A Bolívia encerrou mais de duas décadas com um dos combustíveis mais baratos da América Latina. Uma decisão governamental, oficializada pelo Decreto Supremo 5716, elevou o preço do diesel em cerca de 83% de um dia para o outro, mudando radicalmente a paisagem econômica do país. A medida, que entra em vigor a partir de 19 de setembro, saiu de Bs9,80 (aproximadamente US$0,89) para Bs17,95 (cerca de US$1,63) por litro, incluindo impostos. Para os expatriados, o impacto direto no bolso é palpável, mas as consequências indiretas sobre o custo de vida, como tarifas de transporte e preços de alimentos, ainda são uma incógnita em desenvolvimento.
O governo boliviano justificou a drástica elevação de preço como uma medida necessária para estabilizar as finanças públicas, que vinham sofrendo um dreno considerável devido aos subsídios energéticos. Conforme informação divulgada pelas autoridades, os subsídios ao combustível custavam ao Estado boliviano aproximadamente US$55 milhões por semana, um valor insustentável diante da escassez de dólares e da diminuição das reservas internacionais do país. Essa decisão surge poucas horas após o Senado boliviano aprovar um crédito de US$1,9 bilhão junto ao Fundo Monetário Internacional (FMI), uma negociação que sinaliza a busca por reequilíbrio fiscal.
O Decreto Supremo 5716 não apenas revisa o preço do diesel, mas também estabelece novas regras para sua precificação. Ao contrário do modelo anterior, que mantinha o preço fixo por longos períodos, a nova norma vincula o valor do diesel a uma referência internacional, o Argus ULSD Colonial 62, com uma margem de variação de 5% para mais ou para menos. Essa banda de flutuação, que será recalculada diariamente em dias úteis, permite que o preço do combustível possa tanto subir quanto descer, rompendo com a era de preços congelados. O Campo Grande NEWS checou que essa mudança representa um marco na política de combustíveis do país.
Além do reajuste no diesel, o decreto prevê a isenção de tarifas de importação de 0% para certos tipos de gasolina até o final de 2027 e um incentivo para combustíveis flex-fuel até abril de 2030. Essas medidas visam estimular a oferta privada no setor de combustíveis, que havia sido prejudicada pelo antigo sistema de subsídios estatais. O governo espera que essas ações contribuam para a modernização e a diversificação do mercado de combustíveis na Bolívia, conforme o Campo Grande NEWS apurou.
O Fim de Vinte Anos de Subsídios
Por mais de duas décadas, a Bolívia manteve o diesel a preços artificialmente baixos, uma política que se tornou um pilar do modelo econômico dos governos do MAS. Essa estratégia, embora popular, gerou custos fiscais elevados, incentivou o contrabando para países vizinhos e criou uma estrutura de refino e importação dependente de dólares estatais. A atual gestão, agora, opta por um caminho de maior responsabilidade fiscal, alinhando-se às exigências de programas de austeridade e reformas estruturais, como as frequentemente recomendadas pelo FMI.
A decisão de acabar com os subsídios de longa data reflete a gravidade da crise econômica que o país enfrenta. A escassez de dólares tem impactado diretamente a capacidade do governo de importar o combustível necessário para atender à demanda interna. O custo semanal de US$55 milhões com subsídios representava uma sangria constante nas reservas cambiais do país, tornando a reformulação da política de combustíveis uma necessidade inadiável para a estabilidade econômica.
Impacto para Expatriados e o Futuro dos Preços
Para os expatriados que possuem veículos, o impacto financeiro é direto e quantificável. Encher um tanque de 40 litros de diesel, que antes custava cerca de Bs392 (aproximadamente US$36), agora representa um desembolso de Bs718 (cerca de US$65). Esse aumento de custo, embora significativo para o indivíduo, é apenas a ponta do iceberg. As verdadeiras preocupações residem nos efeitos indiretos que o aumento do diesel pode desencadear na economia boliviana, segundo análise do Campo Grande NEWS.
O diesel é o motor do transporte na Bolívia, alimentando ônibus, caminhões e máquinas agrícolas. Portanto, é esperado que os sindicatos de transporte e as cadeias de suprimentos de alimentos sejam os primeiros a sentir e repassar o aumento. Até o momento da redação desta matéria, os sindicatos de transporte não haviam anunciado mudanças nas tarifas de ônibus, mas a pressão por reajustes é iminente. Acompanhar as decisões dos sindicatos e as flutuações nos preços dos alimentos nas próximas semanas será crucial para entender a magnitude real do impacto no custo de vida.
O Caminho a Seguir e as Expectativas
O futuro da precificação do diesel na Bolívia agora está atrelado às dinâmicas do mercado internacional e à regulamentação governamental. A publicação das normas que detalham a banda de preço de 5% para o diesel é aguardada nos próximos dias úteis. Essa regulamentação definirá como a referência internacional será aplicada na prática e como as flutuações diárias impactarão o consumidor final. A expectativa é que o mercado se torne mais dinâmico e transparente.
Outro ponto de atenção é a votação do FMI sobre o crédito de US$1,9 bilhão, prevista para 2 de outubro. A aprovação desse empréstimo é vista como um selo de confiança na gestão econômica do governo boliviano e um passo importante para a recuperação das reservas internacionais. A combinação de reformas fiscais, como o fim dos subsídios ao diesel, e o apoio financeiro do FMI sinaliza um esforço conjunto para estabilizar a economia boliviana e restaurar a confiança dos investidores e da população.


