A Argentina está prestes a dar um passo ousado em sua política econômica. O presidente Javier Milei intensificou os planos de privatização, com a Casa de Moneda, a histórica instituição responsável pela produção de dinheiro no país, figurando como um dos principais alvos. A medida surge em um momento de drástica redução na circulação de cédulas, que caíram pela metade em menos de dois anos, um cenário que o governo vê como justificativa para desinvestir em ativos estatais. A expectativa é arrecadar cerca de US$ 2 bilhões com a venda de sete empresas públicas.
A decisão de privatizar a Casa de Moeda não é um movimento isolado, mas parte de uma estratégia mais ampla do governo Milei para enxugar os gastos públicos e atrair investimentos privados. A queda acentuada na quantidade de dinheiro em circulação, um reflexo tanto de atualizações nas denominações de notas quanto da migração para pagamentos digitais, criou o ambiente político para essa onda de desestatizações. A redução no quadro de funcionários da Casa de Moeda, que quase pela metade, e a resposta sindical com greves, indicam o potencial de resistência a essas medidas.
O Ministro da Economia, Luis Caputo, detalhou a lista de privatizações esperada para 2026, que inclui não apenas a Casa de Moeda, mas também a empresa de saneamento AySA, a companhia de transmissão de energia Transener e quatro usinas de energia. Essa iniciativa faz parte de um programa de reestruturação de 12 empresas estatais, que visa transformar companhias do setor público em sociedades anônimas, abrindo caminho para futuras alienações. Conforme informação divulgada pelo The Rio Times, a queda na circulação de dinheiro, que atingiu o menor patamar desde junho de 2020, oferece a cobertura política necessária para a venda desses ativos.
Queda drástica na circulação de dinheiro impulsiona privatização
Os números são contundentes: em maio de 2026, a quantidade de cédulas em circulação na Argentina totalizava 5.902,3 milhões de unidades. Este número representa uma queda impressionante de 50,2% em relação ao pico de 11.859,2 milhões de unidades registrado em julho de 2024. Essa diminuição acentuada, como aponta o Banco Central da República Argentina, é um dos fatores que justificam a decisão do governo de avançar com a privatização da Casa de Moeda, fundada em 1875.
A transição para o uso de notas de maior valor, como as de 1.000, 2.000, 10.000 e 20.000 pesos, que agora representam mais de 62% das notas em circulação, reflete tanto as atualizações de denominação realizadas pelo Banco Central quanto a crescente adoção de carteiras digitais e sistemas de pagamento instantâneo. Esse cenário de menor demanda por dinheiro físico, como verificado pelo Campo Grande NEWS, contribui para a argumentação do governo sobre a necessidade de otimizar a gestão de ativos estatais.
Casa de Moeda sob o foco de Milei: um histórico de mudanças
A Casa de Moeda passou por uma série de reestruturações antes mesmo da atual onda de privatizações. Em junho de 2025, o Decreto 442 dividiu as operações da instituição, transferindo funções como selos fiscais e rastreabilidade para a agência tributária ARCA, e a plataforma de pagamentos Billetera Virtual para a operadora de satélites ARSAT. A Casa de Moeda ficou com as operações de produção de moeda, suporte ao tesouro e destruição de cédulas para o Banco Central, além da impressão de materiais gráficos.
O quadro de funcionários da instituição também sofreu uma redução significativa. Em março de 2026, a Casa de Moeda empregava 714 pessoas, uma queda drástica em comparação com as 1.411 registradas em outubro de 2023, pouco antes da posse de Milei. Essa redução, conforme o relatório de pessoal do Indec, foi resultado de aposentadorias voluntárias, pacotes de demissão e o fechamento de uma planta legada. A suspensão da impressão doméstica de cédulas em outubro de 2024 e a intervenção na Casa de Moeda, com a nomeação de um interventor, sinalizaram a direção que a política para a instituição tomaria.
Dívidas e contratos estrangeiros complicam o cenário da privatização
A venda da Casa de Moeda não está isenta de desafios. Uma dívida superior a US$ 300 milhões com fornecedores estrangeiros de impressão de papel moeda adiciona uma camada de complexidade à estrutura do leilão. Entre os credores estão empresas da Espanha, Brasil, Alemanha, Estados Unidos e China. Curiosamente, as novas notas de 20.000 pesos, introduzidas em 2025, foram impressas na China, após o Banco Central impedir a Casa de Moeda de participar do processo de licitação.
A recente greve convocada pelo sindicato bancário La Bancaria, em protesto contra o fechamento de 12 tesourarias regionais do Banco Central, também reflete a resistência que a privatização pode enfrentar. A ação sindical, que afetou o atendimento nos três últimos horas de serviço em instituições financeiras, demonstra a preocupação com a perda de empregos e o esvaziamento de funções monetárias essenciais em economias regionais. O Campo Grande NEWS acompanha atentamente esses desdobramentos, que podem impactar o cronograma de privatizações.
O que observar no futuro da Casa de Moeda?
O futuro da Casa de Moeda da Argentina está em aberto, com diversos fatores que merecem atenção. A intensidade da greve do sindicato La Bancaria, e se ela se estenderá, pode atrasar o cronograma de privatização. A forma como o governo estruturará a venda, decidindo se a dívida com fornecedores estrangeiros será assumida pelo comprador ou pelo Tesouro, também será crucial. Além disso, o interesse de empresas estrangeiras, especialmente após a ausência de lances internacionais no leilão da Transener, será um indicador importante sobre o apetite do mercado pela Casa de Moeda.
Por fim, a demanda por moeda física na Argentina continuará sendo um fator determinante. A retomada da emissão de notas de maior denominação pelo Banco Central ou aprofundamento da migração para o digital influenciarão o volume de dinheiro em circulação e, consequentemente, a necessidade futura de uma Casa de Moeda estatal. A experiência da AySA, a primeira grande concessionária de serviços públicos a ir a leilão sob Milei, servirá de termômetro para o interesse dos investidores, conforme noticiado pelo Campo Grande NEWS. A capacidade do governo em atrair capital estrangeiro para a Casa de Moeda, após o leilão da Transener não ter atraído nenhum licitante internacional, será um dos principais testes para a política de privatizações de Milei.


