Argentina alcança superávit fiscal em 2025, mas 2026 será o verdadeiro teste

A Argentina anunciou um resultado fiscal surpreendente ao fechar o ano de 2025 com um superávit primário de 1,4% do PIB e um superávit financeiro de 0,2%. O governo do presidente Javier Milei atribui essa conquista a uma drástica redução de gastos reais, combinada com aumentos em programas de assistência social direcionada e cortes de impostos. No entanto, a sustentabilidade dessa melhora e a credibilidade internacional do país serão postas à prova nos próximos meses, especialmente em 2026.

Superávit fiscal de 2025: um marco ou um respiro temporário?

O Ministério da Economia argentino divulgou que o país encerrou 2025 com um saldo positivo em suas contas públicas, mesmo após a contabilização dos pagamentos de juros da dívida. O superávit primário, que exclui os juros, atingiu 1,4% do Produto Interno Bruto (PIB), totalizando AR$ 11,769 trilhões (aproximadamente US$ 8,1 bilhões). Já o superávit financeiro, que inclui os juros, ficou em 0,2% do PIB, equivalente a AR$ 1,453 trilhão (cerca de US$ 1,0 bilhão).

Esses números, se confirmados e sustentados, representam um avanço significativo para a economia argentina, que historicamente luta contra déficits fiscais crônicos. O governo busca transformar esse resultado em um reset de credibilidade no cenário internacional. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a estratégia de austeridade fiscal é vista como fundamental para controlar a inflação e estabilizar a economia.

A força do corte de gastos e a proteção social

O Ministro da Economia, Luis Caputo, enfatizou que o superávit foi alcançado através de uma forte contenção de gastos. Segundo ele, os gastos primários em 2025 foram 27% menores em termos reais do que em 2023. Em contrapartida, Caputo argumentou que os programas de assistência social direcionada foram fortalecidos, e não comprimidos, como é comum em períodos de ajuste fiscal.

Ele citou que benefícios como a Assignación Universal por Hijo (AUH) e o cartão Alimentar tiveram um aumento real de 43% em dezembro de 2025, comparado a dezembro de 2023. O governo também informou que esses auxílios passaram a cobrir 92% da cesta básica de alimentos, um avanço considerável em relação aos 55% anteriores. Um ponto destacado foi que os repasses foram feitos diretamente aos beneficiários, evitando intermediários.

Cortes de impostos e o desafio de 2026

Paralelamente aos cortes de gastos, o governo argentino afirma ter promovido reduções tributárias, estimando cortes superiores a 2,5% do PIB desde 2024, incluindo a diminuição de impostos sobre o comércio exterior. A promessa é que o orçamento para 2026 também mire um superávit primário, desta vez de 1,2% do PIB. Esta meta, no entanto, representa um desafio maior, pois o mês de dezembro de 2025, apesar do resultado positivo geral, apresentou um déficit primário próximo de AR$ 2,87 trilhões e um déficit financeiro de cerca de AR$ 3,29 trilhões. A sazonalidade é um fator normal, mas a capacidade de manter o superávit em períodos de maior pressão financeira será um teste crucial.

Para investidores e observadores externos, o controle fiscal na Argentina é vital. Ele pode reduzir a pressão para a emissão de moeda, um dos principais motores da inflação histórica do país, e ajudar a estabilizar as expectativas inflacionárias. As projeções atuais indicam uma inflação para 2025 próxima de 31%, com uma expectativa de queda para cerca de 25% em 2026. O crescimento econômico também deve desacelerar para 3% em 2026, após os 4,3% previstos para 2025.

O próximo passo: financiamento externo e credibilidade

O verdadeiro teste para a credibilidade da política econômica argentina virá com a capacidade de obter financiamento externo. Analistas associam o acesso aos mercados internacionais à demonstração de controle fiscal e estabilidade. O governo mira a emissão de dívida externa com taxas de juros abaixo de 10%. Críticos, contudo, alertam que a contabilidade pode ser artificialmente inflada se custos de juros forem realocados para outros instrumentos financeiros. Por outro lado, defensores da política econômica argumentam que o resultado é compatível com as metas estabelecidas com o Fundo Monetário Internacional (FMI), que buscava um superávit primário próximo de 1,3%.

A forma como a Argentina navegará em 2026, mantendo a disciplina fiscal em meio a possíveis pressões políticas e sociais, determinará se o superávit de 2025 foi um ponto de virada sustentável ou apenas um alívio temporário. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a confiança dos mercados na capacidade do governo de honrar seus compromissos e de manter a trajetória de ajuste será fundamental para a recuperação econômica de longo prazo do país.

A capacidade de o governo argentino demonstrar que o superávit fiscal não é apenas um resultado pontual, mas sim uma consequência de reformas estruturais e duradouras, será crucial para atrair investimentos e garantir a estabilidade econômica. A atenção se volta agora para as próximas divulgações e para a resposta dos mercados financeiros internacionais às políticas implementadas. O Campo Grande NEWS continuará acompanhando de perto esses desdobramentos.