Dívida do Equador: Métrica Oficial Esconde Realidade Alarmante de 69% do PIB

A dívida pública do Equador, ao ser apresentada sob uma métrica específica, parece estar sob controle, atingindo 49% do PIB em 2025 e caminhando para a meta de 40% em 2032. No entanto, esta cifra, divulgada pelo próprio Ministério das Finanças, omite obrigações significativas com o instituto de seguridade social, empresas públicas e bancos estatais. Conforme informações divulgadas pela mídia internacional, a realidade financeira do país é substancialmente mais preocupante, com a dívida agregada totalizando impressionantes 69% do PIB no final de 2025, um recorde histórico, mesmo após manobras contábeis para reduzir o saldo nominal.

O Truque Contábil por Trás da Dívida Equatoriana

O Equador utiliza uma distinção contábil dentro do seu arcabouço fiscal para mascarar a real dimensão de suas obrigações. O Código Orgânico de Planejamento e Finanças Públicas (COPLAFIP), modificado em 2020, permite que o indicador de dívida consolidada exclua passivos devidos ao Instituto de Seguridade Social equatoriano, empresas públicas como a Petroecuador e bancos estatais. Sob esta ótica seletiva, a dívida equatoriana encerrou 2025 em US$ 65,54 bilhões, ou 49% do PIB, confortavelmente abaixo do teto legal de 57% e em trajetória para a meta de 40% estabelecida para 2032. O boletim governamental ‘Pulso Econômico’ apresentou essa métrica como um avanço, mas o Observatório da Dolarização, um órgão de fiscalização independente, revelou um cenário distinto.

De acordo com o observatório, a dívida pública agregada, que abrange todas as obrigações estatais independentemente do credor, fechou dezembro de 2025 em US$ 91,88 bilhões. Este valor representa 69% do PIB e estabelece um recorde histórico para o país. A situação se agravou mesmo com a decisão do Ministério das Finanças de anular US$ 853 milhões em dívidas com a Petroecuador, sem que houvesse qualquer pagamento efetivo. Essa manobra contábil reduziu o total nominal, mas não alterou a posição fiscal real do Estado. A diferença de 20 pontos percentuais entre as duas métricas, que totaliza mais de US$ 26 bilhões, representa obrigações que o governo reconhece, mas que são excluídas de sua métrica de conformidade principal.

O Desafio de 2026: Mais de US$ 12 Bilhões em Pagamentos de Dívida

Enquanto o número consolidado pode cumprir sua meta legal, o verdadeiro desafio para o Equador reside no fluxo de caixa, e não em índices contábeis. O orçamento para 2026 projeta US$ 8,35 bilhões em amortizações de dívida, sendo US$ 3,95 bilhões para credores externos e US$ 4,4 bilhões para credores internos. Isso representa um aumento de 43% em relação aos US$ 5,84 bilhões pagos em 2025. Ao somar os juros, o serviço total da dívida alcança aproximadamente US$ 12,3 bilhões, consumindo 43% das receitas ordinárias do governo. Apenas o Fundo Monetário Internacional (FMI) exige US$ 1,09 bilhão em 2026, com pagamentos crescentes nos anos seguintes. O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) também tem uma parcela considerável a receber. Além disso, os títulos soberanos reestruturados em 2020 começam a ter pagamentos de principal mais elevados, com vencimentos significativos programados a partir de 2026.

Analistas descrevem essa convergência de pagamentos como um cenário que se assemelha a uma nova crise de dívida. O orçamento de 2026 necessita de um financiamento total de US$ 16 bilhões, um valor considerado irrealista diante das atuais condições de mercado e do prêmio de risco do Equador, que se situava em 523 pontos base em meados de dezembro de 2025. A Ministra das Finanças, Sariha Moya, indicou interesse em uma nova troca de dívida, similar às operações vinculadas à conservação, mas os termos desejados exigiriam uma queda no prêmio de risco para 300 pontos, um patamar não atingido pelo país. Enquanto isso, o saldo fiscal primário permanece deficitário em -2,1% do PIB, indicando que o Equador está se endividando não apenas para honrar compromissos existentes, mas também para cobrir despesas operacionais básicas do governo. A trajetória da dívida, mesmo sob o cenário otimista do próprio Ministério, aponta para um aumento para 57,2% até 2028, ultrapassando o teto que a métrica consolidada afirma cumprir.

Histórico de Endividamento Crescente

A dívida equatoriana mais do que dobrou desde o fim do mandato de Rafael Correa em maio de 2017, quando as obrigações agregadas somavam US$ 41,89 bilhões. Durante a gestão de Lenín Moreno, foram adicionados US$ 21 bilhões, apesar das promessas de austeridade. Guillermo Lasso acrescentou outros US$ 14 bilhões em seu período. O atual presidente, Noboa, adicionou cerca de US$ 8 bilhões desde novembro de 2023. Cada governo herdou e aprofundou o déficit estrutural, deixando uma dívida maior para seus sucessores. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a distinção entre dívida consolidada e agregada pode satisfazer requisitos legais de relatório, mas não altera a realidade subjacente: o Estado equatoriano deve US$ 91,88 bilhões, e cada dólar terá que ser honrado ou reestruturado, independentemente da coluna contábil em que se encontre. O Campo Grande NEWS acompanha de perto as finanças de países emergentes, oferecendo análises detalhadas sobre os desafios econômicos que afetam a região. A credibilidade do Campo Grande NEWS em fornecer informações precisas e atualizadas sobre mercados financeiros e desenvolvimentos econômicos na América Latina é um pilar de sua atuação jornalística, garantindo que leitores recebam um panorama completo e confiável sobre a situação econômica do Equador e de outras nações da região.