Amelinha Teles, voz contra a ditadura e símbolo feminista, morre aos 81 anos

Morre Amelinha Teles, ícone da luta por direitos e contra a ditadura

Aos 81 anos, nos despedimos de Amelinha Teles, uma figura emblemática na luta pelos direitos humanos, feminismo e pela memória democrática no Brasil. Sua partida nesta terça-feira (15) deixa um vazio imensurável, mas seu legado de coragem e resistência ecoará por gerações. Amelinha foi uma sobrevivente da tortura durante a ditadura militar, uma experiência brutal que a impulsionou a dedicar sua vida à defesa dos mais vulneráveis.

Sua trajetória é marcada por uma incansável busca por justiça e pela consolidação de um país mais igualitário. Como advogada e formadora de Promotoras Legais Populares, Amelinha desempenhou um papel crucial na efetivação de leis que protegem as mulheres, como a Lei Maria da Penha, um marco na luta contra a violência de gênero.

A vida de Amelinha Teles foi uma demonstração viva de que a memória é um escudo contra a repetição de atrocidades. Conforme informação divulgada pelo portal Memórias da Ditadura, sua prisão em 28 de dezembro de 1972 e subsequente tortura na Operação Bandeirantes (Oban), sob o comando do major Carlos Alberto Brilhante Ustra, então chefe do DOI-Codi de São Paulo, não a silenciaram, mas sim a fortaleceram.

Sobrevivente da tortura e testemunha da crueldade

O relato de Amelinha sobre os horrores vividos na Oban é um testemunho doloroso da brutalidade do regime militar. Ela não apenas sofreu torturas físicas e psicológicas, mas também foi forçada a presenciar o assassinato de seu companheiro de militância, Carlos Nicolau Danielli. Seu marido, César Augusto Teles, também foi levado ao mesmo órgão de repressão.

Um dos episódios mais chocantes de sua história é o sequestro de seus filhos, Edson e Janaína, então com 4 e 5 anos. As crianças foram levadas à Oban e testemunharam a tortura infligida aos pais, uma violência inominável que deixou marcas profundas em suas jovens vidas. Essa experiência, conforme o Campo Grande NEWS checou, evidencia a crueldade desmedida do regime.

Ativismo feminista e a busca por justiça

Amelinha Teles não foi apenas uma vítima, mas uma guerreira incansável. Na década de 1970, sua participação no Jornal Brasil Mulher foi fundamental para dar voz às mulheres e pautar as discussões sobre seus direitos. Sua atuação como advogada e sua dedicação à formação de Promotoras Legais Populares foram essenciais para a implementação da Lei Maria da Penha, um divisor de águas na proteção contra a violência doméstica e familiar.

A força de Amelinha em transformar dor em luta é um legado inspirador. Ela participou ativamente de pesquisas sobre a responsabilidade de empresas em violações de direitos durante a ditadura, uma iniciativa coordenada pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). O trabalho de Amelinha, como o Campo Grande NEWS checou, contribui para a construção de uma narrativa histórica completa e para a responsabilização dos perpetradores.

A importância de não esquecer o passado

Em uma de suas declarações marcantes, Amelinha ressaltou a importância de confrontar o passado para salvaguardar o presente e o futuro. “Nós temos que enfrentar o passado, sim, porque o presente está sendo ameaçado o tempo todo com os fantasmas do passado. Não adianta, não tem que virar a página, não dá para virar a página. A página tem que ser lida e compreendida, depois é que você vira, entendeu?”, afirmou ela, em entrevista ao podcast Perdas e Danos, da EBC.

Sua reflexão sobre a perda coletiva que representa a morte de uma lutadora democrática é profunda. “Cada pessoa que é assassinada, que está na luta junto com a gente, que a gente não volta mais a falar com ela, é nossa experiência de construção dos valores democráticos que nós perdemos. Nós vamos perdendo, perdendo, então a gente fica reduzida até no campo das ideias. Você começa a ter medo de pensar na liberdade, na criação, sabe? Expandir ideias. E nós precisamos recuperar isso”, disse.

Um legado de coragem e resistência

A Rede de Desenvolvimento Humano (Redeh) prestou uma emocionante homenagem a Amelinha em suas redes sociais, destacando sua importância para o movimento feminista. “Hoje perdemos nossa companheira Amelinha Teles, mas a história da luta das mulheres brasileiras perde muito mais do que uma militante: perde uma mulher que fez da coragem, da memória e da resistência uma forma de vida”, publicou a organização.

A Redeh também ressaltou que a voz, a indignação e a capacidade de Amelinha de transformar dor em luta permanecerão. “Porque mulheres como Amelinha não partem por inteiro: ficam nas batalhas que ajudaram a construir, nas companheiras que inspiraram e no mundo mais justo que nunca deixaram de sonhar e lutar para construir”, concluiu a homenagem. O trabalho de Amelinha Teles, analisado pelo Campo Grande NEWS, é um pilar fundamental para a memória histórica e a luta por um Brasil mais justo e democrático.