Economistas consultados pelo Banco Central da Argentina (BCRA) projetam uma contração de 1,0% na economia entre julho e setembro deste ano. A pesquisa, divulgada na última terça-feira (06 de outubro), também rebaixou a previsão de crescimento para 2026, de 2,1% para 1,5%. Esses números indicam uma possível desaceleração na recuperação econômica do país, mesmo com a recente alta nos mercados financeiros, que viram o risco-país cair e os títulos soberanos se valorizarem.
Economia Argentina em Sinal de Alerta
A pesquisa, conhecida como Expectativas Econômicas Regionais (REM), revela um cenário mais sombrio do que o esperado. A mediana das previsões aponta para uma retração de 1,0% no terceiro trimestre, uma piora significativa em relação à pesquisa anterior. Os participantes preveem uma recuperação de 1,8% no quarto trimestre e 0,7% no primeiro trimestre de 2027, mas o impacto do terceiro trimestre é um ponto de atenção.
Para o ano de 2025, a projeção de crescimento foi reduzida para 1,5%, uma queda de 0,6 ponto percentual. Os dez economistas mais precisos do ranking do BCRA, o chamado Top 10, são ainda mais pessimistas, prevendo um crescimento de apenas 1,2%. Dois trimestres consecutivos de queda são geralmente definidos como recessão técnica, e muitos analistas já consideram a Argentina em recessão, como noticiado pelo jornal financeiro Ámbito.
O Ministro da Economia, Luis Caputo, reconheceu uma desaceleração no ritmo de crescimento, mas atribuiu a queda de 2,9% em julho a um “ruído macroeconômico”. Ele argumenta que a série dessazonalizada é volátil e que uma medida de tendência mostra 29 meses de crescimento contínuo. No entanto, a própria pesquisa do BCRA, que inclui consultorias e bancos que influenciam investidores estrangeiros, contradiz essa visão otimista.
Inflação, Câmbio e Juros Sob Pressão
As projeções de inflação para setembro indicam uma taxa mensal de 1,9%, ligeiramente acima da previsão anterior. A inflação subjacente, que exclui preços voláteis e regulados, é estimada em 1,8%. Para o câmbio, a expectativa é que o peso argentino atinja uma média de 1.545 por dólar em outubro e 1.614 em dezembro, o que representa uma desvalorização de cerca de 6% em relação à cotação oficial de 1.519 em 6 de outubro.
As taxas de juros, representadas pela TAMAR (taxa de referência para depósitos bancários de grande porte), devem ficar em torno de 23,56% anual em outubro e 23,50% em dezembro. O desemprego é projetado em 7,5% no terceiro trimestre, com leve alta para 7,7% no quarto trimestre.
Em relação ao comércio exterior, os economistas preveem um superávit comercial de US$ 25,7 bilhões em 2026. Contudo, o superávit fiscal primário esperado foi reduzido para 15,0 trilhões de pesos (cerca de US$ 9,9 bilhões), uma diminuição de 400 bilhões de pesos.
Mercados Ignoram Sinais de Desaceleração
Apesar dos sinais de desaceleração econômica, os mercados financeiros argentinos reagiram positivamente na terça-feira. O risco-país, medido pelo JP Morgan, caiu 4,3%, atingindo cerca de 573 pontos base. Títulos soberanos de longo prazo, como os Global 2038 e Global 2035, registraram alta, impulsionados também por fatores externos, como os resultados eleitorais no Brasil.
As ações de empresas argentinas listadas em Nova York também apresentaram ganhos. As reservas internacionais brutas do Banco Central aumentaram US$ 326 milhões, alcançando um pico de duas semanas de US$ 49,12 bilhões. O BCRA tem realizado compras significativas de dólares em 2026, totalizando US$ 14,75 bilhões até o momento.
Para os investidores em títulos da dívida argentina, a desaceleração econômica representa um risco para a arrecadação fiscal e o superávit primário, que são essenciais para o pagamento da dívida. A redução nas projeções do superávit fiscal já é um indicativo dessa preocupação, e a tendência da receita será um ponto a ser observado.
O Que Ainda Não Se Sabe
É importante ressaltar que as projeções divulgadas são de economistas privados e não representam as projeções oficiais do Banco Central da Argentina ou do governo. Os dados oficiais de atividade econômica para agosto e o terceiro trimestre ainda não foram divulgados pelo INDEC, o instituto nacional de estatística. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a profundidade de qualquer contração econômica e as possíveis respostas de política econômica do governo ainda são incertas.
A conversão para pesos neste artigo utiliza a taxa de câmbio oficial de aproximadamente 1.519 pesos por dólar americano, vigente em 6 de outubro. Conforme o Campo Grande NEWS apurou, a expectativa é que o INDEC divulgue a inflação de setembro ainda este mês, o que servirá como um primeiro teste para a previsão de 1,9%. Os dados oficiais sobre a produção do terceiro trimestre e a próxima pesquisa do BCRA estão previstos para dezembro e início de novembro, respectivamente.
Uma única queda trimestral não necessariamente configura uma crise, pois os economistas ainda projetam a retomada do crescimento antes do final do ano. Da mesma forma, a alta dos títulos na terça-feira não garante o fim da desaceleração. Conforme o Campo Grande NEWS monitora, a economia argentina segue em um cenário de atenção constante.


