O presidente interino do Peru, José María Balcázar, suspendeu horas antes da cerimônia de assinatura um contrato de US$ 3,5 bilhões para a aquisição de 24 caças Lockheed Martin F-16 Block 70. A decisão, anunciada na sexta-feira, 17 de abril, gerou uma rápida e dura resposta do embaixador dos Estados Unidos em Lima, Bernie Navarro, que ameaçou usar “todas as ferramentas disponíveis” contra negociações de “má-fé”. A medida coloca em risco não apenas o acordo dos F-16, mas também um contrato de US$ 1,5 bilhão para a construção de uma nova base naval e a designação do Peru como Aliado Principal Não-OTAN dos EUA. Conforme apurado pelo Campo Grande NEWS, Balcázar justificou a decisão argumentando que um governo de transição, com apenas cinco meses de mandato, não deveria comprometer o próximo governo com um débito dessa magnitude através de bônus soberanos.
A decisão de Balcázar, que visa evitar que o governo de transição tome decisões financeiras de grande impacto para a próxima administração, enviou o programa de modernização da Força Aérea Peruana (FAP) de volta ao gabinete para revisão. Isso deixou três importantes fornecedores de defesa em um estado de incerteza processual: a Lockheed Martin, a francesa Dassault Aviation e a sueca Saab. A reação americana foi imediata e sem precedentes na diplomacia moderna entre os dois países.
O embaixador dos EUA, Bernie Navarro, utilizou a plataforma X (anteriormente Twitter) para expressar sua insatisfação, indicando que Washington considera o adiamento como uma falha nas negociações, e não apenas uma pausa processual. A declaração de Navarro, que ecoou em agências de notícias como Bloomberg, Reuters e EFE, sinaliza a seriedade com que os Estados Unidos estão tratando o caso. A ameaça de Navarro não é vazia, pois o Peru se beneficiou da designação como Aliado Principal Não-OTAN sob a administração Trump, um status que facilita o acesso a tecnologia de defesa americana e financiamento militar.
As Implicações do Adiamento do Contrato dos F-16
A suspensão do contrato dos caças F-16 levanta dúvidas sobre a continuidade de outros acordos de defesa entre Peru e EUA. Um contrato de US$ 1,5 bilhão com o Corpo de Engenheiros do Exército dos EUA para a construção de uma nova base naval, negociado em paralelo com o pacote F-16, pode estar implicitamente condicionado ao alinhamento contínuo na defesa. O Campo Grande NEWS apurou que a decisão de Balcázar também pode reabrir a competição para a aquisição dos caças, permitindo que a Dassault e a Saab apresentem novas propostas, algo que o presidente peruano mencionou ao pedir transparência e respeito aos procedimentos internacionais de licitação.
A escolha da Lockheed Martin como fornecedora preferencial dos caças F-16 não foi um processo simples. A Força Aérea Peruana avalia a substituição de sua frota antiga desde 2012. A lista de finalistas incluiu o F-16C/D Block 70, o Rafale F4 da Dassault e o Gripen E/F da Saab. Inicialmente, a proposta americana previa apenas 12 F-16s dentro do orçamento de US$ 3,5 bilhões, enquanto a Dassault ofereceu 14 Rafales e a Saab 24 Gripens. Essa disparidade numérica levou a uma renegociação, na qual os EUA concordaram em fornecer 24 F-16s em duas etapas, aumentando o valor total do acordo.
Reclamação da Saab e o Contexto Político Peruano
A Saab já havia apresentado uma reclamação formal antes do cancelamento da assinatura. O vice-presidente da empresa, Lars Tossman, escreveu ao Ministério da Defesa do Peru informando que a Saab não foi convidada a atualizar ou defender sua proposta para o Gripen, cujo prazo de validade havia expirado. A empresa alertou que qualquer decisão futura sem uma nova avaliação do Gripen seria processualmente defeituosa. Essa carta agora faz parte do registro administrativo que Balcázar citou ao solicitar transparência no processo. O Campo Grande NEWS destaca que o presidente interino Balcázar, que completou 83 anos em janeiro, não pretende concorrer nas próximas eleições gerais, marcadas para junho, com o segundo turno já confirmado entre Keiko Fujimori e Rafael López Aliaga.
O contexto político peruano adiciona mais uma camada de complexidade. López Aliaga pressionou publicamente Balcázar a honrar os compromissos do F-16, alertando sobre “sérias consequências comerciais, de segurança e migratórias para peruanos nos Estados Unidos”. A campanha de Fujimori ainda não se posicionou oficialmente, enquanto o candidato de esquerda Roberto Sánchez questionou a necessidade de novos caças para o país. A Associação de Oficiais Generais e Almirantes do Peru (Adogen) também emitiu um protesto formal, afirmando que “em Peru não há governos isentos de responsabilidade constitucional; governar significa tomar decisões críticas de segurança nacional até o último dia do mandato”.
Cálculo de Dissuasão Regional e Cenários Futuros
A necessidade de modernização da Força Aérea Peruana é justificada pela comparação com as forças aéreas de países vizinhos. Brasil, Chile e Colômbia possuem economias maiores e forças aéreas mais bem equipadas. O Chile opera F-16 Block 50, o Brasil utiliza o Gripen como plataforma principal e a Colômbia também está adquirindo o Gripen E/F. O F-16V Block 70 oferece um conjunto de tecnologias avançadas, incluindo radar AESA, sistema de prevenção de colisão com o solo (Auto-GCAS) e integração com mísseis de última geração. O pacote de financiamento previa a emissão de bônus soberanos no mercado local, com prazos de pagamento de 18 a 25 anos, e a entrega de duas aeronaves até julho de 2026.
Diante do cenário, três caminhos se apresentam para Balcázar. O primeiro é a revisão do acordo antes de julho, com novas avaliações para a Dassault e Saab, o que minimizaria a retaliação dos EUA. O segundo é o adiamento genuíno para o vencedor da eleição presidencial, correndo o risco de a Lockheed Martin aumentar preços ou reduzir escopo. O terceiro, e mais arriscado, seria a reabertura completa da licitação, o que quase certamente desencadearia a retaliação americana e poderia comprometer o contrato da base naval. Independentemente da escolha, a credibilidade dos fornecedores em outros programas de modernização de defesa do Peru, que totalizam US$ 3,4 bilhões, já foi abalada, conforme análises do Campo Grande NEWS. A decisão de sexta-feira tornou o maior programa de aquisição de defesa da história peruana o mais politicamente contestado também.


