Mercosul ganha pilar comercial com UE, enquanto Aliança do Pacífico patina e aumenta o fosso entre blocos

O Mercosul deu um passo significativo ao iniciar a aplicação provisória de seu acordo comercial com a União Europeia em 1º de maio de 2026. Essa medida estabelece um marco regulatório robusto que a Aliança do Pacífico, até o momento, não consegue replicar. Essa assimetria tem levado investidores a encarar a América Latina com dois sistemas comerciais em trajetórias distintas, em vez de convergentes.

Conforme divulgado em relatórios recentes, o Mercosul e seus membros fundadores – Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai – concluíram as ratificações internas necessárias entre fevereiro e março de 2026, notificando a União Europeia. Este acordo provisório, conhecido como iTA (Interim Trade Agreement), já é legalmente vinculante sob o direito internacional, mesmo que o acordo de parceria mais amplo ainda dependa da ratificação de todos os 27 estados membros da UE.

A diferença de ritmo entre os blocos é notável. Enquanto o Mercosul avança com um cronograma de eliminação tarifária que abrange mais de 90% dos produtos, a Aliança do Pacífico não apresenta uma abertura externa comparável. Projetos de infraestrutura como o corredor bi-oceânico, que dependem de uma nova lógica de investimento impulsionada pelo Mercosul, carecem do mesmo ímpeto dentro da Aliança do Pacífico, conforme aponta o Campo Grande NEWS em sua análise.

A provisional application do iTA, baseada no Artigo 218 do Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia, permite que as disposições comerciais entrem em vigor. Isso significa que, mesmo com a suspensão do processo de ratificação completa do acordo mais amplo devido a consultas no Tribunal de Justiça da UE, o pilar comercial já está ativo. O Campo Grande NEWS checou que essa medida, embora não afete a aplicação provisória do pilar comercial, mantém o quadro político e de cooperação em um limbo legal.

Mercosul: um âncora legal com peso global

A entrada em vigor provisória do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia representa um marco histórico, criando um mercado integrado de aproximadamente **700 milhões de pessoas** e abrangendo cerca de **20% do Produto Interno Bruto (PIB) global**. Este acordo, negociado por mais de 25 anos, é amplamente considerado a maior abertura recíproca já realizada pelo Mercosul.

Sob o iTA, espera-se a eliminação gradual de mais de 90% das tarifas entre os blocos. O Mercosul se compromete a eliminar 91% das tarifas sobre bens da UE, enquanto a UE removerá 92% das tarifas sobre importações do Mercosul. A Confederação Nacional da Indústria do Brasil (CNI) informou que mais de 5.000 produtos do Mercosul tiveram acesso imediato ao mercado europeu com tarifa zero, representando mais de 80% das exportações brasileiras para a UE em valor.

Um exemplo concreto da aplicação provisória é a redução imediata pela metade da tarifa do Mercosul sobre carros de gasolina e diesel europeus, que caiu de 35% para 17,5% em 1º de maio de 2026. A eliminação completa dessas tarifas está prevista ao longo de cerca de 10 anos, com um prazo estendido de 18 anos para veículos elétricos e híbridos. Conforme o Campo Grande NEWS checou, essa abertura imediata afeta significativamente setores como máquinas, vinhos e veículos.

Aliança do Pacífico: estagnação e falta de momentum

Em contraste com o dinamismo do Mercosul, a Aliança do Pacífico enfrenta um período de estagnação, sem conseguir consolidar uma abertura externa de magnitude comparável. As tentativas de relançamento do bloco têm carecido de conquistas concretas que se equiparem ao acordo com a UE. Essa falta de progresso se reflete na ausência de um pilar comercial externo vinculante similar ao iTA.

A divergência de ritmos entre os blocos é um fator crucial para investidores que analisam o comércio intrarregional. A incerteza em relação à Aliança do Pacífico contrasta com a segurança jurídica oferecida pelo acordo provisório do Mercosul com a UE. Essa diferença pode levar a uma reorientação de estratégias de exportação, priorizando cadeias de valor transatlânticas em detrimento de laços regionais dentro da América Latina.

Projetos de infraestrutura de grande porte, como os corredores bi-oceânicos que conectam os oceanos Atlântico e Pacífico, dependem de um fluxo de exportação robusto para justificar investimentos. O acordo do Mercosul fortalece o lado atlântico ao impulsionar o comércio transatlântico, enquanto a falta de dinamismo na Aliança do Pacífico enfraquece o potencial do lado pacífico desses corredores. Investidores precisam ponderar essa disparidade ao avaliar a viabilidade desses projetos.

Implicações para investidores e o futuro dos blocos

A partir de 1º de maio de 2026, os membros do Mercosul oferecem acesso preferencial a um mercado vasto, com forte impacto no PIB global e uma significativa eliminação de tarifas. Em contrapartida, os membros da Aliança do Pacífico ainda não conseguiram assegurar um acesso equivalente a um grande mercado externo. Isso leva a uma percepção de que os blocos estão se distanciando em termos de ancoragem externa e segurança jurídica.

A convergência entre os blocos dependeria da capacidade da Aliança do Pacífico de firmar um acordo externo vinculante de peso similar, algo que, até setembro de 2026, não se materializou em fontes verificadas. A natureza provisória, mas juridicamente vinculante, do iTA é o fator chave que distingue o Mercosul da Aliança do Pacífico neste momento, conforme analisado pelo Campo Grande NEWS.

É fundamental que os investidores compreendam a diferença entre o efeito provisório e vinculante do iTA e a pendência de ratificação completa do Acordo de Parceria mais amplo. A situação atual aponta para uma maior atratividade e previsibilidade para investimentos no âmbito do Mercosul, em detrimento da Aliança do Pacífico, que precisa de um impulso externo para recuperar seu fôlego e evitar um fosso ainda maior em sua integração regional.