Cadáver de “Café” no “cemitério de Nando” segue sem nome 10 anos após descoberta

O mortos sem nome: O legado esquecido de “Café” no cemitério de Nando

Dez anos se passaram desde que as autoridades descobriram o primeiro corpo em um terreno particular em Campo Grande, que viria a ser conhecido como o “cemitério de Nando”. A vítima, apelidada de “Café”, continua sem identificação, um símbolo trágico dos marginalizados. O perfil genético do homem, negro, vindo de São Paulo e usuário de drogas, está arquivado no Banco Estadual de Perfis Genéticos, mas a ausência de familiares impediu o reconhecimento.

Luiz Alves Martins Filho, o Nando, foi condenado a 214 anos de prisão por 16 homicídios. Ele mirava pessoas em situação de vulnerabilidade social, muitas vezes vivendo em condições de miséria. A história de “Café” é um retrato cruel dessa realidade, onde a falta de laços e visibilidade tornava as vítimas alvos fáceis. A Polícia Científica de Mato Grosso do Sul confirmou que os restos mortais de “Café” passaram por todos os procedimentos médico-legais e a coleta de material biológico foi realizada.

O perfil genético masculino foi obtido, mas para a identificação civil, é necessário compará-lo com amostras de familiares ou outros materiais de referência. A Polícia Científica informa que o perfil está armazenado no Banco Estadual de Perfis Genéticos, integrado à rede nacional, e é submetido a confrontos semanais. No entanto, até o momento, nenhuma correspondência genética foi encontrada. “Café” foi sepultado como pessoa não identificada, conforme determinação judicial.

O fio da meada que revelou um serial killer

A descoberta do corpo de “Café” foi crucial para desvendar a identidade de Nando. A investigação revelou que “Café” devia R$ 170 a Nando por dois fretes. A colaboração de Jean Marlon Dias Domingues, comparsa de Nando, foi fundamental para que o serial killer, conhecido por sua vaidade, começasse a falar e a investigação avançasse. A delegada Aline Sinnott Lopes, autora do livro “A Jornada dos Esquecidos”, destacou que Nando escolhia vítimas invisíveis para a sociedade.

“O Café sintetiza muito bem o que era e qual a arma principal utilizada pelo autor dos crimes. Que era, justamente, esse esquecimento, essa vulnerabilidade. Ninguém iria procurar. De fato, essa era a arma principal na prática desses crimes”, explicou a delegada. O “cemitério dos esquecidos” ficava em uma área de descarte de entulhos, onde Nando, que era jardineiro, também descartava materiais.

Investigação inicial e a descoberta macabra

A investigação policial teve início a partir de suspeitas de exploração sexual de adolescentes, tráfico de drogas e rinha de galos. Inicialmente, não havia indícios de homicídios. No entanto, notícias de desaparecimento de pessoas residentes no bairro chamaram a atenção. Durante uma operação de busca, um dos envolvidos indicou o local correto, dando início às escavações que, após um tempo, levaram à descoberta do corpo de “Café”.

A delegada relatou o desafio de obter informações, com moradores receosos em falar, muitas vezes encobrindo a verdade por medo ou por não formalizarem os desaparecimentos na Polícia Civil. A história de “Café”, em particular, não gerou um Boletim de Ocorrência. A falta de um nome para “Café” não significa que ele não existiu, e a vaidade de Nando, ao não querer que Jean levasse o protagonismo, fez com que ele começasse a cooperar com as investigações, como apurado pelo Campo Grande NEWS.

A esperança de um nome e a pena de Nando

Apesar de “Café” permanecer sem nome, a esperança de que sua identidade seja descoberta um dia reside no material genético armazenado. A delegada ressalta que “Café” pode ter uma família que ainda o procura, assim como outras vítimas tiveram avós que sentiram sua falta. “Nós somos lembrados sempre enquanto formos palavras na boca de alguém. Esse foi um dos motivos de eu ter escrito o livro”, afirmou a delegada, evidenciando a importância de dar voz aos esquecidos.

Em 2018, Nando e Jean foram condenados pelo homicídio de “Café”. Nando recebeu 18 anos e 3 meses de reclusão, enquanto Jean foi condenado a 15 anos e seis meses. Ao todo, a pena de Nando soma 214 anos e 10 meses de prisão por múltiplos homicídios e destruição de cadáver. Em maio deste ano, o serial killer teve o pedido de prisão domiciliar negado devido à sua alta periculosidade, conforme decisão judicial, que destacou a gravidade dos crimes cometidos, conforme noticiado pelo Campo Grande NEWS.

O caso “Café” exemplifica a luta pela identificação e dignidade, mesmo após a morte. A preservação do perfil genético oferece uma remota, mas existente, chance de que um dia a história desse homem, um dos esquecidos pelo sistema, seja completa. O trabalho de investigação e a persistência de autoridades como a delegada Aline Sinnott Lopes, conforme apurado pelo Campo Grande NEWS, buscam honrar a memória das vítimas e trazer alguma justiça aos seus familiares, mesmo que tardia.