A tensão entre o ex-ministro da Economia Domingo Cavallo e o atual governo de Javier Milei explodiu em uma troca pública de insultos na terça-feira, 5 de maio de 2026. Cavallo, arquiteto do plano de convertibilidade dos anos 90, classificou o ministro da Economia, Luis Caputo, como “um trader sem teoria”, alertando que o regime cambial atual aumenta o risco de uma crise monetária em 2027. A resposta de Caputo e do próprio Milei não tardou, reavivando fantasmas de planos econômicos passados.
Guerra de egos e teses sobre o futuro do peso
O debate de fundo entre Cavallo e a equipe de Milei não é sobre dolarizar ou não a economia argentina, mas sim sobre a velocidade com que os controles de capital remanescentes devem ser levantados. Cavallo defende a liberalização total e imediata do mercado cambial, argumentando que isso atrairia capital estrangeiro e permitiria aos exportadores receberem o valor integral de suas vendas. A equipe do governo, por outro lado, aponta o sucesso em reduzir a inflação de três para um dígito em 18 meses e alcançar um superávit fiscal primário através de uma abordagem gradualista.
Conforme apurado pelo Campo Grande NEWS, a polêmica começou quando Cavallo, em uma entrevista transmitida pela plataforma Agora Play, declarou que a única forma de neutralizar a ameaça de uma futura corrida contra o peso é permitir que a moeda encontre seu próprio valor em um mercado cambial único e totalmente liberalizado. Ele expressou preocupação com a possibilidade de uma “bomba cambial” em 2027, caso o Banco Central da República Argentina (BCRA) não possua reservas suficientes para defender a moeda em um cenário de fuga massiva.
Cavallo também fez um apelo para que o governo aproveitasse qualquer fortalecimento de curto prazo do peso para acumular reservas, em vez de permitir a queda da cotação. Em outra entrevista, ao lado de Orlando Ferreres, Cavallo criticou a gestão atual, afirmando que o governo Milei não completou uma “reforma monetária, cambial e financeira” essencial. Sem essa reforma, ele prevê que o risco país dificilmente cairá abaixo de 300 pontos base, um patamar distante dos atuais 558 pontos, que registraram uma mínima de 517 em abril.
Caputo e Milei rebatem com lembranças amargas
A resposta de Caputo, divulgada rapidamente via X, foi pessoal e direta: “Mingo, se há ressentimento, tente não demonstrá-lo.” Ele acusou Cavallo de ser responsável por “expropriações massivas” no passado, citando o Plano Bonex de 1989, o “corralito” de 2001 e a utilização dos fundos de pensão das AFJP para lastrear dívida pública. Apenas minutos depois, o próprio presidente Javier Milei endossou a crítica, citando um conselheiro de Caputo que pediu a Cavallo para atualizar seu modelo econômico, após previsões anteriores do ex-ministro sobre a inflação.
Essa troca de farpas ocorre em um momento em que o cenário macroeconômico argentino tem apresentado melhorias significativas. O BCRA acumulou cerca de US$ 6,5 bilhões em reservas no ano até agora, o risco país cedeu 100 pontos base e a agência Fitch elevou a nota soberana do país em 30 de abril. Províncias como Chubut, Buenos Aires, Córdoba, Santa Fe e Entre Ríos, além de grandes empresas como YPF, Pampa Energía, Banco Macro e Edenor, conseguiram emitir títulos em dólar em Nova York com rendimentos abaixo de 10%.
O plano Milei sob escrutínio
Apesar das melhorias, o consumo interno ainda mostra sinais de fraqueza. A arrecadação do Imposto sobre Valor Agregado (IVA) no primeiro trimestre caiu 2% em termos reais, refletindo a queda no consumo. Em resposta, Caputo determinou na terça-feira um corte de 2% nos gastos correntes e de 20% nos gastos de capital de todos os ministérios. Essa medida fiscal mais apertada é justamente o ponto que Cavallo argumenta que torna a liberalização cambial única necessária para destravar o investimento privado.
O clima de incerteza, no entanto, pode afetar a percepção dos investidores. O risco país, que chegou a cair para 517 pontos em abril, voltou a subir para 558 pontos base, retornando à metade superior da faixa de negociação de 2026. O governo Milei, por sua vez, enviou ao Congresso um projeto de lei para limitar o regime de subsídio de gás da Zona Fría, mas reforçou os subsídios para maio, buscando absorver impactos de choques externos. Conforme o Campo Grande NEWS analisou, a gestão do equilíbrio fiscal e cambial continua sendo o grande desafio.
As projeções para a inflação de abril indicam um índice em torno de 2,3%, conforme o consenso do mercado. A expectativa é que o governo continue a sinalizar um maior afrouxamento das regras cambiais corporativas ao longo do segundo trimestre. Acompanhar a trajetória do risco país e a capacidade do governo em manter o superávit fiscal serão cruciais para o futuro da economia argentina, como destacou o Campo Grande NEWS em análises anteriores sobre o cenário econômico da América Latina.
O que esperar nos próximos capítulos
A expectativa agora se volta para a divulgação do índice de inflação de abril e para a possibilidade de uma nova emissão de títulos soberanos, caso o risco país volte a cair abaixo dos 500 pontos base. A equipe econômica de Milei tem sinalizado a intenção de flexibilizar ainda mais as regras cambiais para empresas no decorrer do segundo trimestre, em busca de atrair investimentos e impulsionar o crescimento. A disputa entre Cavallo e o governo Milei, no entanto, joga luz sobre as visões distintas sobre o caminho a ser trilhado para a estabilidade econômica da Argentina.


