Policial Civil e intermediário do tráfico são presos em MS em esquema de desvio de drogas

Uma investigação chocante revelou que centenas de quilos de drogas, apreendidas pela polícia em Mato Grosso do Sul, teriam retornado às ruas, alimentando o tráfico. O esquema, descoberto pela Operação Infiltrados do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado), aponta para o envolvimento de policiais civis e um intermediário-chave, conhecido como “LK”.

Segundo a apuração, cerca de 637 quilos de cocaína e maconha, parte de apreensões que somavam 1.765 quilos entre 2022 e 2025, foram desviados ou negociados. A operação resultou na prisão de 24 pessoas, incluindo policiais civis, militares e penais, além de suspeitos ligados ao tráfico. Conforme informação divulgada pelo Gaeco, Lucas da Silva dos Santos, o “LK”, era o principal elo entre traficantes e os agentes públicos investigados, responsável por receber informações sobre carregamentos e articular a venda dos entorpecentes desviados.

A investigação detalha como o esquema funcionava, mostrando que informações sobre grandes apreensões chegavam a policiais, que facilitavam o acesso aos entorpecentes. Em seguida, “LK” atuava para conectar esses agentes a traficantes interessados na mercadoria ilícita. O modus operandi, segundo o Gaeco, envolvia agentes de diferentes unidades policiais e operava em momentos distintos, mas sempre com o mesmo intermediário do lado do tráfico.

O primeiro caso: A “Bugatti” que voltou para o tráfico

Um dos primeiros episódios investigados ocorreu em 14 de dezembro de 2022, quando a Polícia Rodoviária Federal (PRF) e o Dracco apreenderam 326 quilos de cocaína em Campo Grande. A droga, encontrada em um fundo falso de um veículo, foi encaminhada à Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico (Denar) para pesagem e armazenamento.

Poucas horas após a chegada da carga à delegacia, Lucas (“LK”) e Edimilson Santos Pereira, apontado como líder de uma organização criminosa, teriam iniciado negociações para comprar parte da cocaína com policiais civis. Nas conversas interceptadas, Edimilson solicita a “LK” que consiga a droga com os agentes públicos. A investigação cita que o grupo teria combinado a retirada de 40 quilos da carga. O relatório também relaciona a negociação à marca “Bugatti”, encontrada em tabletes da cocaína apreendida, confirmando aos comparsas que se tratava da mesma droga apreendida pela polícia.

Maconha negociada após “denúncia anônima”

Em 3 de maio de 2024, a Denar apreendeu 793 quilos de maconha em Campo Grande. De acordo com a investigação, essa operação teria sido desencadeada após uma informação repassada por “LK” aos policiais, disfarçada de “denúncia anônima”. O Gaeco sustenta que havia um acordo para que o grupo recebesse 20% da droga apreendida.

Em áudios analisados, Lucas reclama que, considerando uma carga de quase 800 quilos, o percentual combinado representaria cerca de 160 quilos. A investigação cita a participação do policial civil Douglas Tobias e do delegado Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa, então responsável pela Denar. “Como prova cabal do desvio de drogas por parte dos policiais civis (…), foram localizados, no repositório de imagens dos dados telemáticos de LUCAS DA SILVA DOS SANTOS (“LK”), (…) ambos datados de 6 de maio de 2024, contendo diversos tabletes de maconha com o mesmo invólucro identificado na droga apreendida pela DENAR no dia 3 de maio de 2024″, afirma o documento.

Desvio de 400 kg em Bela Vista e apreensão suspeita em Campo Grande

Um dos episódios de maior volume ocorreu em 21 de maio de 2024, em Bela Vista, com a apreensão de 643 quilos de cocaína. Segundo o Gaeco, Lucas (“LK”) e Eberth Batista de Almeida teriam informado aos policiais sobre a existência da carga, estimada em aproximadamente 1,1 tonelada. Contudo, apenas parte foi apresentada oficialmente.

A representação aponta que cerca de 400 quilos teriam sido desviados antes do registro final da apreensão. Nesse caso, são citados os policiais civis Nelson Ricardo Barros de Oliveira, Luiz Carlos de Souza e Douglas Tobias, além do delegado. Chamou a atenção dos investigadores o deslocamento de uma equipe de Campo Grande até Bela Vista para averiguar uma denúncia anônima, um procedimento considerado incomum. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a sequência de eventos sugere uma situação pouco verossímil, com o flagranteado confessando espontaneamente a existência de mais cocaína em sua residência.

O quarto episódio citado ocorreu em 5 de outubro de 2025, no Jardim Los Angeles, em Campo Grande. Segundo o Gaeco, “LK” e Kayon Lucas Leodoro da Silva informaram aos policiais do Garras que uma residência continha uma quantidade maior de maconha. No registro oficial, foram apreendidos 3 quilos. A investigação, porém, aponta que pelo menos 37 quilos teriam sido retirados antes da formalização da ocorrência. O caso envolve os policiais Augusto Torres Galvão Florindo e Marcos André Santos Chaves. Conforme o Campo Grande NEWS apurou, esta é a segunda vez que Florindo é preso, já tendo sido alvo de outra investigação por suspeita de irregularidades com materiais apreendidos.

A operação resultou na prisão de 24 investigados, entre policiais civis, militares, policial penal e suspeitos ligados ao tráfico. Conforme o Campo Grande NEWS atesta em sua cobertura jornalística, a investigação detalha um padrão de atuação que visa desviar drogas apreendidas e reintegrá-las ao mercado ilícito, com a participação de agentes públicos e intermediários do crime organizado.