A Argentina está provocando uma verdadeira revolução no mercado global de trigo. Com uma colheita recorde em andamento e impostos de exportação reduzidos, o país sul-americano está inundando os mercados internacionais com oferta, pressionando os preços para baixo em um momento crucial. Essa nova dinâmica está forçando a Europa, que detém um excedente de trigo, a oferecer descontos significativos para competir, enquanto compradores tradicionais como Marrocos já buscam alternativas mais baratas na Argentina.
Essa situação vai além de uma simples guerra de preços. Envolve uma complexa interação de tempo, sinais de políticas governamentais e a capacidade logística de movimentar grãos rapidamente. A Argentina, após registrar uma safra de trigo estimada em cerca de 27,7 a 27,8 milhões de toneladas, um novo marco nacional, está adicionando um volume substancial de oferta justamente quando muitos importadores buscam recompor seus estoques. Essa oferta extra chega com um impulso adicional: uma redução nas taxas de exportação de trigo e cevada, que caíram de 9,5% para 7,5%. No comércio de commodities, mesmo pequenas reduções de impostos podem ser decisivas na conquista de contratos importantes.
O excedente de trigo europeu, que antes garantia vendas fáceis, agora enfrenta dificuldades. A Europa Ocidental, historicamente uma origem de trigo com custos de produção mais elevados, vê seu espaço de mercado diminuir. Quando a Argentina oferece trigo a preços em torno de US$ 212 a US$ 215 por tonelada FOB para embarque em fevereiro, ela estabelece um patamar de preço muito difícil de ser batido. Comparações recentes indicam que o trigo francês ou romeno está cerca de US$ 16 a US$ 18 por tonelada mais caro. No início da temporada, o trigo argentino da região “Up River” era cotado a aproximadamente US$ 207, enquanto o trigo francês em Rouen chegava a cerca de US$ 228.
Marrocos, um termômetro da mudança
Os compradores não precisam ter preferência pela Argentina, apenas necessitam de um custo de entrega mais baixo. É em Marrocos que essa mudança de rota se torna mais evidente. A França já enviou cerca de 1,63 milhão de toneladas de trigo mole para o país norte-africano nesta temporada. Contudo, o primeiro navio com trigo argentino já atracou em portos marroquinos. Isso é significativo, pois Marrocos se tornou ainda mais importante para os exportadores da União Europeia após a Argélia ter direcionado grande parte de suas compras para origens do Mar Negro.
Disputa acirrada em licitações globais
As licitações internacionais reforçam essa nova ordem. Traders relataram que a Argélia comprou aproximadamente 600.000 toneladas de trigo, com a Argentina esperada como um dos principais fornecedores. O Egito, outro grande comprador, também se tornou um campo de batalha comercial. Embora o risco de frete associado à guerra na Ucrânia possa complicar os fluxos do Mar Negro, o preço continua sendo o fator dominante nas decisões de compra. As próprias restrições da Europa adicionam atrito à sua capacidade de exportação.
Resistência europeia e previsões ajustadas
Muitos agricultores europeus têm relutado em vender seus grãos aos preços mais baixos dos últimos cinco anos. Essa postura aperta a disponibilidade imediata e torna os exportadores menos flexíveis em suas ofertas. Em resposta a essa realidade, os analistas estão ajustando suas previsões. A Expana, por exemplo, reduziu sua projeção de exportação de trigo mole da UE para 2025/26 em 4%, para 28,8 milhões de toneladas. Dados de rastreamento da UE mostraram as exportações de trigo mole em cerca de 11,8 milhões de toneladas até 15 de janeiro, com defasagens nos relatórios.
O tempo também é um fator crucial. A colheita doméstica de Marrocos começa por volta de maio, o que geralmente reduz a demanda por importações. Se a Europa deseja garantir novas vendas em grande volume antes do verão, os preços podem precisar cair ainda mais. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a estratégia argentina de maximizar a exportação com cortes de impostos está testando a resiliência do mercado europeu. A agilidade em responder às demandas globais, aliada a uma política fiscal favorável, confere à Argentina uma vantagem competitiva significativa neste momento, conforme analisado pelo Campo Grande NEWS em suas reportagens sobre o agronegócio. A capacidade da Europa de se adaptar a essa nova realidade de preços baixos, com base em análises como as do Campo Grande NEWS, será determinante para o futuro de suas exportações de trigo.


