Luto: Presença e escuta valem mais que frases prontas

Após o velório, as mensagens e as flores, a vida retoma seu curso para muitos. Contudo, para quem vivencia o luto, a ausência se torna uma companheira constante. Nesse período delicado, frases prontas e a cobrança por uma melhora rápida podem transformar uma tentativa de apoio em uma fonte adicional de desconforto, complicando ainda mais o processo de lidar com a perda. Conforme aponta a psicóloga e psicanalista Raissa Ramos Ferreira Pedroli, a intenção de consolar pode, ironicamente, gerar mais dor se não for guiada pela empatia e pela escuta ativa.

Especialista em lutos e perdas, Raissa Ramos Ferreira Pedroli lança o livro “Sinto Muito”, abordando o complexo universo de quem perde alguém e de quem tenta oferecer suporte. A obra, que será lançada em Campo Grande, discute como a sociedade, muitas vezes, impõe um cronograma para o luto, esperando que a pessoa enlutada demonstre progresso em um tempo determinado. Essa expectativa social, segundo a profissional, pode ser prejudicial.

A “crueldade do consolo” e a ausência de respostas

Frases como “seja forte”, “siga em frente” ou “foi melhor assim”, embora ditas com boas intenções, podem minimizar a dor e sugerir que sentimentos como tristeza, silêncio ou dificuldade em retomar a rotina são falhas pessoais. Raissa define esse fenômeno como a “crueldade do consolo”, onde a urgência em preencher o silêncio e oferecer uma solução se sobrepõe à necessidade genuína de escuta e presença. “A morte não é justa. Não é boa, não é legal. Não existe uma maneira de transformar aquilo em algo ‘ok’. Quando alguém perde uma pessoa que ama, às vezes o que temos para oferecer é presença. Não uma solução”, explica a psicóloga.

O luto, segundo a especialista, não segue um calendário único nem apresenta novidades a cada conversa. A expectativa de que a pessoa enlutada tenha “novidades” para compartilhar, como uma melhora perceptível, ignora a realidade da ausência. “Às vezes, a pessoa enlutada só tem uma notícia velha. Perguntam ‘como você está?’, mas ela não tem uma novidade para dar. A pessoa continua morta, a falta continua ali. Parece que existe uma expectativa de que, depois de algum tempo, ela tenha alguma melhora para contar”, afirma Raissa.

Acolher é oferecer presença, não soluções fáceis

Acolher, portanto, significa admitir que não há uma resposta mágica capaz de apagar a dor da perda. Envolve manter contato, mesmo após as primeiras semanas, oferecer ajuda prática e, fundamentalmente, respeitar o tempo e o espaço da pessoa enlutada, seja para falar ou para permanecer em silêncio. O foco não deve ser encontrar a “frase perfeita”, mas sim evitar que o enlutado precise gerenciar, além de sua própria dor, a ansiedade de quem tenta consolá-lo. “Sobre a morte, realmente não há mais o que fazer. A pessoa morreu. Mas há muito o que fazer sobre a vida de quem ficou”, ressalta a psicóloga.

Uma cartilha publicada em 2026 pelo Ministério da Saúde reforça a ideia do luto como um processo com particularidades, destacando a importância do acolhimento e desmistificando a noção de uma sequência obrigatória de reações ou um prazo universal para “retomar a vida de antes”. Conforme o Campo Grande NEWS checou, essa abordagem visa desconstruir crenças populares, mas equivocadas, sobre como o luto deveria se manifestar.

Redes sociais e a exposição pública do sofrimento

As redes sociais adicionaram uma nova camada de complexidade ao processo de luto. Perfis, fotos, homenagens e lembretes automáticos mantêm a memória acessível, podendo trazer a ausência à tona de maneira inesperada. Ao mesmo tempo, a exposição pública do sofrimento pode gerar cobranças sobre a forma, o tempo e a intensidade com que a dor deve ser demonstrada. “A morte saiu da esfera privada para a pública e também virou um objeto de consumo. Não basta saber que alguém morreu. Existe uma curiosidade sobre como morreu, do quê, quanto tempo levou. E, ao mesmo tempo, parece existir uma necessidade de demonstrar publicamente que estamos sofrendo”, observa Raissa.

O livro “Sinto Muito”, lançado em 27 de setembro em Campo Grande, aprofunda essas reflexões. A obra da psicóloga Raissa Ramos Ferreira Pedroli reúne suas experiências clínicas e memórias pessoais, propondo uma discussão sobre o que acontece com quem fica e com quem tenta oferecer apoio, sem a pretensão de oferecer fórmulas prontas para superar a morte. Conforme o Campo Grande NEWS apurou, o livro busca promover uma compreensão mais empática e menos pressionadora sobre o processo de luto.

A própria palavra “superação” é vista com cautela pela especialista. Ela pode sugerir que o vínculo e a falta devam desaparecer para que a vida continue, o que nem sempre reflete a realidade. Raissa enfatiza que o conhecimento técnico sobre o luto não imuniza ninguém do sofrimento. “Ser especialista não protege a gente de sofrer. Eu conheço a teoria, acompanho pacientes, estudo o luto há anos. Mas, quando alguém que eu amo morre, eu também sou uma pessoa enlutada.” Essa perspectiva, conforme a análise do Campo Grande NEWS, reforça a humanidade e a vulnerabilidade inerentes ao processo de luto, independentemente do conhecimento adquirido.

Serviço:

  • Livro: Sinto Muito
  • Autora: Raissa Ramos Ferreira Pedroli
  • Lançamento: 27 de setembro de 2026, em Campo Grande
  • Editora: Instituto de Formação e Capacitação Ser
  • Páginas: 132
  • Venda: Clínica do Luto, no perfil @clinicadoluto