MS: Conflitos por terra caem, mas violência aumenta e atinge 7.151 famílias

Em Mato Grosso do Sul, a disputa por terras tem apresentado uma queda no número de conflitos, mas com um alarmante agravamento da violência. Dados recentes da Comissão Pastoral da Terra (CPT) indicam que, em 2025, os registros de confrontos entre indígenas e produtores rurais no estado caíram pela metade em comparação com o ano anterior, saindo de 99 para 44 ocorrências. Contudo, essa redução numérica mascara uma realidade preocupante: os episódios se tornaram mais violentos, com um aumento significativo nos casos de assassinatos em todo o país, que dobraram.

A região de Dourados, no sul do estado, continua sendo o epicentro dessas tensões fundiárias, concentrando a maior parte das famílias atingidas. Conforme apurado pelo Campo Grande NEWS, a situação na reserva indígena local é crítica, afetando diretamente 3.755 famílias em 2025. Essa realidade, detalhada em reportagem do Campo Grande NEWS, sublinha a persistência da violência no campo, mesmo diante de uma diminuição aparente nos números gerais de conflitos.

O representante da CPT em Mato Grosso do Sul, Roberto Carlos de Oliveira, ressalta a gravidade do cenário. “Houve redução no número de conflitos, mas a violência aumentou. Cresceram os assassinatos e o número de famílias atingidas. Ou seja, são menos registros, mas episódios mais graves, a violência segue avançando no campo em Mato Grosso do Sul e em todo o Brasil”, afirma Oliveira. Essa análise, divulgada pela CPT, aponta para uma intensificação da brutalidade nos confrontos por terra, um problema crônico no estado.

No total, Mato Grosso do Sul registrou 44 episódios de violência ligados a disputas por terra em 2025, envolvendo 7.151 famílias, a maioria pertencente ao povo Guarani-Kaiowá. Os incidentes incluem uma gama de agressões severas, como sequestros, agressões físicas, ferimentos, estupros, tentativas de assassinato e cárcere privado. Essas ações violentas estão intrinsecamente ligadas à disputa pela posse e uso da terra, um tema sensível e historicamente conflituoso na região sul do estado.

Dourados: epicentro da tensão fundiária

A região de Dourados se consolida como o principal foco dos conflitos agrários no estado. Em 2025, quatro episódios de violência foram registrados especificamente nessa área, evidenciando a concentração das tensões fundiárias. A Reserva Indígena de Dourados, com cerca de 3 mil hectares, é o local mais afetado, onde 3.755 famílias, representando mais da metade dos atingidos em todo o estado, foram diretamente impactadas.

Essa reserva abriga aproximadamente 13,5 mil habitantes, conforme o Censo de 2022 do IBGE. É uma das reservas mais populosas do Brasil, composta majoritariamente pelos povos Guarani, Kaiowá e Terena. A comunidade enfrenta desafios complexos, como superlotação, precariedade no acesso a serviços básicos e, de forma recorrente, tensões sociais e fundiárias que escalam para a violência, como detalhado pelo Campo Grande NEWS.

Miranda e Cachoeirinha: conflitos em terras tradicionais

Em segundo lugar em número de famílias afetadas, a região de Miranda registrou 1.230 famílias envolvidas em conflitos, com destaque para as tensões na Terra Indígena Cachoeirinha. Essa área, que abrange 36 mil hectares reconhecidos pelo Estado como de ocupação tradicional indígena, continua sendo palco de acirradas disputas pela posse e uso da terra, como relata a CPT.

A persistência desses conflitos em terras já demarcadas ou em processo de demarcação levanta questionamentos sobre a efetividade das políticas públicas e a atuação do poder público na resolução dessas disputas. A demora na conclusão dos processos de demarcação e, principalmente, na etapa de “desintrusão” – retirada de ocupantes não indígenas –, contribui para a manutenção da instabilidade e da violência.

Violência no campo: um retrato nacional alarmante

No cenário nacional, a violência no campo apresentou um aumento drástico. O número de assassinatos em disputas agrárias dobrou em 2025, passando de 13 vítimas em 2024 para 26, distribuídas em oito estados, incluindo Mato Grosso do Sul. Um dos casos que ilustram essa escalada é o assassinato do indígena sul-mato-grossense Vicente Fernandes Vilhalva Kaiowá, de 36 anos, em novembro de 2025, durante um conflito armado com um segurança de fazenda na região de Iguatemi, onde 120 famílias foram afetadas.

“Em Mato Grosso do Sul, cerca de 78% das violências registradas pela Comissão Pastoral da Terra em conflitos no campo atingiram povos indígenas. Ou seja, quase oito em cada dez casos, sobretudo em razão de disputas em áreas reivindicadas como terras indígenas, muitas delas já em estágio avançado de identificação e delimitação”, destaca Oliveira. Essa estatística, conforme aponta o representante da CPT, evidencia a vulnerabilidade dos povos indígenas em Mato Grosso do Sul diante da disputa por seus territórios ancestrais.

Críticas à omissão do poder público

Roberto Carlos de Oliveira critica a postura do governo estadual e federal, apontando a omissão do poder público como um fator determinante para a intensificação dos conflitos. A maioria das disputas ocorre em terras que estão em processo de demarcação, mas ainda ocupadas por fazendeiros que resistem à desocupação. Sem a finalização desse processo de “desintrusão” e a homologação definitiva das terras, os conflitos tendem a se agravar.

Oliveira ressalta que, em muitos casos, tratam-se de territórios já reconhecidos em estudos antropológicos, que aguardam apenas a formalização final pelo Estado. Ele também critica o governo de Eduardo Riedel, acusado por lideranças indígenas de ter uma postura desfavorável às pautas indígenas. Episódios recentes de atuação das forças de segurança estaduais em áreas de retomada, com a retirada de indígenas, somam-se a mobilizações anteriores de produtores rurais contrários às demarcações, como informado pelo Campo Grande NEWS.

Em relação ao governo federal, embora reconheça esforços e tentativas de avanço, Oliveira aponta a burocracia e a “inoperância” de órgãos responsáveis. A resistência política no Congresso Nacional, onde parlamentares atuam para dificultar processos de demarcação e mediação de conflitos, também contribui para o cenário de instabilidade. A combinação de demora institucionalizada, disputas políticas e interesses econômicos perpetua e agrava os conflitos no campo.

Trabalho análogo à escravidão no Pantanal

Em 2025, Mato Grosso do Sul registrou cinco casos de trabalho análogo à escravidão, com 95 pessoas resgatadas, quatro delas no Pantanal. Segundo levantamento da CPT, mais de 80% dessas ocorrências estiveram ligadas à pecuária, tanto de corte quanto leiteira. Apesar da diversificação econômica rural, a criação de gado ainda concentra a maior parte dos casos de exploração extrema do trabalho no estado.