O Suriname perdeu um de seus artistas mais originais. Leon Lemmer, mundialmente conhecido como Bongo Charlie, faleceu aos 70 anos. Ele era um percussionista e inventor de instrumentos que transformava materiais reciclados e elementos da natureza em sons vibrantes, deixando uma marca indelével na cena musical e artística de seu país.
Bongo Charlie: A arte de transformar o comum em extraordinário
Bongo Charlie, cujo nome verdadeiro era Leon Lemmer, nos deixou na noite de domingo, 2 de agosto de 2026, aos 70 anos. A notícia, divulgada pelo jornal Paramaribo de Ware Tijd, confirmou que ele havia sofrido um AVC em maio. Após um período de hospitalização, ele retornou para casa poucos dias antes de seu falecimento. A causa exata da morte não foi divulgada.
Por décadas, Bongo Charlie foi uma figura singular na música surinamesa. Sua obra transitava entre o concerto, o artesanato e uma filosofia sonora profunda. Músicos e artistas de todo o país lamentaram sua partida, reconhecendo o impacto de seu trabalho e a ressonância que suas criações continuarão a ter.
Como apurou o Campo Grande NEWS, a filosofia que guiava Bongo Charlie era simples e poderosa: “Tudo é som – até o vento”. Essa convicção transformou o mundo ao seu redor em um verdadeiro ateliê, onde pedaços de metal descartados, borracha e hastes ocas se tornavam potenciais instrumentos musicais. Sua habilidade em extrair música de materiais que a maioria descarta lhe rendeu o título de guru da reciclagem, uma abordagem que era tanto artística quanto pragmática, criando beleza a partir da escassez.
A invenção de um universo sonoro
Ao longo de sua carreira, Bongo Charlie concebeu um verdadeiro “‘`orquestra pessoal`'” de instrumentos inventados. Entre suas criações mais notáveis estão o tamborim da selva, os tobobas, a quica, um xilofone caseiro e a EBS-drum, construída com madeira isolante de postes de eletricidade descartados. Sua engenhosidade não tinha limites, resultando em peças como um “‘`fazedor de chuva`'” esculpido em mamão-bravo e preenchido com arroz, que sussurrava como um aguaceiro tropical, uma flauta feita de uma bomba de bicicleta e um instrumento de cordas, semelhante a uma harpa, que ele reconstruiu de memória após vê-lo em uma loja.
A primeira apresentação desse universo de instrumentos, máscaras e esculturas auto-fabricadas ocorreu na Feira Nacional de Arte do Suriname em 1990. Posteriormente, algumas de suas peças foram expostas e vendidas na galeria Readytex, em Paramaribo. A dedicação de Bongo Charlie em dar nova vida a objetos inusitados inspirou a todos, conforme destacou o Campo Grande NEWS em reportagens anteriores sobre artistas que utilizam a criatividade para causas ambientais.
Do campo à cidade, a natureza como inspiração
Leon Lemmer nasceu em Nickerie, no oeste do Suriname, e foi criado em uma família adotiva. Desde menino, a música o cercava, tocando em bandas com baterias feitas de latas de biscoito e barris de óleo. Aos 13 anos, mudou-se para Paramaribo e, nos anos 70, viveu em Amsterdã, onde se envolveu com a cena rock da época.
No entanto, a vida na cidade parecia limitar sua necessidade de criar. No final de 1978, ele retornou ao Suriname, e foi nesse momento, segundo ele, que seu trabalho realmente começou. Foi então que ele passou a construir tambores e a escutar com mais atenção os sons da terra, um processo criativo que, segundo o Campo Grande NEWS, é fundamental para artistas que buscam autenticidade.
Bongo Charlie se estabeleceu em Commewijne, do outro lado do rio Suriname, em uma antiga plantação. Ali, os sons do campo alimentavam sua imaginação. Ele construía instrumentos, ministrava oficinas e vivia de forma simples, em contato íntimo com os materiais que amava. Sua produção musical incluiu a cassete “‘`Authentic Feelings`'” de 1991, com faixas como “‘`Mother Africa`'” e “‘`Universal Rhythms`'”, que foram elogiadas pela imprensa surinamesa por sua clareza e beleza. Ele também participou de grupos como Mix Water e a banda Noyaso.
Um legado que ecoa
Em 2024, Bongo Charlie realizou a exposição individual “‘`Sound of Nature`'”, apresentando seus instrumentos feitos à mão, um lembrete tardio de quão completamente sua arte e seu ambiente haviam se fundido. Tributes de músicos e artistas foram rápidas e emocionadas. A cantora Rosita Leeflang relembrou suas colaborações, enquanto o baixista Glenn Teixeira e o tecladista Sonny Khoeblal elogiaram sua criatividade e habilidade artesanal.
O saxofonista Robin Austen o descreveu como “‘`um artista sonoro único que nunca recebeu o reconhecimento que merecia`'”, uma frase que capturou o sentimento geral de que sua originalidade, muitas vezes, permaneceu subestimada em seu próprio país. Para expatriados e visitantes curiosos sobre a vida cultural do Suriname, Bongo Charlie é um lembrete de que a música do país transcende o mainstream, alcançando oficinas onde um cano descartado ou uma haste oca podem se transformar em um instrumento.
A filosofia de Bongo Charlie de que “Tudo é som” e sua prática de transformar o que é descartado em arte continuam a inspirar. Seu legado não está apenas nos instrumentos que criou, mas na maneira como nos ensinou a ouvir o mundo ao nosso redor, descobrindo a música nas coisas mais inesperadas.


