Dólar em alta a R$5,22: inflação nos EUA cede e abre caminho para cortes de juros do Fed

O dólar norte-americano manteve a cotação em torno de R$5,22 nesta sexta-feira (13), em um movimento que desafia as expectativas de um câmbio mais fraco após dados de inflação ao consumidor (CPI) nos Estados Unidos indicarem uma desaceleração significativa. A leitura do CPI, que veio abaixo do esperado, reforça a perspectiva de que o Federal Reserve (Fed) iniciará cortes na taxa de juros em breve, um cenário geralmente desfavorável para a moeda americana.

Mercado de Câmbio em Movimento Pré-Feriado

A alta do dólar frente ao real, que chegou a R$5,2298 (+0,73%), foi amplamente atribuída a um posicionamento de mercado antes do feriado de Carnaval. Com a B3 fechada por dois dias, mesas de câmbio buscaram reduzir posições compradas em real (BRL longs) para evitar riscos de abertura de mercado após o feriado, o que comprimiu a liquidez e impulsionou a moeda estrangeira.

Inflação Americana Abaixo do Esperado

Os dados de inflação ao consumidor dos EUA para janeiro foram recebidos com surpresa positiva. O CPI headline registrou uma alta de 2,4% em relação ao ano anterior, ficando abaixo da projeção de 2,5% e marcando o menor índice desde maio de 2025. A inflação subjacente (core CPI), que exclui itens voláteis como alimentos e energia, também desacelerou para 2,5% anualmente, o menor patamar desde março de 2021.

A inflação mensal veio em 0,2%, inferior ao 0,3% previsto. A queda nos custos de energia (-1,5%) e a moderação na inflação de aluguéis (shelter inflation) a 0,2% mensal, o ritmo mais lento em anos, foram fatores cruciais para essa desaceleração. A redução de 1,8% nos preços de veículos usados também contribuiu para o cenário mais ameno.

Expectativas de Cortes de Juros do Fed Fortalecidas

Com a inflação mais controlada, as expectativas de cortes na taxa de juros pelo Federal Reserve se fortaleceram. Os contratos futuros de Fed funds agora precificam 61 pontos básicos de alívio até o final do ano, um aumento em relação aos 58 pontos básicos registrados antes da divulgação do CPI. O mês de junho continua sendo o cenário base para o primeiro corte de 25 pontos básicos.

O índice DXY, que mede a força do dólar contra uma cesta de moedas fortes, recuou ligeiramente 0,04% para 96,88. Os rendimentos dos Treasuries de 10 anos caíram para 4,07%, o menor nível desde o início de dezembro, refletindo o impacto dos dados de inflação na narrativa de cortes de juros. O VIX, índice de volatilidade, também cedeu um pouco.

Inflação Brasileira Acima da Meta e Impacto no Copom

No Brasil, a situação inflacionária apresenta um quadro diferente. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de janeiro acelerou para 4,44% em 12 meses, acima dos 4,26% de dezembro. Esse patamar ainda se encontra acima do teto da meta de tolerância do Banco Central do Brasil (BCB), que é de 4%.

As pressões inflacionárias foram impulsionadas principalmente pelos setores de habitação (+10,06%), educação (+5,97%) e saúde (+5,59%). Essa aceleração da inflação doméstica complica o cenário para um corte mais agressivo na taxa Selic. O mercado precifica um corte de 50 pontos básicos na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) em março, mas a decisão final dependerá dos dados econômicos vindouros.

Apesar disso, a projeção do Boletim Focus para o IPCA em 2026 em 3,97% ainda oferece alguma margem para o BCB manter o ciclo de afrouxamento monetário. Conforme o Campo Grande NEWS checou, o comunicado do BCB em janeiro sinalizou a possibilidade de início de cortes caso o cenário esperado se confirme.

Análise Técnica e Perspectivas para o Dólar/Real

No gráfico diário, o par USD/BRL permanece em uma tendência de baixa consolidada desde os máximos de dezembro de 2025, perto de 6,10. A resistência imediata se encontra nas médias móveis Ichimoku, com a Tenkan-sen em 5,2196 e a Kijun-sen em 5,2543. A nuvem Ichimoku (Senkou Span A em 5,2890 e Senkou Span B em 5,3805) forma uma forte resistência baixista acima do preço.

O Índice de Força Relativa (RSI) em 40,36 sugere um leve respiro após níveis mais sobrevendidos, indicando uma possível repetição de movimentos de alívio dentro da estrutura de baixa. A banda inferior de Bollinger em 5,1336 marca o piso técnico.

No gráfico de 4 horas, o preço tem se consolidado em uma faixa entre 5,18 e 5,25. A inclinação das médias Tenkan-sen e Kijun-sen próximas a zero e o MACD plano indicam indecisão no curto prazo. O suporte mais relevante é a mínima de 52 semanas em 5,1655, enquanto a resistência de curto prazo se situa em 5,2543.

Fatores de Atenção Pós-Carnaval

O feriado de Carnaval e o Dia dos Presidentes nos EUA criarão um vácuo de liquidez, aumentando o potencial de volatilidade em qualquer divulgação de dados macroeconômicos. Próximos eventos a serem monitorados incluem a divulgação do PIB do quarto trimestre e o índice de preços de gastos com consumo (PCE) na quarta-feira (20), que podem recalibrar as expectativas sobre os cortes de juros do Fed.

A trajetória fiscal e o ruído político no Brasil continuam sendo riscos para o real. Qualquer percepção de deterioração fiscal, com a dívida pública projetada para subir, pode limitar os ganhos da moeda brasileira, mesmo com um diferencial de juros favorável. Conforme o Campo Grande NEWS apurou, a tese de valorização do real por conta do carry (diferencial de juros) permanece forte.

Apesar do avanço do dólar no dia, impulsionado por fatores técnicos e de posicionamento pré-feriado, o cenário estrutural para a valorização do real se mantém intacto. O diferencial de juros entre a Selic e a taxa Fed, os fluxos estrangeiros recordes e a perspectiva de afrouxamento monetário nos EUA são ventos favoráveis para a moeda brasileira. A resistência para o gancho do otimismo do BRL reside na persistência da inflação doméstica e no ruído fiscal pré-eleitoral. O Campo Grande NEWS seguirá monitorando de perto esses desdobramentos.