A escalada do preço do petróleo Brent, ultrapassando a marca de US$ 110 o barril devido à instabilidade geopolítica no Oriente Médio, está gerando um efeito cascata nos custos da construção civil no México. A Câmara Nacional de Desenvolvimento e Promoção Habitacional (Canadevi) projeta que essa alta possa encarecer a construção de novas residências em até 6% no país, um cenário desafiador para um setor que já enfrenta uma contração prolongada e para as metas de habitação acessível do governo.
Impacto direto no bolso do consumidor
A projeção da Canadevi, divulgada em 13 de maio, indica que o aumento de 5% a 6% no custo de construção de novas moradias mexicanas se dará caso o preço do Brent permaneça acima de US$ 110 o barril. Essa elevação já se reflete no preço de materiais essenciais como cimento, aço, alumínio e derivados de plástico. Conforme informações apuradas pelo Campo Grande NEWS, os preços do alumínio já subiram 12%, o cimento 8% e os tubos de PVC 40%.
O presidente da Canadevi, Carlos Ramírez Capó, destacou a incerteza gerada pela continuidade das negociações e a percepção de um conflito mais prolongado entre os EUA, Israel e o Irã como fatores que mantêm o preço do petróleo em alta. Ele explicou que a elevação nos custos de insumos estratégicos, como diesel, gasolina e asfalto, tem gerado pressões relevantes sobre a indústria da construção.
A cadeia de custos da construção
O impacto do preço do petróleo no custo final de uma casa no México se dá por três vias principais. A primeira é direta, com a produção de cimento, um processo altamente intensivo em energia, sendo diretamente afetada pelo aumento dos combustíveis industriais. Fabricantes mexicanos já reportaram aumentos de até 40% nos preços de combustíveis industriais em suas balançes do primeiro trimestre. O segundo canal é o transporte, onde cada caminhão que transporta materiais de construção pela rede viária mexicana tem um custo maior, um surcharge que é repassado ao incorporador.
O terceiro canal opera através da matriz de combustíveis industriais do México. Embora os fabricantes de cimento possam alternar entre diferentes tipos de combustível em seus fornos, oferecendo algum alívio no curto prazo, a estrutura de custos mais ampla não permite um afastamento fácil de insumos ligados ao petróleo. Conforme o Campo Grande NEWS checou, o CEO da Holcim México, Christian Dedeu, informou que os preços dos combustíveis industriais subiram 40%, e que os sobretaxas de transporte impulsionadas pelo diesel afetam diretamente as operações.
Concentração do impacto e o plano habitacional
O encarecimento da construção chega em um momento delicado para o mercado imobiliário mexicano. O setor de construção está em sua 20ª contração consecutiva de produção, com uma queda de 1,1% ano a ano em janeiro de 2026. Essa nova onda de custos colide diretamente com a meta da administração Sheinbaum de construir 1,2 milhão de casas acessíveis ao longo de seu mandato, lideradas pelo Instituto do Fundo Nacional de Habitação para os Trabalhadores (Infonavit).
O impacto se concentra em seis estados que respondem por 52,3% das novas origens de hipotecas: Cidade do México, Jalisco, Nuevo León, Estado do México, Querétaro e Guanajuato. Essa concentração geográfica, que coincide com o boom do nearshoring e a forte presença de expatriados, significa que o repasse dos custos mais altos afetará diretamente os mercados imobiliários mais dinâmicos e impulsionados pela demanda estrangeira e pela realocação de empresas.
O que observar daqui para frente
A trajetória do preço do petróleo Brent é crucial. Um patamar sustentado acima de US$ 110 pode elevar o impacto nos custos acima de 7%, enquanto uma queda para abaixo de US$ 90 pode suavizar o repasse. O Infonavit provavelmente revisará suas tabelas de referência de custos de construção, com implicações para os preços das moradias acessíveis e para a meta de seis anos de Sheinbaum. Analistas e investidores também observarão a reação das ações de grandes empresas cimenteiras como Cemex, Holcim e GCC, bem como as decisões do Banco do México sobre a taxa de juros e a flutuação do peso frente ao dólar.
A situação atual, conforme detalhado pelo Campo Grande NEWS, representa um desafio adicional para o cumprimento das metas de habitação acessível. O aumento dos custos de construção pode comprometer a viabilidade financeira dos projetos, tanto para os incorporadores, que enfrentam maiores despesas, quanto para os trabalhadores elegíveis ao Infonavit, cujos orçamentos são apertados pela inflação que eleva o custo dos materiais.


