O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) deu o sinal verde para a aquisição do Consórcio Guaicurus, responsável pelo transporte coletivo em Campo Grande (MS), pelo Grupo HP Mobilidade, com sede em Goiânia (GO). A decisão, publicada em 8 de outubro de 2026, libera a compra das quatro empresas que integram o consórcio: Viação Cidade Morena, Jaguar Transportes Urbanos, Viação Campo Grande e Viação São Francisco. O negócio, que havia sido antecipado pelo Diário do Transporte em julho, representa um passo significativo para o Grupo HP em sua estratégia de expansão no setor de transporte urbano.
A aprovação pelo Cade, em análise concorrencial, significa que a operação não apresenta riscos à livre concorrência no mercado. No entanto, a conclusão da transferência de controle das empresas ainda depende de um aval crucial: a autorização da Prefeitura de Campo Grande. A prefeita Adriane Lopes estabeleceu condições claras para que o negócio seja efetivado, exigindo investimentos em melhorias significativas no sistema de transporte público da capital sul-mato-grossense.
Condições da Prefeitura para a transferência
As exigências da Prefeitura de Campo Grande visam sanar problemas crônicos que afetam a qualidade do transporte público na cidade. Entre as principais demandas estão a renovação da frota de ônibus, a incorporação de veículos com ar-condicionado e a realização de melhorias urgentes nos terminais. Estas cobranças refletem as insatisfações dos passageiros com a conservação dos veículos, o cumprimento das linhas e a qualidade geral do serviço, que já motivaram uma intervenção municipal e questionamentos do Tribunal de Contas do Estado (TCE-MS).
O Grupo HP, liderado pelo empresário Edmundo Pinheiro, presidente da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU), tem como meta se tornar o maior conglomerado de transporte urbano do Brasil até 2035. A aquisição do Consórcio Guaicurus se insere diretamente nessa visão de crescimento, que envolve tanto a expansão de operações existentes quanto a realização de novas aquisições estratégicas. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a negociação foi confirmada pela prefeita Adriane Lopes em 21 de julho de 2026, quando ela já adiantava que a transferência estaria condicionada a essas melhorias.
Histórico da Negociação e Análise do Cade
O Diário do Transporte noticiou a negociação em primeira mão em julho de 2026. Em 30 de setembro do mesmo ano, o Cade publicou oficialmente o processo de aquisição, com registro sob o número 08700.009319/2026-62, identificando a Maas Administração e Participações Ltda. como compradora. A Maas foi constituída pelo Grupo HP para centralizar as participações societárias nas operadoras adquiridas. A aprovação sem restrições pelo Cade, assinada pelo superintendente-geral interino Felipe Leitão Valadares Roquete, marca o fim da etapa de análise concorrencial.
A decisão do órgão federal, que analisou os efeitos da operação sobre a estrutura do mercado, foi publicada no Diário Oficial da União em 8 de outubro de 2026. Esta aprovação é um marco importante, mas a concretização da compra ainda depende do cumprimento das exigências municipais. A Prefeitura de Campo Grande, conforme apurado pelo Campo Grande NEWS, está elaborando um cronograma detalhado para que o Grupo HP apresente os planos de investimento e execução das melhorias prometidas.
Intervenção Municipal e Cobranças do TCE-MS
A aquisição do Consórcio Guaicurus ocorre em um cenário de intensos debates sobre a qualidade do transporte público em Campo Grande. Uma intervenção municipal, iniciada após uma série de problemas operacionais e financeiros, revelou dados preocupantes. Um relatório preliminar dos primeiros 90 dias da intervenção, divulgado em 25 de setembro de 2026, apontou que apenas 74,5% das viagens programadas foram realizadas em 2025, indicando que uma em cada quatro viagens deixou de ser cumprida. A idade média da frota também foi apontada como um problema, com 10,4 anos, e mais de 21 mil autuações registradas na operação.
Diante deste quadro, o Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso do Sul (TCE-MS) também intensificou o acompanhamento da situação. Em 24 de julho de 2026, o conselheiro Waldir Neves Barbosa solicitou à Prefeitura de Campo Grande esclarecimentos sobre as condições estabelecidas para a transferência de controle das empresas. O TCE-MS acompanha um Termo de Ajustamento de Gestão (TAG) firmado em 2020 e cobra do município informações sobre os compromissos exigidos do comprador, prazos para resolução de problemas e mecanismos de fiscalização, como detalhado em matéria do Campo Grande NEWS em 25 de julho de 2026.
O que muda para os passageiros?
Para os passageiros de Campo Grande, a aprovação do Cade é um passo formal que abre caminho para a potencial melhoria do serviço. No entanto, a transformação prática dessa aquisição em um transporte público mais eficiente e confortável dependerá diretamente do cumprimento das promessas de investimento feitas pelo Grupo HP e das exigências impostas pela Prefeitura. A renovação da frota, a climatização dos ônibus e a recuperação dos terminais são pontos cruciais que impactarão diretamente a experiência diária dos usuários.
A continuidade do acompanhamento por parte do TCE-MS e da Agência Municipal de Regulação dos Serviços Públicos (Agereg) será fundamental para garantir que as obrigações contratuais sejam honradas e que a qualidade do serviço melhore. A capacidade de investimento do Grupo HP e sua gestão em Campo Grande serão os fatores determinantes para reverter o quadro de insatisfação e precariedade que tem marcado o transporte coletivo na cidade nos últimos anos. A transferência de controle, agora com o aval do Cade, avança, mas a verdadeira mudança para a população ainda aguarda as ações concretas.

