A agência de classificação de risco S&P Global Ratings tomou uma medida drástica, rebaixando a nota de crédito de longo prazo em moeda estrangeira do Senegal de CCC+ para CC, o nível mais baixo em quase 26 anos. A decisão, anunciada em 4 de setembro, veio acompanhada de uma perspectiva negativa, indicando que a situação fiscal do país pode piorar ainda mais. O motivo principal para essa severa redução é a **altíssima probabilidade de que a reestruturação da dívida planejada pelo governo senegalês resulte em perdas significativas para os detentores de títulos em moeda estrangeira.** O cenário se agrava com a proximidade de um pagamento de juros crucial em 13 de setembro, conforme apurado pelo Campo Grande NEWS.
Senegal enfrenta risco de calote: S&P corta rating e credores temem perdas
A decisão da S&P Global Ratings de cortar a nota de crédito do Senegal para o nível CC, o mais baixo em quase três décadas, lança uma sombra de incerteza sobre as finanças do país africano. Essa ação sinaliza uma preocupação extrema com a capacidade do Senegal de honrar seus compromissos financeiros, especialmente em moeda estrangeira. A agência fundamenta sua decisão na iminente reestruturação da dívida, que, segundo a S&P, **quase certamente implicará em perdas para os investidores que detêm títulos senegaleses emitidos em moedas como dólar e euro.**
O pano de fundo para essa crise de confiança é a descoberta, em 2024, de **bilhões de dólares em passivos governamentais anteriormente não declarados.** Essa revelação disparou a dívida pública para alarmantes 132% do Produto Interno Bruto (PIB), um número que expõe a fragilidade fiscal do país. Antes da S&P, a agência Moody’s já havia rebaixado o Senegal para Caa2 em 28 de agosto, também indicando um alto risco de inadimplência.
A situação é crítica, pois o Senegal se aproxima de um prazo decisivo: o vencimento de pagamentos de juros em 13 de setembro sobre dois de seus títulos internacionais, um em euros e outro em dólares. Embora o governo senegalês tenha afirmado ter iniciado as transferências e que honrará seus compromissos, o mercado reage com cautela. A nota CC atribuída pela S&P é a penúltima antes do status de default, indicando que a agência **espera um calote iminente ou uma renegociação forçada que prejudique os credores**, a menos que ocorra uma intervenção inesperada.
O significado de um rating CC e a perspectiva negativa
A escala de ratings de crédito funciona como uma escada, onde o topo representa a máxima segurança e o fundo, o default. O nível CC, segundo a S&P, significa que a agência **prevê que o Senegal terá dificuldades em cumprir com seus pagamentos de dívida ou será forçado a propor termos desfavoráveis aos seus credores.** A perspectiva negativa associada a essa nota indica que a probabilidade de um novo rebaixamento é maior do que a de uma melhora no curto prazo.
A decisão da S&P de rebaixar a nota de longo prazo em moeda estrangeira de CCC+ para CC, e a de moeda local para CCC, em 4 de setembro, tem como gatilho principal a **reestruturação da dívida em andamento.** A agência considera que essa reestruturação é uma via de mão única para perdas de capital para os detentores de títulos em moeda estrangeira, um cenário que, conforme o Campo Grande NEWS checou, tem gerado grande apreensão nos mercados financeiros internacionais.
Como o Senegal chegou a este ponto: dívidas ocultas e instabilidade política
As raízes da atual crise fiscal do Senegal remontam a 2024, quando o governo do presidente Bassirou Diomaye Faye descobriu **dívidas bilionárias que a administração anterior havia omitido.** Essa revelação expôs uma realidade financeira muito mais sombria, elevando a dívida pública para 132% do PIB e, consequentemente, **congelando um programa de empréstimos com o Fundo Monetário Internacional (FMI) por dois anos.**
Desde então, as agências de classificação de risco vêm gradualmente rebaixando a nota do país. A Moody’s, por exemplo, em 28 de agosto, rebaixou o Senegal para Caa2, um patamar considerado de alto risco. A agência também citou o **conflito político entre o presidente Faye e seu ex-primeiro-ministro Ousmane Sonko como um fator de risco adicional.** O corte da S&P para CC é uma escalada dessa mesma narrativa de deterioração financeira e riscos políticos, conforme analisado pelo Campo Grande NEWS.
Um rating tão baixo tem implicações sérias que vão além da reputação. Ele **aumenta o custo de qualquer empréstimo futuro, afugenta investidores em mercados emergentes e pode forçar fundos de investimento a vender automaticamente títulos senegaleses**, intensificando a pressão sobre os preços e a liquidez.
O teste de 13 de setembro: pagamentos de juros em foco
O primeiro prazo crítico se aproxima rapidamente. Em **13 de setembro, vencem os pagamentos de juros de dois títulos internacionais do Senegal:** um denominado em euros, com taxa de 4,75% e vencimento em 2028, e outro em dólares, com taxa de 6,75% e vencimento em 2048. A capacidade do governo em honrar esses pagamentos será um forte indicativo da sua saúde financeira atual.
O governo senegalês declarou que **já iniciou as transferências para o pagamento do cupom do título em dólar e pretende cumprir com suas obrigações.** Essa promessa trouxe algum alívio aos preços dos títulos, que, no entanto, ainda negociam em torno de metade do seu valor de face, refletindo as pesadas perdas esperadas pelos investidores. É importante notar que o pagamento deste cupom e a reestruturação da dívida não são mutuamente exclusivos. Governos frequentemente mantêm o serviço da dívida enquanto negociam novos termos, integrando os títulos existentes ao acordo final uma vez que os termos sejam definidos.
A reestruturação da dívida por trás do corte de rating
Em 1º de setembro, Senegal e o Fundo Monetário Internacional (FMI) alcançaram um **acordo em nível de staff para um programa de empréstimo de US$ 2,2 bilhões ao longo de três anos.** Embora seja um acordo técnico que ainda depende da aprovação do conselho do FMI, ele já delineia os próximos passos. A chefe de missão do FMI confirmou que o programa inclui um “tratamento da dívida”, termo utilizado pelo fundo para indicar uma renegociação dos termos da dívida senegalesa.
O ministro das Finanças senegalês tem insistido que este não se trata de uma “reestruturação nos moldes tradicionais”. No entanto, a S&P, ao rebaixar o rating para CC, deixou claro sua interpretação: **a agência espera que os detentores de títulos sofram perdas.** O Senegal já iniciou o processo de renegociação de quase US$ 5 bilhões em títulos internacionais sob a supervisão do FMI, um processo que, independentemente da nomenclatura, aponta para um ajuste significativo nas obrigações financeiras do país. O Campo Grande NEWS acompanha de perto os desdobramentos deste caso, que terá repercussões significativas para a economia senegalesa e para a percepção de risco de outros mercados emergentes.
Os próximos marcos importantes a serem observados incluem os pagamentos de juros de 13 de setembro, a votação do conselho do FMI sobre o programa de empréstimo e, fundamentalmente, a recepção dos termos que o governo senegalês finalmente apresentará aos seus credores. A forma como esses elementos se desenrolarem definirá o futuro financeiro do Senegal e a confiança dos investidores no país.


