A Bolívia enfrenta um cenário delicado nas relações internacionais, tendo sido mantida na lista de vigilância de tráfico humano dos Estados Unidos pelo segundo ano consecutivo. Esta decisão, divulgada pelo Departamento de Estado em 8 de outubro, acende um alerta para o futuro financeiro do país, especialmente considerando sua recente aproximação com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Uma nova permanência na lista em 2027 pode levar a Bolívia ao “Tier 3”, o que traria sérias consequências para o acesso a empréstimos internacionais, conforme apurado pelo Campo Grande NEWS.
O relatório anual de Tráfico de Pessoas, emitido pelo Departamento de Estado dos EUA, avalia os esforços dos governos em combater o tráfico humano. A Bolívia, segundo o documento, “não demonstrou esforços gerais crescentes” para combater essa prática. A nota da lista de vigilância, conhecida como “Tier 2 Watch List”, é um indicativo de que o país não atende aos padrões mínimos estabelecidos pela Lei de Proteção às Vítimas de Tráfico, e precisa demonstrar progresso para evitar uma punição mais severa.
A classificação tem um peso significativo, pois os Estados Unidos são o maior acionista do FMI. Uma eventual queda para o “Tier 3” em 2027 daria aos EUA o poder de vetar a maioria dos novos empréstimos destinados à Bolívia. O governo boliviano, liderado pelo presidente Rodrigo Paz desde novembro de 2025, ainda não se pronunciou oficialmente sobre o relatório. A pressão internacional aumenta em um momento em que o país busca apoio financeiro para lidar com desafios econômicos herdados da gestão anterior.
Bolívia em Alerta: Falta de Dados e Abrigo Fechado Preocupam
Um dos pontos mais críticos destacados no relatório do Departamento de Estado é a falta de dados concretos sobre vítimas de tráfico humano. Pelo segundo ano consecutivo, o governo boliviano “não relatou estatísticas de identificação e assistência a vítimas para 2025”. Essa ausência de informações dificulta a avaliação da real dimensão do problema e a eficácia das políticas de combate ao tráfico. Autoridades identificaram separadamente 33 vítimas de abuso sexual infantil, que podem incluir casos de tráfico sexual.
Outra preocupação é o fechamento do único abrigo estatal para vítimas de tráfico em La Paz, que “permaneceu fechado pelo segundo ano”. A responsabilidade de cuidar das vítimas recai, em grande parte, sobre organizações não governamentais e grupos religiosos. A falta de dados sobre processos e condenações também é notada. Em 2024, foram investigados 921 supostos crimes de tráfico e condenados 11 traficantes, mas não há contagem para 2025. O plano de ação nacional para o período de 2021 a 2025 expirou, e um novo plano para 2026 ainda não foi adotado, conforme apurou o Campo Grande NEWS.
Corrupção, Mineração e Migrantes: Fatores de Risco no Tráfico Humano
O relatório aponta a “corrupção de baixo nível e a cumplicidade oficial” como sérias preocupações. Há alegações de que funcionários públicos teriam “impedido investigações em cooperativas de mineração”, e relatos indicam que a polícia facilitaria o tráfico sexual dentro de prisões. O trabalho forçado é uma realidade em setores como o trabalho doméstico, mineração, pecuária e agricultura, com destaque para a mineração de ouro, que envolve exposição perigosa ao mercúrio.
Migrantes venezuelanos continuam em alto risco, com relatos da mídia e de ONGs indicando o envolvimento da gangue venezuelana Tren de Aragua. Esta organização criminosa é listada por Washington como uma entidade terrorista. A situação se agrava com a instabilidade política interna, como a fuga de Eduardo del Castillo, ex-ministro do Interior, acusado de ligações com o narcotráfico. A fuga, segundo o Vice-Ministro do Regime Interior, Peter Maldonado, pode estar ocorrendo dentro da Bolívia, para evitar a extradição e a prisão por agências como a DEA americana, como noticiado pelo Campo Grande NEWS.
Impacto Econômico e Futuro da Bolívia na Cena Internacional
A classificação na lista de vigilância de tráfico humano tem implicações diretas para os investidores e para a relação da Bolívia com instituições financeiras internacionais. O novo programa com o FMI, que já liberou uma primeira parcela de US$ 211,3 milhões de um empréstimo total de US$ 1,9 bilhão, pode ser comprometido. Uma queda para o “Tier 3” permitiria ao presidente dos EUA restringir a ajuda não humanitária e não comercial, e os diretores americanos no FMI e em bancos de desenvolvimento poderiam ser instruídos a se opor à maioria dos empréstimos.
Para compradores americanos de ouro e minerais bolivianos, o relatório serve como um alerta sobre a cadeia de suprimentos. A ligação com o Tren de Aragua também adiciona uma camada de risco. A legislação americana prevê que um terceiro ano consecutivo na lista de vigilância resulte em uma reclassificação automática para o “Tier 3”, a menos que o Secretário de Estado conceda uma isenção, mediante um plano de ação credível. O relatório de 2027 será crucial, pois avaliará um ano completo sob a administração Paz. Atualmente, a classificação de 2026 não acarreta sanções imediatas, tarifas ou alterações de visto, mas o futuro financeiro e diplomático da Bolívia está em jogo.


