BC compra dólares no mercado futuro pela primeira vez em 10 anos e muda rumo da política cambial

O Banco Central do Brasil (BCB) realizou uma operação cambial sem precedentes em 10 anos no último dia 6 de maio, adquirindo US$ 500 milhões em contratos futuros de dólar. Esta foi a primeira vez desde novembro de 2016 que a autoridade monetária brasileira realizou um leilão de recompra de dólares, um movimento que sinaliza uma mudança significativa na política cambial diante da forte valorização do Real. Conforme apurado pelo Campo Grande NEWS, a ação busca absorver o excesso de dólares no mercado e reduzir o estoque de swaps cambiais tradicionais, que atualmente soma US$ 95,75 bilhões.

A operação, que consistiu na compra de 10.000 contratos de dólar futuro, representa um marco importante. O Real, impulsionado por uma série de fatores macroeconômicos, acumulou uma **valorização de 11% no ano**, tornando-se a moeda de maior destaque entre as principais economias globais em 2026. Essa força da moeda brasileira tem sido um dos principais motivos para a intervenção do BCB, que busca evitar uma apreciação excessiva que possa prejudicar a competitividade das exportações.

A decisão do BCB de voltar a atuar no mercado futuro de câmbio, após um longo período de pausa, gerou repercussão entre analistas de mercado. Especialistas de instituições como Warren Rena, XP e Crédit Agricole apontam que, embora o volume da operação seja relativamente pequeno, o seu valor como precedente é considerável. Eles antecipam que, se o Real continuar sua trajetória de alta, novas intervenções por parte do Banco Central são prováveis nas próximas sessões.

O que motivou a intervenção do BCB?

A recente força do Real é resultado de um conjunto de fatores convergentes que criaram um cenário favorável para a moeda brasileira. A taxa básica de juros, a Selic, encontra-se em patamares elevados, em 14,75%, o maior nível desde 2006, atraindo fluxos de investimento estrangeiro em busca de rentabilidade (carry trade). Além disso, o Comitê de Política Monetária (Copom) tem mantido uma postura hawkish, ou seja, de cautela em relação à inflação, especialmente aquela impulsionada pelos preços do petróleo no cenário internacional.

Outro ponto relevante é a realocação de capital estrangeiro, que tem se afastado de ativos americanos em virtude da volatilidade observada nos Estados Unidos, buscando oportunidades em mercados emergentes. Paralelamente, o Tesouro Nacional brasileiro tem obtido sucesso em emissões de títulos no exterior, o que fortalece a confiança dos investidores na economia do país. Conforme apurado pelo Campo Grande NEWS, esses elementos, somados a um retorno geral do apetite por risco nos mercados emergentes, contribuíram para a performance expressiva do Real.

Um novo capítulo na política cambial

A operação de recompra de dólares via swap reverso é um mecanismo pelo qual o BCB assume o lado comprador dos contratos de dólar e o lado vendedor de reais, pagando a variação cambial e recebendo a taxa de juros local. Essa estratégia tem o objetivo funcional de contrabalançar o estoque existente de swaps cambiais tradicionais, que totaliza US$ 95,75 bilhões. O estoque já apresentou uma redução superior a US$ 7 bilhões desde que Nilton David assumiu a diretoria de política monetária do BCB, com operações como o chamado “casadão”, que envolve a venda de dólares à vista das reservas internacionais e a simultânea compra via swap reverso.

A atuação no dia 6 de maio é interpretada como a abertura formal de uma fase mais ativa, com projeções de que o BCB possa estender essa iniciativa em um programa estruturado de redução do estoque de swaps. A última vez que o Banco Central realizou operações comparáveis foi em novembro de 2016, sob a gestão de Ilan Goldfajn, que suspendeu a estratégia após a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a expectativa é de que o atual ciclo de intervenções seja mais duradouro, calibrado aos sinais de força do Real e não se trate de uma ação pontual.

Visão dos analistas de mercado

Daniel Manso, chefe de derivativos da Warren Rena, acredita que o BCB será mais ativo do que tem sido até agora. Daniel Balaban, da XP Nova Iorque, destacou que, apesar do volume modesto da operação, o **sinal enviado pelo mercado é importante**, e um programa estruturado de recompra faria sentido. Olga Yangol, chefe de pesquisa e estratégia econômica para mercados emergentes do Crédit Agricole, classificou a medida como uma “boa estratégia do ponto de vista do BCB”, pois a intervenção absorve de forma eficaz o excesso de oferta de dólares.

A interpretação geral do mercado é que esta não é uma ação isolada, mas sim o início de um programa mais amplo e calibrado. Os próximos indicadores econômicos e as futuras operações do BCB serão cruciais para confirmar a operacionalização de um programa estruturado de redução do estoque de swaps. Em 6 de maio, o dólar à vista fechou o dia cotado a R$ 4,9207, e o preço à vista tem se mantido consistentemente abaixo da marca de R$ 5,00 por um período considerável. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a posição de reservas do BCB tem sustentado as operações de fortalecimento do dólar.

O cenário macroeconômico que favorece o Real

A força do Real em 2026 pode ser atribuída a quatro dinâmicas importantes. Primeiro, a taxa Selic em 14,75% atrai fluxos de carry trade. Segundo, a postura do Copom em relação à inflação, exacerbada pelos preços do petróleo, mantém os diferenciais de juros favoráveis. Terceiro, a realocação de capital estrangeiro, que se afasta de ativos americanos voláteis e busca mercados emergentes. Quarto, as recentes e bem-sucedidas emissões de títulos do Tesouro brasileiro no exterior reforçam a credibilidade do país. O Ibovespa opera perto de máximas históricas, e os fluxos cambiais de abril mostraram um saldo positivo de US$ 9,291 bilhões, revertendo o fluxo de saída de US$ 33,3 bilhões registrado em 2025, que foi o segundo maior da série histórica.

O efeito da guerra no Irã sobre os preços do petróleo, ao mesmo tempo em que o apetite por risco retorna aos mercados emergentes, tem amplificado as receitas de exportação brasileiras. A combinação desses fatores cria um ambiente propício para a valorização contínua da moeda nacional, o que justifica a atenção e as ações do Banco Central para gerenciar essa trajetória.