Gilmar Mendes acusa Mendonça de usar caso Master para interferir em eleição

O ministro Gilmar Mendes, decano do Supremo Tribunal Federal (STF), elevou a tensão na Corte ao acusar formalmente o ministro André Mendonça de utilizar sua relatoria no caso Master com o objetivo claro de interferir na eleição presidencial, marcada para 4 de outubro. A declaração foi feita durante uma sessão plenária extraordinária convocada pelo presidente do STF, ministro Edson Fachin.

“Com todas as vênias e toda sinceridade, presidente, é evidente e até as pedras sabem que há um inequívoco viés político-eleitoral na forma como o tema foi conduzido”, afirmou Mendes, dirigindo-se a Fachin. Ele completou, com veemência: “Isso não se faz, pessoas decentes não fazem isso”. A acusação direta pegou Mendonça de surpresa, que rebateu chamando Gilmar Mendes de “leviano” e pedindo para não ter o dedo apontado para si.

O embate ocorreu em um momento histórico para o STF, que pela primeira vez avalia a abertura de uma investigação criminal contra um de seus próprios membros, o ministro Alexandre de Moraes. O cerne da questão é um relatório da Operação Compliance Zero, da Polícia Federal (PF), que liga Moraes ao ex-banqueiro Daniel Bueno Vorcaro, proprietário do antigo Banco Master. O sigilo sobre este documento foi levantado por Mendonça no dia 1º de setembro, desencadeando uma crise institucional.

Mendonça no centro do furacão eleitoral

Gilmar Mendes detalhou sua acusação, apontando que Mendonça, como relator do caso Master no Supremo, teria escolhido a data de levantamento do sigilo de forma deliberada. Segundo o decano, a intenção seria coincidir com as manifestações populares do Dia da Independência, 7 de setembro. “O interesse é evidente, acachapante. Evidente que se trata de um pixuleco, de um boneco eleitoral, é disso que estamos falando”, declarou Mendes, fazendo alusão ao boneco inflável do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, frequentemente visto em manifestações da oposição.

A estratégia de Mendes não parou na acusação. Ele levantou uma questão de ordem solicitando que o Supremo adiasse o julgamento do caso. A nova data proposta por ele foi 23 de setembro, mesmo dia em que Fachin agendou o julgamento de um pedido de Moraes para que o próprio Mendonça seja investigado por suposto abuso de autoridade na condução do caso Master. A sessão foi suspensa para almoço e a expectativa é de retomada após o horário eleitoral gratuito.

O relatório que abalou o STF

O relatório da PF, que veio à tona em 1º de setembro com o levantamento do sigilo por André Mendonça, apresentou 52 mensagens que os investigadores afirmam ter sido enviadas por Daniel Vorcaro a Alexandre de Moraes. Nessas comunicações, o ex-banqueiro demonstra uma relação de proximidade com o ministro. Em trechos divulgados, Vorcaro sugere ter apresentado a Moraes um contrato de R$ 131 milhões do Master com o escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro. Em outra comunicação, Vorcaro parece buscar informações de Moraes sobre uma operação policial iminente para sua prisão. As mensagens teriam sido enviadas entre 2023 e novembro de 2025, data da prisão preventiva do ex-banqueiro.

Em sua defesa, apresentada na madrugada desta terça-feira, o ministro Alexandre de Moraes negou veementemente qualquer irregularidade. Ele classificou o relatório como inconstitucional e ilegal. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a Procuradoria-Geral da República (PGR) já havia solicitado a Fachin a anulação do relatório parcial. O órgão argumenta que a investigação sobre um ministro do STF avançou sem a devida comunicação ao presidente da Corte ou ao plenário, o que poderia indicar direcionamento por parte de Mendonça.

Moraes contra-ataca e pede investigação de Mendonça

Em resposta direta ao relatório da PF, Alexandre de Moraes divulgou, em 2 de setembro, um documento que ele apresentou como um relatório de inteligência da PF. Nele, sugere-se que André Mendonça poderia ter direcionado as investigações da Operação Compliance Zero para atingir desafetos políticos. É importante notar, contudo, que este documento não possui assinatura nem timbre oficial da corporação, e a própria capa o descreve como uma “conjectura” e “sem valor probatório”.

Com base nesses fatos, Moraes solicitou a Fachin a abertura de uma investigação contra Mendonça. As acusações incluem suspeitas de abuso de autoridade, improbidade administrativa e crime de responsabilidade. O presidente do Supremo, Edson Fachin, marcou o julgamento deste pedido para o dia 23 de setembro, intensificando o clima de confronto entre os ministros. A dinâmica do caso Master e suas ramificações prometem continuar moldando o cenário político e jurídico do país.

A participação de todos os ministros do Supremo é esperada no julgamento. Moraes e Mendonça sentam lado a lado na sessão, um detalhe que sublinha a tensão presente. Ministros Nunes Marques e Dias Toffoli já se declararam impedidos e suspeitos, respectivamente, de votar no caso, evidenciando a complexidade e a sensibilidade do tema em discussão. Conforme o Campo Grande NEWS apurou, a crise institucional instalada no STF reflete as divisões e os interesses em jogo no cenário político nacional, com desdobramentos que podem impactar diretamente o futuro da eleição presidencial. O Campo Grande NEWS segue acompanhando de perto os desdobramentos desta grave crise no judiciário brasileiro.