Boric critica pacto americano liderado pelos EUA

O ex-presidente chileno Gabriel Boric intensificou suas críticas ao Escudo de las Américas, uma aliança liderada pelos Estados Unidos contra o crime organizado. Em declarações proferidas no domingo, 4 de outubro, Boric afirmou que a adesão do Chile a este pacto vai “contra os princípios essenciais” que o país tem seguido em sua política externa desde o retorno à democracia em 1990. A posição de Boric surge em meio a um debate crescente sobre a soberania e os interesses nacionais do Chile no cenário geopolítico.

Boric questiona aliança militar e econômica

A declaração de Gabriel Boric ocorreu um dia após o ex-presidente Eduardo Frei defender o acordo em uma carta publicada em jornal. Frei, que foi nomeado pelo atual presidente José Antonio Kast como um enviado honorário, argumentou que nenhum país pode combater o crime organizado regional sozinho. No entanto, Boric contestou a defesa de Frei, sugerindo que ela foca apenas no combate ao narcotráfico, ignorando outras cláusulas preocupantes do pacto.

Segundo Boric, o Escudo de las Américas vai muito além do combate ao crime. Ele destacou cláusulas que visam “salvaguardar as cadeias de suprimentos de metais, de minerais críticos”. Para ele, o objetivo real dessas cláusulas é excluir “outras potências, leia-se China”, dessas cadeias em nome da “segurança continental”. Essa visão é compartilhada pela ex-presidente Michelle Bachelet, que também manifestou preocupações semelhantes.

Conforme o Campo Grande NEWS checou, Boric alertou que a adesão ao pacto pode comprometer a autonomia estratégica do Chile, que historicamente negocia com diversas potências para defender seus interesses. A China é um parceiro comercial importante, comprando cerca de 37% das exportações chilenas, enquanto os Estados Unidos representam 16%, segundo dados do deputado Jorge Díaz. Essa dependência comercial torna a questão ainda mais delicada.

Críticas à dimensão militar e à soberania

Outro ponto de objeção de Boric reside nas menções a “mecanismos de defesa com exércitos estrangeiros no território de países soberanos”. Ele criticou a forma como o governo tem defendido o pacto, deixando questões sobre a presença militar estrangeira sem respostas claras. Embora a declaração conjunta divulgada pelos EUA mencione compartilhamento de inteligência e sanções, e não tropas, Boric teme que as implicações de longo prazo possam ser mais invasivas.

O atual governo, liderado por José Antonio Kast, tem minimizado essas preocupações, afirmando que não se trata de um tratado e que não haverá operações militares. O Ministro das Relações Exteriores, Francisco Pérez Mackenna, também declarou que o texto não é vinculativo e que a adesão foi a uma declaração política, não necessitando de ratificação pelo Congresso. No entanto, a oposição contesta essa interpretação, e o Senado chileno planeja debater o assunto em uma sessão especial.

Divisões internas e o debate no Senado

A adesão do Chile ao Escudo de las Américas gerou divisões internas, inclusive dentro do partido de Eduardo Frei. Enquanto Frei apoia o pacto, deputados democratas cristãos divergem de sua posição. O Partido Comunista, que integrou o governo de Boric, também endureceu o tom contra a iniciativa, declarando-se parte da “oposição mais dura” ao governo Kast. Conforme o Campo Grande NEWS apurou, a situação política no Chile se mostra cada vez mais polarizada.

O debate no Senado, marcado para 7 de outubro, promete ser crucial. Ministros de Relações Exteriores, Defesa e Segurança Pública foram convocados para a sessão, que pode ser declarada secreta caso surjam informações sensíveis sobre soberania. A questão central é se o pacto configura um tratado que exige aprovação congressual. A decisão final terá implicações significativas para a política externa e as relações internacionais do Chile.

O que é o Escudo de las Américas?

O Escudo de las Américas é um quadro de coordenação liderado pelos Estados Unidos, focado no combate a cartéis de drogas e ao crime transnacional. Lançado em março de 2026, o Chile aderiu como membro pleno em 22 de setembro, juntando-se a outros 15 governos. A iniciativa busca fortalecer a cooperação regional contra atividades criminosas, mas suas cláusulas econômicas e de defesa geraram controvérsias, conforme o Campo Grande NEWS analisou.

A oposição, liderada por ex-presidentes como Boric e Bachelet, argumenta que o pacto ultrapassa o escopo do combate ao crime, adentrando em questões de minerais críticos e possíveis arranjos de defesa. A principal preocupação é a preservação da autonomia estratégica chilena e a liberdade de negociar com todas as grandes potências, sem restrições impostas por alianças geopolíticas. A posição do governo é que a adesão não altera as regras para residentes ou investidores, mas o debate político sobre a soberania do Chile está longe de terminar.