Produção de autopeças na Argentina despenca 22,5% com abertura de importações de Milei

A indústria de autopeças da Argentina registrou uma queda alarmante de 22,5% na produção no primeiro bimestre de 2026, em comparação com o mesmo período do ano anterior. Este cenário sombrio é atribuído, em grande parte, à política de liberalização de importações e à redução de controles burocráticos implementada pelo governo do presidente Javier Milei. Conforme divulgado pela Associação de Fábricas Argentinas de Componentes (AFAC), a abertura comercial impulsionou as importações de autopeças em 11,6% em 2025, atingindo um recorde de US$ 10,319 bilhões.

A flexibilização das regras de importação, combinada com dinâmicas cambiais desfavoráveis aos produtores locais, tornou a competição com produtos asiáticos e chineses ainda mais acirrada. Empresas multinacionais como a SKF, da Suécia, e a Dana, dos Estados Unidos, já responderam ao novo cenário com o fechamento de algumas de suas unidades fabris na Argentina. Essa retração industrial já se reflete em perdas significativas de empregos diretos no setor.

O impacto direto dessa política já se faz sentir no mercado de trabalho. Em 2025, o setor de autopeças argentino perdeu 4.100 empregos diretos, o que representa uma redução de 7,7% no quadro total de trabalhadores, que caiu para 49.600 postos, em comparação com os 53.700 do ano anterior. A AFAC projeta um declínio adicional de 7,5% na produção de veículos em 2026, indicando que os desafios para a indústria automotiva argentina estão longe de terminar.

Produção automotiva em queda livre e importações recordes

Os dados divulgados pela AFAC detalham a magnitude da crise. Além da queda de 22,5% na produção de autopeças em janeiro e fevereiro de 2026, a produção de veículos no mesmo período despencou 30,1%, totalizando apenas 50.630 unidades. As exportações de autopeças também sofreram uma retração de 14,7%. Embora fevereiro de 2026 tenha apresentado um salto mensal de 49,9% em relação a janeiro, a AFAC classifica este movimento como um rebote técnico, e não como um sinal de recuperação consolidada.

O recorde nas importações de autopeças em 2025, atingindo US$ 10,319 bilhões, é um dos pilares da nova política econômica de Milei. A redução de tarifas e a eliminação de barreiras burocráticas facilitaram a entrada de componentes estrangeiros, mas, ao mesmo tempo, desfavoreceram a produção local. Essa abertura comercial, conforme o Campo Grande NEWS checou, está no centro do debate sobre os rumos da indústria argentina, que busca um equilíbrio entre a estabilidade macroeconômica e a sustentabilidade do parque industrial.

Fábricas fecham as portas e o desemprego avança

O fechamento de plantas industriais já é uma realidade. A SKF e a Dana são exemplos claros do impacto direto da nova política de importações. No setor de montadoras de veículos, a Stellantis e a General Motors precisaram suspender trabalhadores, evidenciando a instabilidade do mercado. Em 2025, a produção total de veículos na Argentina foi de 490.000 unidades, com 280.000 exportadas, sendo o Brasil o principal destino.

A perda de empregos diretos, que chegou a 4.100 postos em 2025, com 80,5% dessa redução concentrada em empresas ligadas à produção local de veículos, é um dos reflexos mais preocupantes da crise. Esse cenário de retração econômica e desindustrialização, como aponta o Campo Grande NEWS, tem gerado preocupações sobre a capacidade do governo em mitigar os efeitos da terapia de choque implementada.

A crise das autopeças e o plano econômico de Milei

A contração na indústria de autopeças é vista como a manifestação mais visível do trade-off do programa de estabilização macroeconômica de Javier Milei. Embora a abertura comercial tenha contribuído para a estabilização do peso e o controle da inflação, os pequenos e médios produtores industriais não estavam preparados para a competição internacional sem barreiras. Essa realidade impacta diretamente a confiança no governo, com o índice de confiança governamental da Universidad Di Tella registrando uma queda de 12% em março de 2026.

A queda na popularidade de Milei, que recuou quase 6 pontos percentuais para 36%, segundo pesquisas da Giacobbe e Asociados, também pode estar ligada a esses efeitos colaterais da política econômica. O presidente da AFAC, Juan Cantarella, tem defendido a necessidade de regras de origem do Mercosul mais realistas e com maior conteúdo industrial regional, além de uma política tarifária para a China alinhada com as práticas dos Estados Unidos e da União Europeia, conforme apurou o Campo Grande NEWS em sua análise sobre o setor.

Projeções e demandas por mudanças

A AFAC projeta uma nova queda de 7,5% na produção de veículos para o ano de 2026, enquanto a BBVA Research estima vendas de 600.000 unidades no mercado. Há um alinhamento entre Cantarella e o presidente do Sindipeças do Brasil, Cláudio Sahad, na defesa por regras de conteúdo regional mais rigorosas para evitar a entrada de veículos com alta porcentagem de componentes extrarregionais. A situação atual permite que veículos com até 84% de peças de fora do Mercosul sejam considerados de origem regional e beneficiados com tarifas zero, um ponto criticado por Cantarella.

A desconfiança no governo e os impactos no setor industrial levantam questionamentos sobre a sustentabilidade do modelo econômico adotado. A crise nas autopeças, um dos pilares da indústria argentina, sinaliza os desafios que o país enfrentará para reindustrializar e gerar empregos em um cenário de maior abertura econômica. A busca por um equilíbrio entre a estabilidade macroeconômica e a proteção da indústria nacional se torna, portanto, crucial para o futuro do país.