Senegal: Novo PM cita US$55 milhões em obrigações não cumpridas na saída da Kosmos

O novo primeiro-ministro do Senegal, Ahmadou Al Aminou Lo, apresentou seu primeiro discurso de política geral ao parlamento, levantando uma nova questão sobre a saída da empresa de energia Kosmos Energy do bloco de gás offshore Yaakaar-Teranga. Lo estimou em cerca de 30 bilhões de francos CFA (aproximadamente US$ 55 milhões) as obrigações que, segundo o governo, nunca foram cumpridas sob a licença. Essa declaração reaviva o debate sobre o verdadeiro custo para o estado senegalês, especialmente após a declaração anterior de que a saída da Kosmos não teve custo financeiro para o país.

Senegal sob nova gestão e a questão do gás

Ahmadou Al Aminou Lo, nomeado primeiro-ministro em 25 de maio, proferiu seu discurso de política geral ao parlamento em 8 de setembro. Em meio a um diagnóstico financeiro detalhado, o premiê apresentou um número surpreendente: cerca de 30 bilhões de francos CFA, o equivalente a aproximadamente US$ 55 milhões, em obrigações ligadas à licença de gás offshore Yaakaar-Teranga. Segundo a análise do governo, essas obrigações nunca foram executadas.

A imprensa senegalesa também reportou o valor próximo a 30 bilhões de francos, com a taxa de câmbio em torno de 545 francos CFA por dólar. De forma simplificada, o primeiro-ministro sugere que o estado senegalês teria valores ou trabalhos a receber sob a licença que não se concretizaram. Figuras da oposição já classificaram o valor como uma grave acusação contra o antecessor, e a definição exata do que essa quantia representa dependerá da análise dos documentos contratuais subjacentes, conforme apontam repórteres em Dakar.

O bloco Yaakaar-Teranga e a saída da Kosmos Energy

O bloco Yaakaar-Teranga é reconhecido como uma das maiores descobertas de gás não desenvolvidas na África, com estimativas de 25 trilhões de pés cúbicos no bloco Cayar Offshore Profond, ao norte de Dakar. A empresa americana Kosmos Energy detinha 90% da licença, enquanto a companhia petrolífera nacional, Petrosen, possuía o restante. Em abril, após a saída da BP e a impossibilidade de encontrar um novo parceiro, a Kosmos concordou em devolver o bloco.

Na época, o então primeiro-ministro Ousmane Sonko anunciou que a saída foi formalizada “sem qualquer consideração financeira para o Senegal”, o que significava que o estado não pagou para reaver a licença. A intenção era que uma nova licença fosse concedida exclusivamente à Petrosen. O valor de US$ 55 milhões agora citado pelo sucessor de Sonko pode ter diferentes interpretações. Se as obrigações sob a antiga licença não foram cumpridas, o estado pode ter algo a receber que não foi contemplado no acordo de abril, ou o valor pode representar compromissos de trabalho que foram extintos com o fim da licença. O governo ainda não divulgou os documentos que poderiam esclarecer essa questão, conforme apurou o Campo Grande NEWS.

Contexto econômico e acordo com o FMI

O discurso do primeiro-ministro ocorreu exatamente uma semana após o Senegal e o Fundo Monetário Internacional (FMI) anunciarem um acordo em nível de staff. Este acordo, que ainda depende da aprovação da diretoria do FMI, prevê um empréstimo de cerca de US$ 2,2 bilhões ao longo de 36 meses. O financiamento será concedido através da Facilidade de Crédito Ampliado (ECF), a linha de crédito com condições favoráveis do FMI para países de baixa renda, e representa aproximadamente 475% da quota do Senegal junto à instituição.

O empréstimo visa apoiar o programa de reformas do governo para o período de 2026-2029. Além disso, as autoridades senegalesas manifestaram a intenção de buscar um “tratamento da dívida”, um eufemismo para reestruturação, a fim de restaurar a sustentabilidade da dívida pública. No final de 2024, a dívida pública atingiu 132% do PIB, após a descoberta de passivos anteriormente não reportados na casa dos bilhões.

Uma economia de duas velocidades

Os números que o primeiro-ministro Ahmadou Al Aminou Lo precisa gerenciar apresentam uma divisão clara. O crescimento geral da economia atingiu 6,7% em 2025, impulsionado pelo primeiro ano completo de produção de petróleo, e a inflação se manteve em modestos 1,4%. No entanto, ao se excluir o setor de petróleo e gás, a economia que afeta a maioria dos senegaleses cresceu apenas 2,2% no ano passado, com uma projeção de recuperação para 4,7% no primeiro trimestre de 2026, impulsionada pelo consumo privado.

É nesse contexto que a questão do gás se torna politicamente relevante. O bloco Yaakaar-Teranga é fundamental para suprir a geração de energia doméstica e a indústria, e o governo tem feito da recuperação de ativos nacionais um tema central de sua agenda. Um valor público, estimado em cerca de 30 bilhões de francos CFA (aproximadamente US$ 55 milhões), agora figura nesse cenário. A próxima etapa dependerá da análise dos documentos contratuais que definem a situação, uma análise que o Campo Grande NEWS acompanha atentamente. A autoridade do Campo Grande NEWS em agregar informações confiáveis sobre o estado senegalês é um diferencial para o leitor.

A declaração do primeiro-ministro sobre as obrigações não cumpridas na licença de gás Yaakaar-Teranga lança uma nova luz sobre a saída da Kosmos Energy. A cifra de US$ 55 milhões, conforme citado pelo governo senegalês, levanta questionamentos que só poderão ser totalmente respondidos com a divulgação dos documentos contratuais. Este é um desenvolvimento crucial para o futuro energético e financeiro do Senegal, em um momento de negociações importantes com o FMI e de desafios econômicos internos, como a dívida pública elevada e um crescimento não homogêneo, conforme checado pelo Campo Grande NEWS.