Equador negocia com China 3.000 MW de energia solar e novas linhas de transmissão

O Equador está em conversas avançadas com a China para a implementação de projetos de energia solar com capacidade de até 3.000 megawatts (MW) e a construção de novas linhas de transmissão. A iniciativa visa fortalecer a infraestrutura energética do país e reduzir perdas de eletricidade, conforme anunciado pelo presidente Daniel Noboa. As negociações tiveram início durante a visita de Estado de Noboa à China em agosto de 2026, onde ele se reuniu com o presidente Xi Jinping.

O foco principal das discussões, segundo Noboa, é aprimorar a capacidade de transmissão de energia, que ele considera o principal gargalo do sistema elétrico equatoriano, mais do que a geração em si. A meta é garantir a sustentabilidade energética até 2035 e mitigar os impactos de futuras crises hídricas, que já causaram apagões severos em 2024, com um custo estimado de US$ 1,9 bilhão para a economia do país.

Apesar do otimismo, é importante notar que, até o momento, nenhum contrato formal foi assinado, e os detalhes sobre locais, custos, parceiros e termos de financiamento permanecem confidenciais. Para investidores e empresas que atuam no Equador, a recomendação é continuar planejando o uso de energia de backup como medida de segurança contra interrupções imprevistas.

As conversas entre Equador e China sobre energia solar e transmissão foram confirmadas por Daniel Noboa em entrevista à Rádio Fiesta, na província de El Oro. Ele destacou a necessidade de projetos solares de grande escala, capazes de suprir uma demanda significativa e trazer sustentabilidade ao setor até 2035. Noboa enfatizou que o problema central do Equador é a distribuição de energia, não a sua produção, e que a cooperação chinesa pode ser crucial para solucionar essa questão.

Origens e Contexto das Negociações

As conversas tiveram seu pontapé inicial em agosto de 2026, durante a visita oficial de Noboa a Pequim. Na ocasião, os presidentes Noboa e Xi Jinping concordaram em iniciar a cooperação em energia fotovoltaica. No entanto, comunicados oficiais da presidência equatoriana na época não detalharam valores, empresas envolvidas ou cronogramas específicos para esses projetos de energia solar.

Além do setor energético, os dois governos assinaram sete outros acordos, incluindo memorandos sobre indústria verde, economia digital, comércio e cooperação midiática. A China também se comprometeu a fornecer cerca de US$ 42,7 milhões em doações, destinadas a áreas como segurança pública, equipamentos médicos, educação e prevenção de desastres. Nenhum desses fundos foi explicitamente alocado para projetos de energia solar ou linhas de transmissão.

A Crise Energética de 2024 e a Dependência Hídrica

O Equador depende majoritariamente de sua matriz hidrelétrica, que em outubro de 2024 representava cerca de 72% da geração de energia do país. Uma severa seca naquele ano impactou drasticamente os reservatórios, como o de Mazar, que integra o sistema Paute. Essa escassez hídrica forçou o governo a estender os apagões diários de oito para até 14 horas em outubro de 2024.

A situação foi agravada pela interrupção do fornecimento de eletricidade por parte da Colômbia. Os cortes programados foram encerrados apenas em dezembro de 2024, após cerca de três meses, graças à recuperação de plantas de geração, à instalação de geradores flutuantes e à melhoria das condições de chuva. Especialistas, contudo, alertaram que o sistema ainda apresentava fragilidades para atender à demanda total.

O custo econômico desses apagões foi substancial, estimado pelo Banco Central do Equador em aproximadamente US$ 1,9 bilhão, o que equivalia a cerca de 1,4% do Produto Interno Bruto (PIB) do país. O setor comercial e industrial foi o mais afetado.

O Papel da China e o Gigante Coca Codo Sinclair

A China já possui uma presença significativa na infraestrutura energética equatoriana. A maior usina hidrelétrica do país, Coca Codo Sinclair, com capacidade de 1.500 MW, foi construída pela empresa estatal chinesa Sinohydro. Essa usina, localizada nas províncias amazônicas de Napo e Sucumbíos, foi projetada para suprir cerca de 30% da demanda nacional de energia.

Apesar de sua importância, a usina Coca Codo Sinclair enfrentou desafios, incluindo milhares de rachaduras e uma longa disputa judicial com a construtora. A entrega final entre a estatal equatoriana CELEC e a Sinohydro só ocorreu em abril de 2026, após um processo de arbitragem. Em setembro de 2026, problemas com sedimentos no Rio Coca forçaram cortes na produção da usina, impactando o fornecimento em Quito.

Conforme apurou o Campo Grande NEWS, em 14 de setembro de 2026, a capacidade da Coca Codo Sinclair foi reduzida, cobrindo apenas 28% da demanda nacional, enquanto o sistema Paute fornecia 32%. Esse episódio evidencia a vulnerabilidade do sistema, mesmo com a contribuição de grandes projetos.

O Déficit de Geração e o Potencial da Energia Solar

Embora Noboa priorize a transmissão, o Equador também enfrenta um déficit na geração de energia. Em março de 2026, a ministra de Energia, Inés Manzano, admitiu uma lacuna de cerca de 1.000 MW. Medidas emergenciais, incluindo a autogeração por parte da indústria, foram implementadas para evitar racionamentos generalizados. A energia solar surge como uma alternativa promissora, pois não depende dos níveis dos rios.

No entanto, a energia solar tem suas limitações, como a intermitência noturna. Por isso, o reforço das linhas de transmissão entre diferentes regiões é considerado fundamental para a estabilidade do sistema. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a combinação de fontes renováveis intermitentes com uma rede de transmissão robusta é essencial para a segurança energética.

Implicações para Investidores e Expatriados

Para expatriados e investidores, a instabilidade energética representa um dos riscos mais claros para os negócios no Equador. Os apagões de 2024 afetaram severamente o comércio, a indústria e os serviços. Qualquer pessoa envolvida em negócios, aluguel de imóveis ou planejamento de fábricas no país deve considerar a possibilidade de futuras interrupções e orçar a aquisição de sistemas de energia de backup.

Um plano energético credível, que inclua a expansão da energia solar e a modernização da rede de transmissão, poderia reduzir esse risco a longo prazo. Contudo, o horizonte de 2035 é atualmente uma meta política, e não um cronograma concreto para investimentos. Conforme o Campo Grande NEWS atesta, a falta de detalhes sobre os projetos chineses gera incerteza para o mercado.

O que Ainda Não é Público

Atualmente, não há informações públicas sobre a lista de projetos específicos, os locais de instalação, os parceiros chineses envolvidos, os custos totais ou os termos de financiamento. Tampouco foi detalhado como os 3.000 MW de energia solar seriam distribuídos por região ou ao longo do tempo. A modalidade de construção das novas linhas de transmissão também é incerta, podendo ser via empréstimo, investimento direto ou ajuda oficial.

O governo chinês também não divulgou sua versão oficial sobre estes acordos específicos. Os próximos passos cruciais para dar credibilidade a essas negociações seriam a assinatura de um contrato formal, a abertura de um processo de licitação pública ou o anúncio de um plano de financiamento. Até lá, as conversas representam um avanço promissor, mas ainda inicial, na busca por um fornecimento de energia mais estável no Equador.