Barulho de crianças em ‘escolinha’ causa revolta e força mudança de endereço

Um espaço de cuidado infantil localizado na Rua Anita Garibaldi, no Bairro Mata do Jacinto, em Campo Grande, tornou-se motivo de discórdia entre moradores e a responsável pelo local. O que era para ser um ambiente de apoio para mães trabalhadoras acabou gerando uma onda de reclamações devido ao barulho constante.

Moradores próximos ao imóvel, que não possui qualquer identificação de que se trata de uma unidade de cuidado infantil, relatam que o som de gritos, risadas e choro de crianças se estende por todo o dia. A situação chegou a tal ponto que a cuidadora Tatiely Silva decidiu encerrar as atividades no endereço atual e buscar um novo local, após a Secretaria Municipal de Educação (Semed) constatar irregularidades no funcionamento do espaço e encaminhar o caso ao Ministério Público.

Moradores relatam incômodo diário

O aposentado Ernesto Borges, de 70 anos, que mora nas proximidades, conta que a cuidadora começou a atuar no endereço há alguns meses. Ele afirma que o incômodo é maior para os vizinhos mais próximos, mas que o barulho é perceptível. “Eu não sei se é possível isso aí, se pode exercer essa atividade. Acho que não”, comenta.

Uma enfermeira aposentada de 71 anos, vizinha direta do imóvel, descreve a convivência como “terrível”. Segundo ela, as denúncias ao Conselho Tutelar já foram feitas. “Ficam essas crianças soltas aí. Já fizemos denúncias, e é um barulho muito forte o dia inteiro. Às 7h da manhã eu acordo com criança chorando, mães deixam e elas ficam chorando por horas”, relata, com o quarto voltado para o imóvel onde funcionava o espaço.

A aposentada ainda acrescenta que a proprietária do imóvel havia informado que seria alugado para uma cuidadora que atenderia apenas cerca de cinco crianças por período. “Ela disse que seriam poucas crianças, mas no outro dia já virou essa bagunça toda”, lamenta.

Cuidadora afirma que busca apoiar mães e decide mudar de local

Tatiely Silva, de 29 anos, responsável pelo espaço de cuidado infantil, afirma ter sido surpreendida pelas reclamações. Ela explica que sua mãe, com mais de 40 anos de experiência no cuidado de crianças no bairro e que já possuía alvará em outros endereços, é quem cuida das crianças no local. “No começo foi tranquilo, depois surgiram denúncias por causa do barulho. Fomos ao Conselho Tutelar e nos disseram que barulho de criança não é crime”, justifica.

Diante da situação, Tatiely decidiu encerrar as atividades no local. “A gente não veio para causar problema. Estamos assustados. Trabalham comigo minha mãe, minha tia e meu esposo, que ajuda no transporte das crianças”, diz.

Ela esclarece que o serviço não se caracteriza como creche ou escola. As cerca de 25 crianças atendidas ficam no local apenas no contraturno escolar, recebem alimentação, mas sem atividades pedagógicas formais. “Quem tem tarefa faz, mas é mais na brincadeira. Não fazemos alfabetização. É um apoio para mães que não têm onde deixar os filhos”, explica.

Tatiely informa que esta é a primeira vez que precisam mudar de endereço por conta de reclamações. “Temos contrato de um ano, mas vamos precisar rescindir. Fica inviável até como moradia”, afirma.

Irregularidades constatadas e encaminhamento ao MP

O Conselho Tutelar esteve no local e, embora não tenha constatado violação direta de direitos das crianças, confirmou a irregularidade administrativa. Por conta disso, o órgão acionou a Secretaria Municipal de Educação (Semed).

Em nota oficial, a Semed informou que realizou uma vistoria no imóvel após receber a denúncia. A pasta constatou que o espaço funcionava com “situações inadequadas e irregularidades relacionadas ao atendimento de crianças”. O caso foi, então, encaminhado ao Ministério Público para as “providências cabíveis”.

A reportagem do Campo Grande NEWS questionou a prefeitura sobre os procedimentos para a regularização de atividades de cuidadoras e creches, mas não obteve retorno até a publicação desta matéria. O espaço de cuidado infantil, conforme apurado pelo Campo Grande NEWS, segue funcionando no local, mas com a iminente necessidade de realocação, conforme relatado pela cuidadora.

A situação levanta um debate importante sobre a oferta de espaços de cuidado infantil e a necessidade de regulamentação para garantir a segurança e o bem-estar tanto das crianças quanto da comunidade onde esses serviços são oferecidos. O Campo Grande NEWS continuará acompanhando os desdobramentos deste caso.