificou que a IA bloqueava nomes como “Lula”, “Luiz”, “Flávio Bolsonaro” e “Bolsonaro”, mas permitia o uso do primeiro nome “Flávio”.
O senador Camilo Santana, líder do PT no Senado e porta-voz da campanha, relatou padrões semelhantes. Segundo ele, ao pedir uma bandeira “Exército do Lula”, a IA sugeriu uma página de apoio a Flávio, denominada “Tropa do Flávio”. Conforme o Campo Grande NEWS apurou, a Meta admitiu a ocorrência de falhas técnicas, mas, segundo Santana, não tem sido transparente sobre as causas.
Plataforma Meta na Mira da Justiça Eleitoral
A representação enviada ao TSE pela campanha de Lula pede que a Meta cesse as restrições, remova perfis considerados falsos e compense o alcance perdido em suas postagens. A coligação alega que o perfil oficial de Lula no Instagram foi impedido de impulsionar publicações em 9 e 10 de outubro, o que, em sua visão, beneficia a candidatura do Partido Liberal (PL) de Bolsonaro.
O juiz Marco Aurélio Bellizze já havia determinado que a Meta apresentasse seus registros e explicasse as restrições reportadas. No entanto, até o momento da nova representação, não havia decisão judicial sobre o pedido urgente. A campanha de Lula busca, ainda, dados detalhados sobre a distribuição de conteúdo nas plataformas da empresa.
OEA e pressão internacional
A campanha de Lula planeja expandir a denúncia para a Organização dos Estados Americanos (OEA), em Washington. A intenção é expor o que consideram uma “interferência” de grandes empresas de tecnologia nas eleições brasileiras. Conforme o Campo Grande NEWS informou, membros da campanha se reuniram com representantes de partidos e grupos pró-democracia de mais de 12 países, incluindo Estados Unidos, Reino Unido, Argentina e Espanha, buscando apoio e atenção internacional.
O marketing da campanha, liderado por Sidônio Palmeira, comparou a situação ao episódio do Brexit no Reino Unido, sugerindo uma influência externa nas decisões eleitorais. A campanha também pretende apresentar um relatório sobre os incidentes a observadores internacionais credenciados pelo TSE, que incluem missões da OEA, União Europeia e do Carter Center. A expectativa é que a questão seja levantada pelos observadores antes do pleito.
Posição da Meta e próximos passos
A Meta, por sua vez, reitera que nega favorecer qualquer candidato e que, para cumprir as regras eleitorais brasileiras, a sua IA está temporariamente impedida de recomendar candidatos ou gerar suas imagens. A empresa afirma ter tomado medidas para bloquear comandos que utilizem apenas o primeiro nome e o número de um candidato. Em 12 de outubro, a companhia já havia admitido falhas técnicas que afetaram anúncios e posts de Lula, mas negou ter favorecido Flávio Bolsonaro em uma manifestação ao tribunal.
Paralelamente, o Ministério Público Federal deu um prazo de cinco dias para que a Meta e a plataforma X (antigo Twitter) expliquem o bloqueio de contas e a exclusão de posts políticos. Essa ação foi motivada por denúncias de grupos da sociedade civil, e não diretamente pelas campanhas eleitorais. A situação coloca a Meta em uma posição delicada, enfrentando investigações judiciais, inquéritos do Ministério Público e uma potencial pressão regional na América Latina.
Para investidores nos Estados Unidos, as decisões judiciais no Brasil sobre a distribuição de conteúdo de campanha podem ter repercussões globais. Para os usuários do WhatsApp no Brasil, o caso evidencia o crescente papel das inteligências artificiais nas disputas políticas e a importância da vigilância sobre o uso dessas ferramentas. A Meta assegura que a IA agora está proibida de criar imagens de qualquer candidato, mesmo com o uso de nomes próprios.
As casas de apostas de mercados de previsão, como a Polymarket, indicam uma vantagem para Flávio Bolsonaro, com 83% de chance de vitória em 15 de outubro, enquanto Lula aparecia com 16,5%. No entanto, nos últimos dias, houve uma leve queda na probabilidade de Bolsonaro e um aumento para Lula, com cerca de US$ 182 milhões apostados no mercado. Resta saber se as denúncias de parcialidade da IA da Meta terão impacto significativo no resultado final da eleição.


