América Latina: Eleições, Cúpula e Mercado em Alinhamento Político Raro

A América Latina inicia fevereiro de 2026 com um cenário político e econômico intrincado e repleto de catalisadores. Uma rara convergência de eventos importantes, desde eleições presidenciais com resultados expressivos até cúpulas diplomáticas de alto risco e o desempenho robusto dos mercados financeiros, marca o início do mês. A região, conforme apurado pelo Campo Grande NEWS, navega por uma onda de otimismo cauteloso, mas com instituições sendo testadas simultaneamente em diversos países.

Semana de Virada na América Latina: Eleições, Diplomacia e Mercado em Destaque

O início de fevereiro de 2026 traz uma série de eventos cruciais para a América Latina. A Costa Rica elegeu sua nova presidente em primeiro turno, o Chile formalizou sua candidatura a um cargo importante na ONU com apoio regional, o presidente da Colômbia se encontra com autoridades em Washington em meio a expectativas de volatilidade, e a Argentina lida com uma crise na liderança de seu órgão de estatísticas às vésperas da divulgação de dados de inflação. O Ibovespa atingiu máximas de sete anos em janeiro, mas a variável chave da semana é o risco político, conforme análise detalhada pelo Campo Grande NEWS.

Brasil: Lula Busca Virada “Anti-establishment” e Mercado em Alta

No Brasil, o presidente Lula estaria considerando uma mudança em sua estratégia de campanha para a reeleição em 2026. O foco pode migrar de um discurso de “reconstrução do Brasil” para uma abordagem mais “anti-establishment”, com o objetivo de mirar as elites financeiras. Essa tática, conforme apurado pelo Campo Grande NEWS, espelha retóricas anteriormente associadas a Jair Bolsonaro. Enquanto isso, o mercado financeiro demonstra força: o Ibovespa subiu 0,5% e se aproximou dos 182.000 pontos, com projeções otimistas para o fim do ano, impulsionado por um forte rali em janeiro. No entanto, o índice de gerentes de compras (PMI) da indústria em janeiro caiu para 47,0, indicando as condições industriais mais fracas dos últimos quatro meses.

Essa mudança de estratégia na campanha presidencial sugere que a equipe de Lula vê o enquadramento populista como essencial para se defender de uma direita em ascensão. Para os investidores, isso pode introduzir incerteza política. Contudo, as dinâmicas de mercado de curto prazo permanecem favoráveis, com um dólar mais fraco, força nas commodities e posicionamento institucional de qualidade tornando o Brasil um beneficiário da rotação de ativos globais para longe dos Estados Unidos. A semana será crucial para testar os fundamentos do rali com a divulgação dos resultados do quarto trimestre de grandes bancos como Itaú e Santander Brasil.

México: Tensão com Cuba e Pressão dos EUA Moldam Relações

O México enfrenta um delicado momento em sua relação com os Estados Unidos. A presidente Claudia Sheinbaum anunciou o envio de suprimentos para Cuba, mas adiou o envio de petróleo devido a ameaças de tarifas por parte de Donald Trump. O país busca todos os canais diplomáticos para solucionar o impasse. Paralelamente, a política interna vê uma mudança na liderança do Senado do partido Morena, com Adán Augusto López se afastando, em meio a controvérsias envolvendo seu ex-chefe de segurança. A transferência de suspeitos de cartéis para os EUA, sem extradição formal, também gera polêmica, sendo vista como concessão a Washington.

Esses eventos demonstram a complexa navegação de Sheinbaum entre a soberania nacional e as demandas americanas. A questão cubana exemplifica o dilema entre instintos humanitários e ameaças econômicas, com o petróleo tornando-se um ponto de atrito simbólico. A resposta de Washington ao pacote humanitário não petrolífero do México será um ponto chave, com potencial para impactar as negociações do acordo comercial USMCA.

Argentina: Crise no INDEC e Dados de Inflação Sob Olhos

A Argentina vive uma crise na liderança do Instituto Nacional de Estadística y Censos (INDEC), com a renúncia de seu presidente, Marco Lavagna. A divergência girou em torno da implementação imediata de uma nova metodologia para o cálculo da inflação, que o governo de Javier Milei preferia adiar até a consolidação da desinflação. O novo diretor interino assume em um momento crítico, com a metodologia de cálculo da inflação sendo adiada, o que pode gerar desconfiança. O Ministro da Economia, Luis Caputo, projeta uma inflação mensal em torno de 2,5% para janeiro, mas a credibilidade dos dados será testada.

O governo tem reiterado que não há planos de emitir títulos no mercado internacional para cobrir vencimentos, preferindo financiamento interno e venda de ativos, mesmo com o risco país em mínimas de sete anos. Esse episódio no INDEC expõe a sensibilidade política dos dados de inflação, um dos principais trunfos do governo Milei. A equipe teme acusações de manipulação, que assombraram administrações anteriores. Para os mercados, a relutância em emitir dívida externa, apesar das condições favoráveis, sinaliza disciplina fiscal, mas levanta questões sobre a flexibilidade de refinanciamento de dívidas futuras.

Colômbia: Cúpula Petro-Trump em Washington e Repercussões

O presidente colombiano Gustavo Petro desembarcou em Washington para um encontro crucial com Donald Trump, o primeiro entre os dois líderes. A delegação colombiana inclui altos funcionários de diversas áreas, e a reunião é facilitada por uma firma de lobby americana. A relação entre os dois líderes tem sido marcada por declarações fortes e divergências profundas, especialmente na estratégia de combate ao narcotráfico, onde os EUA priorizam a erradicação aérea e a Colômbia prefere a interdição e o desenvolvimento alternativo.

Apesar das tensões, ambos os governos têm incentivos para cooperar em questões como Venezuela e crime transnacional. A retomada dos voos de deportação de cidadãos colombianos pelos EUA, após um período de impasse, sinaliza um degelo nas relações. A cúpula em Washington pode estabilizar a aliança ou gerar uma confrontação, com potencial para impactar a política regional. Qualquer anúncio conjunto sobre guerrilhas do ELN ou cooperação antidrogas será crucial para definir o futuro da relação bilateral.

Chile: Bachelet Formaliza Candidatura à ONU com Apoio Regional

O presidente chileno Gabriel Boric formalizou a candidatura de Michelle Bachelet ao cargo de Secretária-Geral da ONU. A nomeação conta com o apoio conjunto do México e do Brasil, as maiores economias da região. O bloco latino-americano e caribenho argumenta que é a vez da região liderar a organização, após oito décadas de história. O presidente eleito, José Antonio Kast, que assume em breve, manteve uma postura de silêncio quanto à candidatura, gerando especulações sobre o futuro apoio a Bachelet.

Boric busca consolidar o apoio à candidatura antes da posse de Kast. O histórico de Bachelet, com críticas a políticas de imigração de Trump, pode gerar atritos com Washington. No entanto, a mobilização coordenada da América Latina demonstra a seriedade da empreitada, e Bachelet possui credenciais regionais e internacionais incomparáveis. A disputa também inclui outros candidatos latino-americanos, como Rafael Grossi, da Argentina. A posição de Kast após sua posse será um ponto chave a ser observado.

Costa Rica: Eleição Presidencial Define Rumo Conservador

Laura Fernández, do Partido Povo Soberano (PPSO), venceu as eleições presidenciais da Costa Rica em primeiro turno com 48,9% dos votos, superando o limiar necessário para evitar um segundo turno. O PPSO também garantiu maioria na Assembleia Legislativa, o que permitirá a aprovação da maioria das leis. O resultado marca uma guinada conservadora no país, com Fernández, de 39 anos, prometendo a conclusão de um mega presídio inspirado no modelo de El Salvador, além de prisão obrigatória e sentenças mais rigorosas. A segurança foi a principal preocupação dos eleitores, após recordes de homicídios em 2023.

Essa eleição é considerada a mais consequente da Costa Rica no século XXI e sinaliza uma possível adesão ao modelo de segurança implementado em outros países da região. A reação dos Estados Unidos, com o Secretário de Estado Marco Rubio parabenizando Fernández e mencionando prioridades compartilhadas como o combate ao narcotráfico e à imigração ilegal, reforça essa tendência. A nomeação de Chaves para o gabinete e os cronogramas de construção do presídio serão pontos cruciais a serem acompanhados.

Mercados Latinos em Destaque em 2026

Cinco mercados latino-americanos figuram entre os dez de melhor desempenho global em bolsa desde meados de outubro de 2025. O Chile lidera o ranking mundial com uma valorização de 36,6% em três meses, impulsionado pela exposição ao cobre e pela fraqueza do dólar. O acordo UE-Mercosul também adiciona um impulso estrutural positivo.

Agenda da Semana

  • 3 de fevereiro: Petro chega a Washington – Tentativa de redefinição da relação EUA-Colômbia.
  • 4 de fevereiro: Divulgação de resultados de Itaú e Santander Brasil – Teste para o mercado brasileiro.
  • 4 de fevereiro: Reunião Petro-Trump na Casa Branca – Potencial de alta volatilidade.
  • 4 de fevereiro: Ata do Copom (Banco Central do Brasil) – Sinalização da política monetária.
  • ~10 de fevereiro: CPI de janeiro na Argentina – Primeira leitura de inflação sob nova liderança do INDEC.
  • Março: Posse de Kast no Chile – Futuro da candidatura de Bachelet à ONU em jogo.