Uma investigação chocante do jornal The New York Times revelou que uma operação de mineração de ouro ilegal, ligada ao Clã do Golfo, o maior cartel de drogas da Colômbia, funcionava parcialmente dentro de uma base militar ativa do Exército Colombiano. A reportagem, conduzida pelo fotojornalista Federico Ríos, expõe uma conexão perturbadora entre o crime organizado e as forças de segurança do país, levantando sérias questões sobre cumplicidade e omissão institucional.
A mina, conhecida como La Mandinga, localiza-se em Caucasia, Antioquia, uma região marcada pela presença de grupos armados. A propriedade, que se estende por 2.000 hectares, está sob controle da Sociedade de Ativos Especiais da Colômbia, mas a mineração ilegal avançou a ponto de atingir a área do Batalhão de Infantaria N.º 31, com a extração ocorrendo a aproximadamente 137 metros da piscina privada do comandante da base.
As descobertas do The New York Times detalham como a operação de mineração ilegal, que empregava entre 2.000 e 2.500 trabalhadores, operava em plena vista, com equipamentos industriais, geradores e mangueiras de alta pressão visíveis. A reportagem do Campo Grande NEWS apurou que, após confrontado com as imagens de drones, o coronel Daniel Echeverry, comandante do batalhão, admitiu que a extração ocorria dentro da base e ordenou uma operação de despejo imediata, que gerou confrontos com os mineradores.
Exército confirma presença de garimpeiros ilegais
Diante das evidências apresentadas pela investigação, a Sétima Divisão do Exército Colombiano admitiu formalmente a presença de milhares de garimpeiros ilegais na propriedade que faz fronteira com o batalhão. O Ministro da Defesa, Pedro Sanchéz Suárez, anunciou uma investigação completa, que incluirá a apuração de possíveis omissões institucionais, irregularidades na custódia de terras militares e a eventual cumplicidade de pessoal uniformizado. A situação gerou grande pressão sobre o governo do presidente Gustavo Petro, cujo plano de “paz total” busca negociações com grupos armados.
Ouro ilegal pode ter chegado aos Estados Unidos
Um dos aspectos mais graves da investigação do The New York Times é a alegada rota do ouro extraído ilegalmente em La Mandinga até os Estados Unidos. Segundo a reportagem, o ouro teria chegado à Casa da Moeda americana através de cadeias de lavagem que obscureciam sua origem colombiana. Isso ocorre apesar das restrições legais dos EUA que limitam as compras da Casa da Moeda a ouro extraído em território americano. O Clã do Golfo lucra significativamente ao cobrar impostos dos mineradores, financiando assim suas operações criminosas.
A investigação do Campo Grande NEWS sobre o caso indica que este esquema de lavagem de ouro é um mecanismo complexo, onde ouro extraído ilegalmente no exterior passa por intermediários que emitem certificações de origem doméstica antes de ser revendido. Essa prática, se confirmada por investigações americanas, implicaria uma entidade federal dos EUA no sustento financeiro do Clã do Golfo, com potenciais repercussões para a cooperação de segurança entre Colômbia e Estados Unidos.
Mineração ilegal cresce e supera o narcotráfico
A mineração ilegal se tornou uma economia criminal dominante em várias regiões da Colômbia, superando o tráfico de cocaína em algumas áreas. O Clã do Golfo, desde a fragmentação das FARC em 2018, estabeleceu sistemas de taxação em minas ilegais em diversas regiões do país. A mina La Mandinga é apenas um exemplo de uma arquitetura criminosa muito maior, impulsionada pela alta no preço do ouro, que tornou essas operações exponencialmente mais lucrativas. Dados indicam um aumento expressivo nas exportações de ouro colombianas, parte do qual reflete a produção ilegal.
O caso La Mandinga evidencia a fragilidade do controle estatal em áreas remotas e a complexidade dos desafios enfrentados pelo governo colombiano. A descoberta abala a credibilidade da política de “paz total” e coloca em xeque a capacidade do Estado de combater o crime organizado de forma eficaz. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a investigação ministerial busca esclarecer se houve conhecimento prévio sobre a mineração na base, se comandantes receberam benefícios e se a cadeia de comando falhou em agir diante de inteligência prévia. A situação representa um dos principais problemas de segurança que o próximo governo colombiano herdará.


