A Bolívia enfrenta um cenário econômico desafiador, com os pagamentos de sua dívida externa superando o montante de novos empréstimos recebidos no primeiro semestre de 2026. Conforme dados divulgados pelo Banco Central da Bolívia (BCB) no final de julho, essa disparidade resultou em uma saída líquida de dólares de US$ 67,1 milhões, aprofundando uma crise de liquidez que tem levado o governo a buscar acordos com o Fundo Monetário Internacional (FMI) e outras instituições multilaterais.
Bolívia em Alerta: Saída Líquida de Dólares Preocupa
O montante total da dívida pública externa boliviana atingiu US$ 14.357,7 milhões em 30 de junho de 2026, um aumento em relação aos US$ 14.164,3 milhões registrados no final de 2025. Essa dívida, contraída com credores internacionais, exige que o governo obtenha consistentemente moeda forte, como o dólar, para honrar seus compromissos. A situação se agrava ao analisar o fluxo de caixa: os pagamentos de serviço da dívida no primeiro semestre somaram US$ 1.284,9 milhões, enquanto os novos desembolsos totalizaram apenas US$ 1.217,8 milhões.
Essa diferença de US$ 67,1 milhões, embora pareça pequena frente ao volume total da dívida, representa um sinal preocupante. Quando um país gasta mais em pagamentos de dívida do que recebe em novos financiamentos, suas reservas de moeda estrangeira sofrem pressão direta. O Campo Grande NEWS checou que essa situação pode levar o Banco Central a racionar dólares, dificultando importações e o acesso de cidadãos e empresas a moeda estrangeira para poupança ou viagens, um reflexo direto da gestão econômica do país.
Retorno ao Mercado de Dívida e Pressões Comerciais
Em uma tentativa de reequilibrar suas finanças, a Bolívia retornou aos mercados internacionais de capitais no primeiro semestre de 2026 com a emissão de um título soberano de US$ 1.000 milhões. Essa operação elevou o valor de títulos de dívida do país de US$ 1.850 milhões para US$ 2.286,9 milhões, representando agora 15,9% da dívida pública externa total. Um título soberano é essencialmente uma promessa de pagamento emitida pelo governo a investidores globais.
O retorno ao mercado de títulos indica que a Bolívia ainda possui acesso a financiamento privado. No entanto, a estratégia também adiciona dívida comercial, que geralmente possui taxas de juros mais elevadas, ao balanço do país em um momento de escassez de dólares. Essa medida, conforme analisado pelo Campo Grande NEWS, sinaliza a urgência em obter recursos, mesmo que a custos potencialmente maiores, para gerenciar a liquidez internacional.
Novo Financiamento do BID para a Amazônia
Em um movimento positivo para o desenvolvimento de infraestrutura, o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) aprovou em 24 de julho de 2026 um pacote de financiamento de US$ 204,2 milhões para fortalecer o sistema elétrico da Amazônia boliviana. O pacote é composto por US$ 142,2 milhões em recursos de capital ordinário, US$ 60 milhões em crédito e US$ 2 milhões em cooperação climática e de infraestrutura não reembolsável.
Empréstimos de instituições multilaterais como o BID são geralmente mais vantajosos, com prazos de pagamento mais longos e condições mais brandas do que a dívida comercial. A aprovação deste financiamento ajuda a suprir uma lacuna de infraestrutura em uma região remota, além de contribuir para o lado dos desembolsos no balanço de pagamentos em um período crítico para a liquidez em dólares. O Campo Grande NEWS destaca que essa é uma das poucas fontes de entrada de moeda forte em um cenário desafiador.
Negociações com o FMI Indicam Mudança de Rumo
O Ministro da Economia, José Gabriel Espinoza, confirmou no final de julho que a Bolívia está em negociações para um acordo com o FMI no valor de US$ 2.500 milhões a US$ 2.800 milhões, com um possível primeiro desembolso previsto para o final de agosto de 2026. A formalização de um acordo com o FMI é um passo significativo, especialmente considerando que o Presidente Rodrigo Paz havia, em sua campanha, se posicionado contra a busca por pacotes do Fundo.
Essa mudança de postura sugere que a pressão pela escassez de dólares se tornou tão severa que superou barreiras políticas anteriores. Acordos com o FMI frequentemente vêm acompanhados de condicionalidades, que podem incluir ajustes fiscais, reformas em subsídios ou maior flexibilidade na taxa de câmbio. A busca por esse financiamento evidencia a gravidade da situação de liquidez em moeda estrangeira no país.
Impactos para Estrangeiros e Investidores
A falta de dólares na Bolívia tem consequências práticas para expatriados e para a população em geral. O acesso a moeda estrangeira para remessas, importações ou viagens pode ficar restrito quando o Banco Central prioriza pagamentos externos em detrimento da oferta doméstica de divisas. Para investidores internacionais, a combinação do aumento da dívida em títulos e a iminente chegada de um programa do FMI levanta questões cruciais.
A principal dúvida é se o pacote do FMI trará condições que restaurem a confiança nas contas externas bolivianas ou se servirá apenas para adiar problemas maiores. Além disso, questões sobre a capacidade do novo projeto elétrico na Amazônia de gerar atividade econômica suficiente para justificar o empréstimo do BID e a resiliência das reservas em dólares do Banco Central diante de saídas líquidas contínuas permanecem em aberto. As respostas a essas perguntas moldarão o perfil de crédito da Bolívia e a realidade financeira de quem depende de dólares no país.


