A economia do Chile fechou o ano de 2025 com um desempenho surpreendente, superando as expectativas do mercado e apresentando um crescimento robusto. No entanto, por trás dos números positivos, as fragilidades estruturais do setor de mineração e as preocupações fiscais lançam uma sombra sobre a transição de poder para o presidente eleito, José Antonio Kast. A capacidade do novo governo em navegar por esses desafios será crucial para o futuro econômico do país.
Chile: Crescimento acima do esperado, mas com ressalvas
O Chile encerrou 2025 com uma notícia animadora para o governo de Gabriel Boric. O Banco Central divulgou que o Índice Mensual de Atividade Econômico (Imacec), que abrange cerca de 90% do PIB, registrou uma alta de **1,7% em dezembro** em comparação com o ano anterior. Essa cifra superou significativamente as projeções de analistas, que esperavam um crescimento modesto de 0,9%.
Esse resultado impulsiona a estimativa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) para 2025 em **2,3%**, conforme anunciado pelo Ministro das Finanças, Nicolás Grau. O dado oficial será divulgado em 18 de março. O desempenho positivo foi impulsionado principalmente pelo setor de comércio, com um avanço de 6,6%, e pelos serviços, que cresceram 2,2%, com destaque para a área de saúde.
Ao analisar os dados, fica evidente que a economia chilena apresentou um quadro mais favorável quando o setor de mineração é excluído. O Imacec não-mineração expandiu-se em **3,0%**, impulsionado pelas vendas de veículos, varejo online, atacado de alimentos e produção agroflorestal. Essa diversificação aponta para setores resilientes na economia chilena.
A fragilidade do cobre: O calcanhar de Aquiles chileno
Contudo, o cobre, principal produto de exportação do Chile e vital para sua economia, apresentou um cenário preocupante. Em dezembro, a **produção de mineração caiu 8,1%**, marcando um ano difícil para o setor. O colapso na mina El Teniente da Codelco em 31 de julho, que resultou na morte de seis trabalhadores e na paralisação de quatro setores produtivos, teve um impacto estimado de 33.000 a 48.000 toneladas a menos na produção.
No acumulado do ano, a produção de cobre nas minas chilenas apresentou uma queda de **1,3% até novembro**, totalizando 4,87 milhões de toneladas. Essa redução ocorre mesmo com os preços do metal atingindo recordes acima de US$ 5,12 por libra, impulsionados pela demanda crescente por veículos elétricos e infraestrutura de inteligência artificial. A dependência do Chile do cobre, que representa 59% de suas exportações, torna essa queda um ponto de atenção.
Contas fiscais: Dívida estabilizada, mas déficit em alta
No front fiscal, os números também apresentaram um quadro misto. O Ministro Grau informou que a **dívida pública se manteve estável em 41,7% do PIB**, marcando o primeiro ano sem aumento desde 2007. Essa estabilização representa um alívio para as finanças públicas chilenas, encerrando uma sequência de 18 anos de crescimento da dívida.
Por outro lado, o **déficit fiscal atingiu 2,8% do PIB**, ultrapassando a meta de 2,0% estabelecida para 2025. Atingir essa meta se tornou um desafio, especialmente após uma queda de **31,7% nas receitas de impostos corporativos** das onze maiores empresas do país nos últimos meses do ano. O governo já anunciou um corte de US$ 800 milhões em despesas e a criação de uma comissão de especialistas para investigar a origem dessa queda na arrecadação.
A herança para Kast: Desafios e promessas de austeridade
José Antonio Kast, que assumirá a presidência em 11 de março, herda uma economia com crescimento moderado e desafios fiscais que exigirão atenção imediata. Ele venceu a eleição presidencial com 58,2% dos votos, prometendo priorizar o crescimento econômico, a segurança e a imigração.
Kast já sinalizou a intenção de implementar um plano de **cortes de gastos no valor de US$ 6 bilhões**. No entanto, detalhes sobre onde esses cortes serão aplicados ainda são escassos, o que gera expectativas e apreensões no mercado e na sociedade. O ministro das Finanças de seu governo, Jorge Quiroz, já indicou que os cortes podem levar mais tempo do que os 18 meses inicialmente previstos.
O governo Boric, por sua vez, defende os resultados alcançados, destacando a **redução da inflação** de um pico de 14,1% para 3,4%, a estabilização da dívida e o aumento dos salários reais. Grau afirmou que entregará a Kast uma economia “normalizada em condições de continuar crescendo”.
A oposição, no entanto, contesta essa visão. Instituições conservadoras, como o think tank Libertad y Desarrollo, apontam que o crescimento chileno tem ficado abaixo da média mundial por três anos consecutivos. A senadora Ximena Rincón alertou que o país “não está normalizado”, citando uma taxa de desemprego de 8,4% e uma informalidade persistente de 26,2%. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a OCDE projeta um crescimento de 2,2% para 2026, mas alerta para os ventos contrários da política comercial dos EUA.
As tarifas americanas sobre produtos de cobre semimanufaturados, que entraram em vigor em agosto, e a possibilidade de uma guerra comercial prolongada entre EUA e China, que poderia deprimir a demanda global pelo metal, são preocupações adicionais. A capacidade de Kast em construir coalizões em um parlamento fragmentado, um desafio que seu antecessor enfrentou, será fundamental para a implementação de suas políticas. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a experiência de governos anteriores mostra a dificuldade em aprovar reformas sem maioria legislativa.
O cenário econômico chileno, portanto, apresenta um paradoxo: um fechamento de ano positivo em termos de crescimento, mas com bases que exigirão atenção e reformas estruturais. O Campo Grande NEWS continuará acompanhando de perto os desdobramentos dessa transição e os impactos das políticas de Kast na economia do país.


