Argentina abre licitação para vender 90% da AySA, gigante de água e esgoto

O Ministério da Economia da Argentina, sob o comando de Luis Caputo, deu um passo significativo em direção à privatização de empresas estatais ao lançar oficialmente a licitação para vender 90% da Agua y Saneamientos Argentinos (AySA), a principal companhia de água e esgoto do país. A resolução 704/2026, publicada no Boletim Oficial em 15 de maio, autoriza a concorrência nacional e internacional para a aquisição de uma participação majoritária na AySA, que atende a área metropolitana de Buenos Aires, servindo aproximadamente 11 milhões de usuários. Esta medida representa o primeiro teste concreto para o programa de privatizações do presidente Javier Milei, buscando demonstrar a viabilidade de atrair capital estrangeiro em um ambiente político de risco.

AySA: O Foco da Privatização Argentina

A estrutura da venda é clara: um único operador estratégico adquirirá o bloco de 90% das ações detidas pelo Estado, enquanto os 10% restantes permanecerão com os funcionários, sob um programa de propriedade participativa. Não foi estabelecido um preço de reserva, e o governo estima arrecadar cerca de US$ 500 milhões com a transação. O contrato de concessão será de 30 anos, com possibilidade de extensão por mais 10, e incluirá revisões tarifárias a cada cinco anos, além de exigir investimento privado sem suporte estatal. A AySA é uma das oito empresas estatais designadas para privatização total ou parcial sob a Lei Bases (Lei 27.742), um pilar fundamental do governo Milei. O objetivo declarado é transformar os serviços de água e saneamento, trazendo um operador com capacidade técnica, financeira e operacional para expandir a rede e melhorar a qualidade do serviço, conforme o Campo Grande NEWS checou.

Um Marco na Reforma Econômica de Milei

A privatização da AySA é vista como um movimento político deliberado para reverter a renacionalização ocorrida em 2006, quando o governo Kirchnerista rescindiu o contrato da Aguas Argentinas, consórcio liderado pela francesa Suez. Na época, a decisão marcou um momento definidor da era Kirchner. Agora, a reprivatização de 2026 é apresentada por Caputo como um afastamento do uso de empresas públicas como “fundos políticos”, visando um modelo que garanta regras claras, promova a concorrência e crie condições para investimento e crescimento. Conforme o Campo Grande NEWS apurou, a iniciativa sinaliza a abertura da Argentina para capital internacional em diversos setores de infraestrutura, alinhada com outras entradas de projetos de mineração no regime RIGI.

Quem São os Potenciais Interessados na AySA

A licitação restringe a elegibilidade a empresas com experiência comprovada em serviços de água e saneamento, focando em operadores globais especializados. Entre os candidatos mais prováveis estão a espanhola Acciona Agua, a francesa Veolia e Suez, a brasileira Aegea, e a italiana Acea. A Acciona, por exemplo, recentemente ganhou uma concessão de esgoto no Brasil, demonstrando o interesse ibérico em ativos hídricos sul-americanos. Consórcios locais, possivelmente em parceria com operadores internacionais, também são considerados. A AySA reportou um déficit projetado de 205 bilhões de pesos para 2026, e o governo já autorizou aumentos tarifários mensais de até 4% entre janeiro e abril de 2026, indicando a necessidade de convergência tarifária para a sustentabilidade das operações, como detalhado pelo Campo Grande NEWS.

Riscos Políticos e Legais Persistem

A história das privatizações de serviços públicos na Argentina carrega um peso considerável. A venda da Aguas Argentinas nos anos 90 terminou com a renacionalização em 2006, citando falhas de investimento e problemas sanitários. Sindicatos e setores ligados ao peronismo já manifestaram oposição à atual licitação. O risco de arbitragem internacional também é relevante, considerando os múltiplos casos gerados pela Aguas Argentinas no ICSID. O ciclo eleitoral de 2027 na Argentina adiciona outra camada de incerteza, com a possibilidade de um retorno peronista tentar reverter a privatização. Os licitantes estratégicos certamente precificarão o risco de reversão política em suas ofertas, o que justifica a ausência de um preço de reserva.

Próximos Passos e o Que Observar

Os investidores e analistas estarão atentos às identidades dos licitantes até 12 de agosto, data limite para consultas. O caminho tarifário futuro, a convergência tarifária e quaisquer sinais do regulador ERAS sobre a trajetória tarifária de médio prazo serão cruciais para a precificação das ofertas. A oposição política, incluindo respostas sindicais e reações provinciais, também poderá complicar a transição. Paralelamente, os resultados de licitações comparáveis, como a da Acciona no Brasil, ajudarão a calibrar o valor percebido pelo capital hídrico internacional. O posicionamento de candidatos peronistas em relação à AySA nas eleições de 2027 será o indicador mais visível de risco político para os licitantes institucionais.

A AySA foi criada como empresa estatal em 2006, e sua reprivatização em 2026 representa um ponto de inflexão, com o governo buscando atrair investimentos significativos para um setor vital. O prazo para submissão de propostas é 27 de agosto de 2026, com a abertura pública das envelopes marcada para o mesmo dia. A avaliação das propostas levará três meses, considerando tanto as ofertas econômicas quanto as credenciais técnicas dos interessados.