O Banco Central do Brasil (BCB) enviou um recado direto aos investidores internacionais, afastando a narrativa de que a recente valorização do Real é um fator estrutural que auxiliaria no atingimento da meta de inflação. Em um seminário do JP Morgan em Washington, Nilton David, diretor de política monetária, afirmou que a força da moeda é ‘conjuntural, não estrutural’ e que o BCB não conta com essa valorização para alcançar o contínuo de 3% de inflação. Essa declaração representa um contraponto direto à visão do mercado que tem impulsionado o dólar para baixo do patamar de R$ 5.
As falas de David durante a semana de reuniões de primavera do FMI carregam um peso institucional considerável, pois foram direcionadas ao público de investidores globais que, nas últimas semanas, precificaram ativos brasileiros como se a desinflação impulsionada pela moeda fosse permanente. O diretor rejeitou explicitamente essa perspectiva, como informado pelo The Rio Times. Ele enfatizou que a força do Real é passageira e que o BCB não a utiliza como base para atingir sua meta inflacionária, sendo necessário combater os efeitos de segunda ordem de choques de commodities.
A força do Real é “conjuntural, não estrutural”
Nilton David descreveu a moeda brasileira como um ativo de ‘alto beta’, que tende a oscilar mais que seus pares em mercados emergentes, tanto para cima quanto para baixo. No período recente, ele observou que o Real surpreendeu positivamente em relação a esse beta esperado, mas ressaltou que ‘as explicações que encontro para isso são mais conjunturais do que estruturais, portanto não conto com isso daqui para frente’.
O diretor acrescentou um ponto técnico com implicações de política monetária mais restritiva: a desvalorização do Real tende a elevar as expectativas de inflação com mais força do que a valorização as reduz. Isso significa que o BCB não pode confiar em efeitos simétricos da moeda. Quando o dólar sobe, as expectativas de inflação ‘quebram’, mas quando o dólar cai, elas não se ajustam completamente. Essa assimetria explica por que a negociação do dólar abaixo de R$ 5, pela primeira vez em dois anos, não é vista pelo BCB como um passe livre para a flexibilização monetária.
O problema das expectativas para 2028
O sinal mais restritivo veio em relação às expectativas de longo prazo. A pesquisa Focus indica que as expectativas medianas para a inflação em 2028 atingiram 3,60%, um aumento em relação aos 3,50% de um mês atrás e significativamente acima da meta de 3%. David foi direto ao ponto: ‘Não estamos felizes com o aumento das expectativas de inflação para 2028, e preciso lidar com esse comportamento porque há consequências’.
Ele afirmou que a combinação de projeções do Focus ‘não é compatível com uma autoridade monetária que mira a meta’. David também observou que o aumento das expectativas de médio prazo sugere que os participantes do mercado acreditam que o BCB pode não combater totalmente os efeitos de segunda ordem do choque de commodities decorrente da guerra no Irã, ‘o que é um erro’. Em outras palavras, se as expectativas não se ancorarem novamente, o ciclo de cortes de juros pode ser interrompido.
Calibração, não afrouxamento
David reforçou a distinção que o Comitê de Política Monetária (Copom) introduziu em seu comunicado de março, quando reduziu a taxa Selic em 25 pontos base para 14,75%. ‘Por calibração, quero dizer que sairemos deste processo ainda sob condições de aperto monetário’. Ele observou que o mesmo nível de taxa nominal agora está acompanhado por inflação e expectativas mais baixas do que quando a taxa estava sendo elevada, o que significa que a postura de taxa de juros real se tornou mais restritiva no caminho ascendente e permanece restritiva no caminho descendente.
Questionado diretamente sobre até onde o BCB poderia ir no ciclo de calibração, David declarou que o ‘orçamento’ para cortes nunca foi discutido no Copom, uma recusa deliberada em ancorar as expectativas em torno de uma taxa terminal. O mercado precificou mais um corte de 25 pontos base na reunião de fim de abril com base nas incertezas da guerra no Irã, mas as declarações de David em Washington não endossam essa precificação. ‘O conflito no Irã está trazendo muito mais incerteza, como se já não tivéssemos o suficiente’, acrescentou.
A leitura de ‘carry trade’ dos ativos brasileiros – com a Selic a 14,75%, fraqueza do dólar impulsionada pela guerra no Irã e a meta de 3% ao alcance teórico – tem sido a principal explicação para os R$ 65 bilhões em fluxos estrangeiros líquidos acumulados no ano e recordes do Ibovespa acima de 198.000 pontos. O discurso de David não reverte essa tendência, mas a afina. O BCB sinaliza que a taxa terminal da Selic permanecerá em território restritivo, que as expectativas do Focus para 2028 precisam se reancorar antes que novos cortes se tornem automáticos, e que a moeda não pode ser usada como substituta para a disciplina monetária. Para um mercado que precificou os juros brasileiros como uma operação de convergência fácil para 12,5% até o final do ano, a mensagem de quarta-feira vinda de Washington é que a parte fácil acabou. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a comunicação do Banco Central busca alinhar as expectativas do mercado com a realidade econômica, evitando movimentos especulativos baseados em premissas insustentáveis.
O Campo Grande NEWS destaca que a clareza nas comunicações do Banco Central é fundamental para a estabilidade econômica, e as declarações de Nilton David reforçam a postura técnica e responsável da instituição. A análise do Campo Grande NEWS sobre o cenário econômico aponta que a manutenção de uma política monetária prudente é crucial para o controle da inflação e a sustentabilidade do crescimento.


