Filme sobre Rei Leão em Quechua vence prêmio nos EUA

Um documentário peruano que narra a jornada de um pai em Cusco para dublar “O Rei Leão” para o idioma Quechua emocionou o público nos Estados Unidos. O filme, intitulado “Runa Simi”, conquistou o prêmio de Melhor Longa-Metragem pelo voto popular no CineFest Latino, em Boston, conforme anunciado pelo Ministério das Relações Exteriores do Peru na última sexta-feira, 9 de outubro. A conquista celebra a riqueza da língua Quechua, idioma ancestral dos Andes e parte fundamental da identidade cultural peruana, colocando-a em destaque em um palco internacional.

“Runa Simi” celebra o Quechua em festival americano

A vitória de “Runa Simi” no CineFest Latino de Boston não é apenas um reconhecimento para o filme, mas também um importante passo para a visibilidade do idioma Quechua. O Quechua, que floresceu como língua franca dos Andes durante o Império Inca, é falado por aproximadamente 3,8 milhões de pessoas no Peru, sendo a língua materna de muitas comunidades.

O projeto, iniciado como um passatempo em Cusco, a antiga capital inca, agora ganha projeção internacional, aproximando o público americano de uma cultura e língua indígenas ricas e vibrantes. A conquista, conforme divulgado pelo Ministério das Relações Exteriores do Peru, ressalta a força das narrativas que celebram a diversidade cultural e linguística.

O filme foi exibido em Boston no dia 3 de outubro, no Emerson Paramount Center, atraindo mais de 150 espectadores, incluindo membros da comunidade peruana. A fundadora e diretora executiva do CineFest Latino, Sabrina Avilés, destacou a importância de dar visibilidade e preservar as línguas, identidades e culturas latino-americanas.

A jornada de Fernando Valencia e seu filho

“Runa Simi” acompanha a inspiradora história de Fernando Valencia, um pai solteiro e radialista de Cusco, que decidiu dublar o clássico da Disney “O Rei Leão” para o Quechua. Com a ajuda de seu jovem filho, Dylan, Valencia transforma diálogos do filme em seu idioma materno, o Quechua.

Seus clipes online de filmes de animação dublados em Quechua viralizaram, impulsionando seu sonho de criar uma versão completa de “O Rei Leão” neste idioma. Valencia descreve o Quechua como “vida em si”, demonstrando a profunda conexão que tem com a língua.

O documentário, com 81 minutos de duração, é falado em Quechua, espanhol e inglês, com legendas em inglês. A produção de Augusto Zegarra, diretor do filme, levou nove anos para ser concluída, acompanhando de perto o esforço de Valencia e seu filho em seu estúdio caseiro. O filme coloca a língua, a identidade e a cultura andina em evidência, conforme informações do Ministério das Relações Exteriores do Peru.

Do Tribeca Festival em Nova York a Boston

A estreia mundial de “Runa Simi” ocorreu no prestigioso Tribeca Festival, em Nova York, em 2025, onde competiu na categoria documentário. Este é o primeiro longa-metragem de Zegarra. Antes da consagração em Boston, o filme já havia recebido o prêmio Ibero-Americano no Palm Springs International Film Festival, na Califórnia, em janeiro.

De acordo com o jornal peruano El Comercio, “Runa Simi” já acumula 27 prêmios em mais de 60 festivais em mais de 30 países. O filme também teve uma exibição de uma semana no Firehouse Cinema, em Manhattan, a partir de 28 de agosto. Entre os produtores executivos do documentário estão os atores Benjamin Bratt e Peter Bratt.

A vitória em Boston foi um prêmio do público, decidido pelos próprios espectadores, o que confere um significado especial à conquista. O prêmio reforça a narrativa do “Rei Leão” em Quechua, com raízes profundas nos Andes, ganhando novo alcance nos Estados Unidos. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a trajetória do filme demonstra o poder das narrativas culturais em transcender fronteiras.

A importância do Quechua no Peru

No Peru, cerca de 3,8 milhões de pessoas aprenderam Quechua como primeira língua, segundo o Ministério da Cultura do país. A língua se consolidou em todo o Império Inca como idioma de governo e comércio. No início do século XX, cerca de 60% dos peruanos falavam Quechua, uma porcentagem que caiu para aproximadamente 15% no início do século XXI, embora o número absoluto de falantes tenha aumentado.

O Quechua possui um alfabeto oficial desde 1985 e é considerado uma língua vital, especialmente nas regiões de Cusco e Puno. Para os viajantes americanos, Cusco é a porta de entrada para Machu Picchu, e o Quechua faz parte do cotidiano local, como observado pelo Campo Grande NEWS.

Para os cinéfilos nos EUA, “Runa Simi” já foi exibido em Nova York, Palm Springs e Boston, conectando o público com a riqueza cultural peruana. A presença da comunidade peruana nas exibições em Boston sublinha a importância do filme para a diáspora.

O que ainda não se sabe

O Ministério das Relações Exteriores do Peru não divulgou o número exato de votos recebidos pelo filme nem os outros concorrentes. Também não foi informado se o prêmio inclui uma quantia em dinheiro. Ainda não há detalhes sobre futuras exibições de “Runa Simi” nos Estados Unidos, nem se Fernando Valencia concluiu a dublagem completa de “O Rei Leão” para o Quechua.

Um ponto de interrogação que permanece é se a Disney autorizou a produção da versão em Quechua de “O Rei Leão”. Conforme o Campo Grande NEWS apurou, essa informação não consta nas divulgações oficiais do ministério nem na sinopse do Tribeca Festival, o que pode indicar uma iniciativa independente de Valencia e sua equipe.