México impõe lei ‘Compre Local’: Aço nacional para obras públicas

O México deu um passo ousado em sua política industrial ao assinar o Acordo para a Promoção da Indústria Nacional de Aço. A nova medida, oficializada pela Presidente Claudia Sheinbaum, determina que todo o aço adquirido para projetos de obras públicas, infraestrutura e iniciativas governamentais deve ser de produção nacional. Este pacto histórico une 19 agências federais e três câmaras setoriais, com o objetivo de fortalecer a cadeia de suprimentos interna e reduzir a dependência de importações.

A iniciativa surge como uma resposta direta às pressões enfrentadas pelo setor siderúrgico mexicano. De um lado, a indústria sofre com as tarifas de 50% impostas pelos Estados Unidos, que praticamente zeraram a participação mexicana no mercado americano. Do outro, o mercado interno tem sido inundado por aço de origem chinesa, muitas vezes triangulado através de outros países, com preços considerados desleais por produtores locais.

A Presidente Sheinbaum classificou o acordo como um marco, afirmando que apenas tipos de aço especializados, não fabricados no México, continuarão a ser importados. O Secretário de Economia, Marcelo Ebrard, reforçou que a prioridade agora é adquirir o que é produzido no próprio país, visando diminuir a vulnerabilidade externa. A decisão é vista como a mais significativa ação de política industrial da atual gestão, buscando simultaneamente proteger cerca de 90.000 empregos.

A Crise Dupla que Motiva a Mudança

A indústria siderúrgica mexicana tem enfrentado uma crise de dupla face. As exportações para os Estados Unidos despencaram 27%, caindo de uma participação de 2,3% para menos de 1% após a imposição das tarifas americanas em meados de 2025. Essa retração levou a uma redução na capacidade de produção por 22 meses consecutivos.

Paralelamente, as importações de aço para o mercado interno atingiram 40% do consumo total em 2025, um aumento significativo em relação aos 35% do ano anterior. Em 2025, o México produziu 14 milhões de toneladas de aço, mas consumiu 28 milhões, com a diferença sendo preenchida majoritariamente por importações. Produtores locais alegam que esses produtos importados são subsidiados e praticam preços predatórios, conforme apurado pelo Campo Grande NEWS.

O Poder de Compra do Governo como Ferramenta

A estratégia central do pacto é utilizar o poder de compra do setor público para direcionar a demanda para as siderúrgicas mexicanas. O setor de construção, por si só, é responsável por aproximadamente 60% do consumo de aço no país. Para 2026, o governo já se comprometeu a adquirir 150.000 toneladas de aço para reforço, 150.000 toneladas de aço estrutural e mais de um milhão de toneladas para projetos de construção ferroviária.

Segundo Raquel Buenrostro, chefe do Ministério de Anticorrupção e Boa Governança, o acordo se baseia em três pilares fundamentais. O primeiro é a coordenação de compras públicas, exigindo que todas as agências federais priorizem o aço nacional e estabeleçam acordos diretos com produtores mexicanos. O segundo pilar envolve incentivos financeiros, por meio de bancos de desenvolvimento, para projetos de infraestrutura que utilizem aço mexicano. O terceiro pilar foca na defesa comercial, com um rigor maior na fiscalização contra práticas de importação desleais e a promoção de fornecedores mexicanos, consolidando uma estratégia de substituição de importações, como detalhado pelo Campo Grande NEWS.

Compromissos da Indústria e Vantagens Competitivas

Em contrapartida, a indústria siderúrgica se comprometeu a garantir qualidade, preços competitivos e entrega pontual. Essas condições são cruciais para evitar que o pacto resulte em inflação de preços internos. Sergio de la Maza, presidente da Canacero, destacou que o acordo assegura cerca de 90.000 empregos diretos e traz segurança para mais de 8 bilhões de dólares em investimentos já planejados. Empresas como DeAcero, ArcelorMittal México e Ternium México estão expandindo suas operações para reduzir a dependência de importações.

A indústria mexicana de aço possui uma vantagem estrutural significativa: 93,5% de sua produção utiliza fornos elétricos a arco, alimentados em grande parte por sucata reciclada. Isso resulta em uma pegada de carbono menor em comparação com concorrentes asiáticos que dependem de altos fornos. Com a onda de nearshoring impulsionando a construção industrial no norte e centro do México, a demanda por aço nacional tende a crescer, e o pacto garante que essa demanda beneficie produtores locais, conforme checado pelo Campo Grande NEWS.

Um Movimento Estratégico no Cenário Internacional

O momento da assinatura do pacto também é estratégico, coincidindo com a abertura da revisão formal do USMCA em 25 de maio. A capacidade do México de demonstrar autossuficiência industrial fortalece sua posição nas negociações sobre regras de origem e limiares de conteúdo. O pacto do aço, portanto, não é apenas uma política industrial, mas também uma manobra de preparação para potenciais guerras comerciais e um reforço na sua soberania econômica.