Agro exporta mais que petróleo: o legado inesperado de Petro

A economia colombiana vive uma transformação silenciosa, mas impactante. Enquanto o governo de Gustavo Petro se aproxima do fim, um dado econômico se destaca e promete ecoar para além de sua presidência: a ascensão das exportações do agronegócio. Conforme aponta o Departamento Nacional de Estatísticas (DANE), compilado pelo jornal La República, o setor agropecuário, alimentício e de bebidas viu sua participação nas exportações totais da Colômbia saltar de cerca de 20% em 2022 para aproximadamente 30% em 2025. Este é o maior feito estrutural no comércio exterior do país em mais de uma década.

Paralelamente, a dependência de combustíveis e indústrias extrativistas, que dominavam o cenário, diminuiu drasticamente. Em 2022, este setor representava cerca de 56% do total das exportações. Em 2025, essa fatia caiu para menos de 40%. Essa mudança de composição, consolidada até o início de 2026, coloca o agro como a segunda maior categoria de exportação do país, ultrapassando a importância histórica dos recursos naturais. O legado de Petro, portanto, pode ser definido por este número, que permanecerá mesmo após sua saída em 7 de agosto de 2026.

A pergunta que fica para o próximo governo é se essa tendência se manterá sob novas pressões políticas e econômicas, ou se o setor de petróleo e carvão voltará a ditar o ritmo. O que o futuro reserva, no entanto, é uma Colômbia com uma base de exportação significativamente diferente daquela que a maioria dos investidores estrangeiros conhecia. O agronegócio a 30% se tornou o novo patamar.

O Campo Grande NEWS, ao analisar os dados, confirma a magnitude desta mudança. Em 2025, as exportações totais colombianas atingiram US$ 50,2 bilhões, com o agronegócio respondendo por cerca de um terço desse valor. No último ano da administração anterior, em 2022, as exportações totais somaram aproximadamente US$ 56,9 bilhões, e a participação do setor agro foi de apenas 20%. A queda na participação de combustíveis e extrativismo, de 56% para menos de 40% no mesmo período, ressalta a relevância da ascensão agrícola.

A Força do Café, Banana e Flores

O crescimento do setor agroexportador não é um fenômeno homogêneo, mas sim impulsionado por produtos específicos. O café, símbolo da Colômbia, registrou um aumento de cerca de 83% em suas exportações em setembro de 2025. O óleo de palma também teve um desempenho notável, com um crescimento de 170,9% no mesmo mês. As exportações de banana alcançaram US$ 1,109 bilhão nos primeiros nove meses de 2025.

O açúcar também mostrou força, com um ganho de 60,9% em fevereiro de 2026, enquanto as flores, um dos principais cartões de visita colombianos no mercado americano, continuaram sua trajetória de crescimento. Em abril de 2025, o setor agropecuário chegou a 33,9% das exportações totais, um pico não visto em mais de uma década. Foi um momento em que, pela primeira vez desde 2009, as exportações agrícolas superaram as manufatureiras. Em fevereiro de 2026, a participação se estabilizou em 30,2%, ainda bem acima da média histórica.

Além do aumento em volume, houve uma diversificação geográfica dos destinos. Para além dos tradicionais Estados Unidos e Europa, os produtos agrícolas colombianos agora chegam com força ao Panamá, China, Holanda, Equador, Bélgica, Canadá e Emirados Árabes Unidos. Essa expansão geográfica, combinada com a concentração em categorias de alto valor, fortaleceu a base exportadora do país.

Petro Reivindica, Mas Fatores Externos São Cruciais

O presidente Petro tem buscado associar essa reconfiguração econômica ao seu modelo de gestão. Em novembro de 2025, ele declarou que os dados representavam “o modelo econômico e a articulação com a economia mundial que prometi”. O Ministro da Agricultura, por sua vez, ligou o desempenho do agro ao acesso ao crédito rural e à reforma agrária. Conforme o Campo Grande NEWS checou, no entanto, essa narrativa é apenas parcial.

A queda na participação de combustíveis e extrativistas é, em grande parte, reflexo da queda nos preços internacionais do petróleo e do carvão, além do subinvestimento na capacidade de produção do país. A postura anti-combustíveis fósseis do governo Petro pode ter acelerado essa tendência, mas não a causou. O aumento das exportações agrícolas, por outro lado, é fortemente influenciado por preços globais favoráveis para café e óleo de palma, dinâmicas cambiais e vantagens estruturais que a Colômbia vem construindo há duas décadas.

O que Petro pode reivindicar com mais credibilidade são as iniciativas de expansão do crédito rural e a formalização de terras pela reforma agrária. Até 2025, foram adquiridos 712.205 hectares pela Agência Nacional de Terras, embora apenas 254.103 hectares tenham sido formalmente distribuídos. A relação direta entre esses hectares distribuídos e os números de exportação, contudo, é considerada frouxa pela análise do Campo Grande NEWS.

O Legado a Ser Herdado

Quem assumir a presidência em agosto de 2026 herdará uma composição de exportações sem precedentes recentes. Uma participação de 30% do agronegócio representa um patamar estruturalmente superior ao histórico de 20%. O desafio será manter ou expandir essa fatia, ou se ela voltará a cair.

Três fatores principais ditarão o futuro: a manutenção de preços elevados para café e óleo de palma no mercado global, a capacidade da formalização de terras de se traduzir em capacidade produtiva efetiva, e a escolha política do próximo governo sobre o investimento em petróleo e carvão. Um governo de centro-direita, por exemplo, tenderia a priorizar a recuperação da produção de combustíveis fósseis, o que, por consequência mecânica, reduziria a participação do agro nas exportações totais. Já um governo de esquerda, como o do candidato Iván Cepeda, provavelmente manteria o foco na transição energética. Conforme o Campo Grande NEWS apurou, a decisão sobre a matriz energética será crucial.

Para investidores internacionais, a composição atual das exportações colombianas, com o agronegócio a 30%, é um dado mais relevante do que a volatilidade política imediata. Um país que viu sua base de comércio exterior migrar de 56% de extrativismo para menos de 40% em apenas quatro anos é uma nova Colômbia. O agronegócio a 30% é agora a referência.

A transformação colombiana se alinha a uma tendência regional de expansão das exportações agrícolas na América Latina, embora com magnitude e velocidade próprias. O Brasil tem registrado recordes em seu agronegócio, e o México viu suas exportações não automotivas atingirem máximas em cinco anos. A Argentina, sob a liderança de Milei, reabriu sua janela de exportação de grãos. O tema comum é a substituição da dependência de commodities por bens da economia real.

A Colômbia se destaca pela rapidez e escala da mudança. Ganhar dez pontos percentuais de participação em quatro anos é um feito considerável. A diversificação de produtos, incluindo café, banana, óleo de palma e flores, também a diferencia de concentrações como a do Brasil em soja, minério de ferro e carne, ou a da Argentina em grãos.

O período de 100 dias que antecede o fim do governo Petro será repleto de retrospectivas. Muitas focarão no que não foi alcançado, como a ‘paz total’, a promessa de seis gigawatts na transição energética ou as reformas tributárias. No entanto, o dado de 30% nas exportações do agronegócio se consolidará como um fato estrutural, um ponto de dados econômicos que, ao contrário de muitas promessas políticas, certamente sobreviverá à despedida de sua administração.