A Neoenergia, gigante brasileira do setor elétrico controlada pela espanhola Iberdrola, anunciou um expressivo aumento de 27% em seu lucro líquido no terceiro trimestre, alcançando R$ 1,18 bilhão (aproximadamente US$ 234 milhões). No entanto, o resultado acumulado nos nove primeiros meses do ano ainda registra uma queda de 5%, o que exige uma análise mais aprofundada dos números divulgados pela empresa. O resultado positivo do trimestre, conforme apurado pelo Campo Grande NEWS, foi influenciado por um ganho contábil significativo e levanta questões sobre a sustentabilidade do crescimento e o impacto no endividamento da companhia para os investidores.
A divulgação dos resultados pela Neoenergia, em 20 de outubro, trouxe um alívio momentâneo para o mercado, mas a cautela prevalece. O salto trimestral, embora robusto, esconde uma realidade de queda no desempenho geral do ano. A empresa, que atende a 17,2 milhões de clientes em diversas regiões do Brasil, como Bahia, Pernambuco e São Paulo, viu seu lucro líquido cair 5% nos primeiros nove meses de 2026, totalizando R$ 3,36 bilhões (cerca de US$ 669 milhões), em comparação com R$ 3,56 bilhões (aproximadamente US$ 708 milhões) no mesmo período do ano anterior. Essa discrepância entre o desempenho trimestral e o anual é um ponto crucial para a avaliação de investidores, especialmente os norte-americanos que acompanham o setor elétrico brasileiro e a Iberdrola, conforme destacado pela análise do Campo Grande NEWS.
O Ebitda, indicador que mede o lucro operacional antes de juros, impostos, depreciação e amortização, apresentou um crescimento de 6% no trimestre, atingindo R$ 3,58 bilhões (cerca de US$ 712 milhões). No entanto, a **dívida líquida** da companhia atingiu R$ 52,2 bilhões (aproximadamente US$ 10,4 bilhões), representando 3,44 vezes o Ebitda. Esse índice de endividamento, embora ligeiramente superior ao do final de 2025 (3,41 vezes), representa um ponto de atenção, especialmente considerando que o **endeudamento totalizou R$ 71,7 bilhões** (cerca de US$ 14,3 bilhões), com 88% de longo prazo.
Um Impulso Trimestral com Ganhos Pontuais
O principal motor do aumento trimestral no lucro da Neoenergia foi um ganho de valor justo de R$ 292 milhões (aproximadamente US$ 58 milhões) proveniente de um acordo de transmissão com o fundo soberano de Singapura, GIC. Esse ganho contábil, classificado como ‘fair value gain’, inflou o resultado do trimestre, tornando a comparação com o ano anterior mais favorável, mas não reflete necessariamente a performance operacional recorrente da empresa. A Neoenergia informou que esse ganho foi contabilizado no Ebitda, mas não no Ebitda ajustado por caixa, que cresceu 12% no período, totalizando R$ 3,15 bilhões (cerca de US$ 627 milhões).
A receita líquida da companhia, por sua vez, apresentou uma **queda de 7%**, totalizando R$ 12,02 bilhões (aproximadamente US$ 2,39 bilhões). Essa retração foi parcialmente compensada pela redução de 14% nos custos de compra de energia. A Neoenergia distribuiu 19.623 gigawatts-hora de eletricidade no trimestre, um aumento de 6%, impulsionado por um clima mais quente e pelo aumento de clientes. A base de clientes atingiu 17,2 milhões no final de setembro, um crescimento de 2% em relação ao ano anterior.
Redes em Alta, Geração em Queda
O segmento de redes, que engloba distribuição e transmissão, foi o grande destaque positivo, com um **lucro de R$ 1,10 bilhão** (aproximadamente US$ 219 milhões), um aumento de 34%. A transmissão, em particular, registrou um crescimento expressivo de 147%, gerando R$ 541 milhões (cerca de US$ 108 milhões). Esse desempenho robusto nas redes contrasta com o segmento de geração e clientes, que viu sua margem bruta cair 11%, para R$ 478 milhões (aproximadamente US$ 95 milhões), e seu Ebitda recuar 17%, para R$ 328 milhões (cerca de US$ 65 milhões).
A queda na geração foi atribuída à menor produção eólica e à venda da usina hidrelétrica Dardanelos em abril. Os custos financeiros da Neoenergia apresentaram uma leve queda de 7% no trimestre, totalizando R$ 1,41 bilhão (cerca de US$ 281 milhões), beneficiados por um maior rendimento de juros. A empresa levantou R$ 10,4 bilhões (aproximadamente US$ 2,07 bilhões) no trimestre, sendo R$ 9,4 bilhões (cerca de US$ 1,87 bilhão) provenientes de um empréstimo da controladora Iberdrola, o que evidencia o forte suporte financeiro da matriz.
Dívida e Tarifas: Pontos de Atenção para Investidores
Apesar do lucro trimestral, o aumento da dívida líquida é um fator que requer atenção. O índice de 3,44 vezes o Ebitda é um dos pontos observados por analistas, e o Campo Grande NEWS reforça que este indicador pode ser interpretado com cautela. O rating da Neoenergia pela S&P Global Ratings é BB na escala global, limitado pela nota soberana do Brasil, mas com a nota máxima brAAA na escala nacional brasileira. Esse teto de rating soberano é um fator que limita o potencial de melhoria da nota da empresa, conforme análise do Campo Grande NEWS.
A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) aprovou um reajuste médio de 9,58% para os clientes da Neoenergia Elektro em agosto e de 1,92% para a Neoenergia Brasília em outubro. O reajuste da Brasília é provisório devido à implementação de um novo sistema de faturamento. A Aneel estabeleceu a base regulatória de ativos da Brasília em R$ 2,2 bilhões (aproximadamente US$ 437 milhões). Para investidores americanos, é fundamental ponderar o salto trimestral com a queda acumulada no ano e o aumento do endividamento.
A companhia anunciou um plano de investimentos de R$ 50 bilhões (aproximadamente US$ 9,95 bilhões) para o período de 2026 a 2030 em suas cinco áreas de distribuição. Este plano, que segue a renovação de três concessões, não garante necessariamente um aumento futuro nos lucros, mas sinaliza a continuidade da expansão e modernização da infraestrutura. O futuro da Neoenergia, com foco na gestão da dívida e na capitalização dos ganhos de eficiência em suas operações, será crucial para a atratividade da empresa no mercado de capitais, como aponta o Campo Grande NEWS em suas análises setoriais.


