A economia boliviana, que enfrenta um cenário desafiador com projeções de encolhimento para os próximos anos, é moldada por um grupo restrito de atores. Desde o governo de centro-direita até empresas estatais, passando por mineradoras, bancos e famílias do agronegócio, o controle dos rumos financeiros do país está concentrado. A recente mudança na taxa de câmbio e o fim de subsídios energéticos intensificam a relevância de entender quem detém as rédeas e de onde vêm os dólares que movem o país. Conforme informações divulgadas por diversas fontes em outubro de 2026, a Bolívia se encontra em um momento crucial, com o Fundo Monetário Internacional (FMI) aprovando um programa de apoio em meio a incertezas sobre o futuro econômico.
Economia boliviana sob a lupa em 2026
A Bolívia se destaca como o único país da América do Sul com previsão de retração econômica em 2026 e 2027, segundo o FMI. Em 2025, o Produto Interno Bruto (PIB) atingiu US$ 64,8 bilhões, mas a economia encolheu 1,6%, com a inflação média em 19,5%. As projeções para 2026 indicam uma queda de 3,0% e para 2027, de 1,5%. A dívida pública bruta deve alcançar 100,2% do PIB em 2026, um aumento significativo em relação aos 83,3% de 2025. Nesse contexto, o FMI anunciou um acordo de US$ 1,9 bilhão em 2 de outubro de 2026, com o objetivo de restaurar a estabilidade e recompor as reservas internacionais. O presidente Rodrigo Paz informou, após uma viagem aos Estados Unidos, a captação de cerca de US$ 10 bilhões em dois a três anos, provenientes de instituições como o Banco Mundial e o BID.
O governo e as decisões estratégicas
O presidente Rodrigo Paz, empossado em novembro de 2025, tem implementado medidas de ajuste, incluindo o fim da taxa de câmbio fixa e dos subsídios aos combustíveis. Sua equipe econômica já passou por uma reformulação, com a substituição do Ministro da Economia, José Gabriel Espinoza, por Christian Morales, em agosto de 2026. A Assembleia Legislativa, com poder de censurar ministros e aprovar leis importantes, incluindo contratos de lítio, atua como um importante player na definição das políticas econômicas. Uma nova Lei de Investimentos, com 103 artigos, foi enviada à Assembleia em agosto de 2026, visando substituir a legislação de 2014 e criar uma Agência Nacional de Investimentos.
O Banco Central e a nova era cambial
Após 15 anos com o dólar fixado em 6,96 bolivianos (Bs), o Banco Central abandonou essa política em 29 de junho de 2026, adotando um regime de câmbio flutuante. A taxa oficial em 1 de setembro de 2026 era de Bs 12,12, e entre 17 e 19 de outubro, situou-se em Bs 11,69. David Espinoza lidera o Banco Central desde janeiro de 2026, com um conselho de quatro membros nomeados pelo presidente Paz. O banco tem atuado na recomposição de suas reservas, que em 14 de agosto de 2026 somavam US$ 4,255 bilhões, bem abaixo do pico de US$ 15,1 bilhões registrado em 2014. O Banco Central informou em 14 de outubro de 2026 ter cumprido todas as suas obrigações em ouro e encerrado três operações de câmbio futuro.
Empresas estatais e o setor energético
A YPFB, estatal de petróleo e gás, continua sendo a maior empresa da Bolívia, representando cerca de 22% da receita do país. Em 2025, a YPFB foi a maior pagadora de impostos, com Bs 3,59 bilhões (aproximadamente US$ 515 milhões). No entanto, sua contribuição fiscal diminuiu em comparação com o ano anterior. A Comibol, empresa estatal de mineração, também contribuiu para a economia, mas a maior parte das exportações minerais é realizada por empresas privadas e cooperativas. O governo planeja um corte de 30% no aparato estatal e a auditoria de empresas deficitárias, medida alinhada com o programa do FMI. O setor energético enfrenta desafios, com a produção de gás natural em queda e a dependência de importação de combustíveis, que gerou gastos de cerca de US$ 2,9 bilhões em 2025. A recente elevação do preço do diesel, iniciada em setembro de 2026, tem gerado preocupações, especialmente no setor agrícola, conforme apurado pelo Campo Grande NEWS.
Mineração e agronegócio: as fontes de divisas
Atualmente, os minerais são a principal fonte de divisas da Bolívia, com exportações atingindo US$ 4,45 bilhões no primeiro semestre de 2026, um aumento de 91%. A prata, o zinco e o ouro lideram as exportações minerais. O governo busca regular o comércio de ouro, exigindo que os exportadores depositem a maior parte dos recursos no país. Os contratos de lítio com empresas chinesas e russas ainda estão em processo de aprovação na Assembleia e enfrentam questionamentos de comunidades indígenas. O agronegócio, com foco em soja e derivados, também contribui significativamente para as exportações, embora tenha apresentado estabilidade em comparação com o ano anterior. Conforme o Campo Grande NEWS checou, empresas como a Industrias Oleaginosas (IOL) e a Industrias de Aceite (IASA) desempenham papéis importantes no setor.
Setor bancário e contribuição privada
O sistema financeiro boliviano apresentou lucros recordes em 2025, com os bancos regulados arrecadando cerca de US$ 540 milhões. Bancos como BISA, Banco Unión e Banco de Crédito (BCP) se destacaram em termos de lucratividade. Diversos bancos, como Banco Ganadero, Banco Mercantil Santa Cruz e BancoSol, figuram entre os maiores contribuintes de impostos, juntamente com o setor privado. A cervejaria CBN, pelo terceiro ano consecutivo, foi a maior contribuinte privada, com o pagamento de Bs 2,28 bilhões. O Campo Grande NEWS constatou que sete das dez maiores empresas pagadoras de impostos são privadas, evidenciando a força do setor no financiamento público.


