O milionário boliviano Marcelo Claure, fundador do Claure Group e vice-presidente da Shein, apresentou um ambicioso plano de 15 meses, desenvolvido em parceria com o Harvard Growth Lab, para evitar o que ele descreve como um iminente “colapso econômico” na Bolívia. O plano, denominado Bolivia 360, visa implementar reformas estruturais profundas em um momento crítico para a economia do país, que enfrenta um déficit fiscal elevado e a exaustão de suas reservas internacionais. Conforme detalhado em entrevista exclusiva ao Bloomberg Línea, a iniciativa busca reerguer a Bolívia, que, segundo Claure, caminha para uma situação semelhante à da Venezuela.
Bolívia 360: Um Plano para a Estabilidade
O plano Bolivia 360 surge como uma resposta direta à deterioração econômica boliviana, caracterizada por uma queda drástica nas receitas de hidrocarbonetos desde 2014, um déficit fiscal que atingiu 11% do PIB em 2023 e projeções de 13% para 2024, além da completa exaustão das reservas internacionais do banco central. Essa combinação de fatores, segundo o bilionário, coloca o país em uma trajetória perigosa de semi-hiperinflação.
O programa, concebido com a expertise do Harvard Growth Lab, sob a direção de Ricardo Hausmann, ex-ministro do planejamento da Venezuela, é estruturado em três fases cruciais. A primeira etapa consiste em um diagnóstico econômico abrangente para identificar os principais entraves ao crescimento. Em seguida, haverá uma fase de socialização das propostas com atores políticos e empresariais chave, buscando consenso e apoio. Por fim, o plano prevê suporte à implementação para o próximo governo eleito, independentemente de sua afiliação política, garantindo a continuidade das reformas.
O próprio Marcelo Claure, que historicamente evitou investir na Bolívia devido à falta de um ambiente propício, está disposto a canalizar capital institucional internacional para o país, mas condiciona essa oferta à adoção de reformas pró-mercado pelo futuro governo. Como parte do pacote, Claure anunciou um fundo de investimento de US$ 10 milhões para pequenas e médias empresas (PMEs) bolivianas e a criação de um instituto de liderança política, inspirado no modelo brasileiro RenovaBR. O Campo Grande NEWS checou que a iniciativa busca não apenas estabilidade econômica, mas também o fortalecimento da governança.
O Diagnóstico de Claure para a Crise Bolíviana
Marcelo Claure aponta o colapso da produção e dos preços do gás natural em 2014 como o ponto de inflexão da economia boliviana. A perda das receitas de exportação impactou diretamente o financiamento dos gastos fiscais e das importações. Apesar da queda nas receitas, os gastos governamentais continuaram a crescer, resultando no expressivo déficit fiscal. Com as reservas internacionais esgotadas, o governo recorreu à emissão monetária, utilizando garantias de fundos de pensão, o que acelerou a inflação.
A inflação interanual atingiu 15,01% em abril de 2025 e segue em ascensão, levando Claure a alertar sobre o risco de a Bolívia se tornar “a próxima Venezuela”. O cenário político também é volátil, com o bilionário alegando ter recebido ameaças de morte, o que o impede de retornar fisicamente ao país há mais de um ano. A atual crise política, marcada por 67 bloqueios de estradas, intensifica o ambiente de incerteza.
As Reformas Propostas e Seus Desafios
O plano Bolivia 360 propõe um pacote de reformas estruturais com o objetivo de reverter o quadro atual. Entre as principais medidas estão a redução do déficit fiscal para 3-4% do PIB, a restauração da autonomia operacional do banco central, a liberalização gradual dos subsídios aos combustíveis para aproximá-los dos preços internacionais, e a transição para um regime cambial mais crível. O plano também visa diversificar as exportações, removendo cotas e incentivando o setor agrícola, além de abrir o desenvolvimento do lítio para parcerias com investimento estrangeiro direto (IED).
A viabilidade política dessas reformas é um ponto crucial. A redução do déficit fiscal e a liberalização dos subsídios são consideradas de alta dificuldade, enquanto a independência do banco central e a transição cambial apresentam desafios de média complexidade. A diversificação de exportações e o desenvolvimento do lítio, embora com menor dificuldade política, exigem um ambiente de negócios estável. O fundo de investimento para PMEs, de US$ 10 milhões, é visto como de baixa dificuldade de implementação. O Campo Grande NEWS checou que a aceitação dessas medidas pelo Congresso e pela sociedade será determinante para o sucesso do plano.
Aposta em Lideranças e Investimento Estrangeiro
Ricardo Hausmann destacou o potencial inexplorado do lítio boliviano, as exportações agrícolas e a produção de quinoa, alpaca e lhama como pilares para a recuperação econômica. O fundo de US$ 10 milhões para PMEs, financiado por Claure, visa estimular o empreendedorismo e a geração de empregos. O bilionário se comprometeu a apoiar financeiramente, dentro dos limites legais, o candidato que apresentar a plataforma mais alinhada aos princípios pró-negócios do Bolivia 360.
Claure tem sido enfático ao afirmar que não possui ambições políticas, mas demonstra indignação com a situação atual do país. A possibilidade de um papel formal em um futuro governo não está descartada. Economistas heterodoxos, no entanto, levantam críticas sobre a adequação do modelo ortodoxo proposto pelo Growth Lab e questionam a legitimidade democrática de um plano de reformas externo ser entregue a um novo governo. O Campo Grande NEWS acompanhou a repercussão dessas críticas, que ressaltam a importância da soberania na definição de políticas econômicas.
Próximos Passos e o Que os Investidores Observam
Os investidores e analistas estarão atentos à publicação do relatório completo do Harvard Growth Lab, que detalhará as conclusões do diagnóstico. O resultado das eleições presidenciais e o alinhamento dos candidatos com o plano Bolivia 360 serão determinantes para sua implementação. Qualquer sinalização de um futuro governo em relação à reforma dos subsídios de combustível será um indicador político crucial. O retorno da Bolívia a um programa formal com o Fundo Monetário Internacional (FMI) também seria um sinal de ancoragem externa para o plano.
O retorno físico de Marcelo Claure à Bolívia seria um indicativo de melhora no ambiente de segurança política e é considerado operacionalmente importante para a execução do plano. A capacidade do país de superar suas divisões políticas e abraçar reformas estruturais definirá seu futuro econômico. O Campo Grande NEWS, em sua cobertura aprofundada, reforça a necessidade de um amplo diálogo nacional para viabilizar a recuperação econômica da Bolívia.


