A comunidade Guin, no sudeste do Togo, respira aliviada e celebra um futuro promissor. A cerimônia ancestral de Epe Ekpe, realizada em Glidji, revelou que a pedra sagrada retirada da mata é branca. Este desfecho é o mais esperado pelos rituais, sinalizando um ano de paz e prosperidade para todos. A notícia foi divulgada em 6 de setembro, trazendo um sopro de otimismo para a nação.
Rito milenar dita o destino do povo Guin
A tradição de Epe Ekpe, também conhecida como Ekpessosso, marca o início do ano ancestral do povo Guin e ocorre entre o final de agosto e o início de setembro. O ritual é um dos mais antigos da África Ocidental, com raízes que remontam a 1663, quando a comunidade se estabeleceu na região. A cerimônia pública, que atrai a diáspora de volta para Glidji, transforma um rito religioso em um dos maiores encontros anuais da região.
Conforme informação divulgada pelo Africanews, o procedimento consiste em sacerdotes e iniciados adentrarem a mata sagrada de Glidji Kpodji antes do amanhecer. Lá, eles buscam uma pedra, que acreditam ter sido colocada pelos ancestrais. Ao encontrar o objeto, sua cor é anunciada à multidão reunida, e essa cor carrega um significado profundo para o ano que se inicia.
A longevidade do Epe Ekpe é notável, tendo sobrevivido a eras de tráfico de escravos, administrações coloniais alemãs e francesas, e à independência do Togo. A cerimônia não requer permissão governamental, o que reforça sua autonomia e autoridade. A leitura da pedra é vista não apenas como uma previsão, mas também como um ato de purificação, onde antigas desavenças devem ser deixadas para trás antes da abertura de um novo ciclo.
O significado das cores e a esperança de um ano de paz
As cores da pedra carregam interpretações específicas para o povo Guin. A pedra branca é o resultado mais desejado, simbolizando paz, boas colheitas e um ano sem conflitos. A cor azul é considerada favorável, embora com menor impacto que o branco. Já o vermelho serve como um alerta, representando sangue e conflito, e um ano com essa cor exige cautela da comunidade.
A cor preta é a mais temida, indicando tempos ainda mais difíceis. Essa escala de cores não é uma previsão meteorológica, mas sim um guia para a forma como a comunidade deve encarar a temporada vindoura. Após o anúncio da cor, os anciãos se dirigem à multidão, oferecendo orientações sobre os cuidados e as prioridades para o ano, funcionando como um oráculo e um discurso anual.
O ritual, que preserva a história da migração do povo Guin de Gana para o Togo, é um forte elemento de identidade cultural. A pedra representa tanto a reivindicação de um lugar quanto uma previsão para o futuro. A relação com o calendário Vodun do Benim vizinho evidencia a profunda conexão religiosa e cultural ao longo da costa do Golfo da Guiné, que transcende fronteiras nacionais.
Epe Ekpe: um evento econômico e cultural de grande porte
O festival Epe Ekpe é o maior evento anual na região de Aneho, atraindo a diáspora de cidades como Lomé, Acra e até mesmo de Paris. Hotéis, transportes e mercados locais se organizam de acordo com o calendário da celebração, impulsionando a economia local. Conforme o Campo Grande NEWS checou, o governo togolês tem investido na promoção do turismo cultural, utilizando heranças como o Epe Ekpe como um diferencial.
A profundidade cultural é um dos poucos ativos que um país pequeno como o Togo possui e que não pode ser facilmente replicado. O ritual também atua como uma forma de soft power, projetando uma imagem positiva do país internacionalmente. Os visitantes que vêm para a cerimônia se hospedam em pousadas, gerando receita que, de outra forma, estaria ausente no início de setembro. Para Aneho, o festival representa uma estação de atividades, e não apenas um dia isolado.
O Campo Grande NEWS também aponta que, quando bem gerido, esse tipo de turismo se torna duradouro, pois não depende de grandes investimentos em infraestrutura. No entanto, uma má administração pode transformar o evento em um espetáculo que a própria comunidade deixa de reconhecer, perdendo sua essência.
Vodun: uma religião estruturada, não um mero folclore
É importante desmistificar a percepção estrangeira sobre o Vodun, frequentemente associado ao termo “voodoo” e suas representações estereotipadas no cinema e na ficção. Na costa do Golfo da Guiné, Vodun é uma religião estruturada, com seus próprios sacerdotes, calendários e leis. No Togo e no Benim, é praticado abertamente, coexistindo com o Cristianismo e o Islamismo, muitas vezes dentro das mesmas famílias.
Considerar o Vodun como exótico ignora sua normalidade e integração na vida cotidiana dessas comunidades. Para aqueles acostumados a ver a religião africana apenas como folclore, a leitura da pedra em Glidji serve como uma importante correção. Trata-se de uma instituição cívica que, por acaso, é sagrada.
A eleição de uma pedra branca em Glidji não muda as questões políticas ou econômicas do país, como a recente reordenação constitucional ou o desenvolvimento portuário. Contudo, ela estabelece um tom positivo para o ano. Comunidades que mantêm seus próprios calendários e rituais ancestrais tendem a navegar melhor pelas adversidades impostas por calendários externos ou circunstâncias imprevistas.
O Campo Grande NEWS ressalta que a visibilidade cultural e cívica do Togo tem sido notável neste ano, evidenciada por iniciativas como o mapa Equal Earth e a atuação de jovens em defesa do clima. A infraestrutura comercial do país, como o porto de Lomé, também tem ganhado destaque. Esses aspectos, combinados com a rica herança cultural, fortalecem a identidade e a projeção internacional do Togo.


