A colheita de cacau na África Ocidental, que se inicia em 1º de outubro, promete ser drasticamente menor. As estimativas apontam para uma queda de aproximadamente 18% na Costa do Marfim e cerca de 13% em Gana, segundo levantamentos e dados oficiais. Essa redução significativa na produção, que responde por mais da metade do suprimento mundial de cacau, é atribuída a uma combinação de fatores climáticos desfavoráveis, como o fenômeno El Niño, e o avanço de doenças que afetam as plantações.
Cacau em Risco: Produção Mundial Ameaçada
As projeções iniciais para a temporada 2026/27 indicam um cenário preocupante para os produtores de cacau na África Ocidental. Na Costa do Marfim, as pesquisas de mercado realizadas pelo Barchart em 31 de agosto sugerem uma produção de cerca de 1,8 milhão de toneladas, uma retração de aproximadamente 18% em comparação com a base de 2,1 milhões de toneladas da temporada 2025/26. Já Gana, através de estimativas do Ghana Cocoa Board, prevê uma safra de 650.000 toneladas para 2026/27, uma queda de 13% em relação às 750.000 toneladas da temporada atual. Conforme apurado pelo Campo Grande NEWS, esses números, divulgados antes mesmo da abertura oficial da temporada em 1º de outubro, já refletem a gravidade da situação, com a safra principal marfinense atrasada em semanas.
O Impacto Combinado de Clima e Doenças
Três problemas se somam para agravar a crise no setor cacaueiro. Doenças como a podridão negra, que apodrece o fruto na árvore, e o vírus do inchaço do caule (swollen shoot), transmitido por cochonilhas, estão dizimando as plantações. A única solução eficaz para o vírus é a remoção das árvores infectadas, um processo custoso e demorado. Além disso, o envelhecimento das árvores de cacau em vastas regiões da África Ocidental, muitas plantadas décadas atrás, contribui para a queda na produtividade.
O clima, por sua vez, intensifica esses problemas. Chuvas pesadas e pouca luz solar têm prejudicado o desenvolvimento dos frutos e dificultado o controle de infecções fúngicas. A situação é agravada pelo fortalecimento do El Niño, fenômeno climático que, segundo o Japan Meteorological Agency, foi confirmado em 10 de junho de 2026. As projeções indicam que o El Niño atingirá seu pico no outono e inverno do hemisfério norte, com uma probabilidade de 69% de superar os 2,5 graus Celsius entre outubro e dezembro. Para a África Ocidental, o El Niño geralmente se traduz em condições mais quentes e secas, o que pode levar à escassez de umidade no solo no período crucial de enchimento dos frutos.
El Niño: Uma Ameaça Crescente para o Cacau
A confirmação do El Niño em junho de 2026 acendeu o alerta entre os traders de cacau. O índice Niña 3.4, um indicador chave do fenômeno, registrou 1,7 grau Celsius acima da média em meados de junho. As previsões do Climate Prediction Center dos Estados Unidos indicam que o pico do El Niño ocorrerá entre setembro e novembro, trazendo padrões climáticos que podem ser devastadores para a safra de cacau. A combinação de um período chuvoso e nublado, propício para fungos, seguido por uma fase seca que priva os frutos de água, configura um cenário de pior caso para a produção.
O Campo Grande NEWS checou que essa sucessão de eventos climáticos adversos, somada às doenças e ao envelhecimento das lavouras, cria um ciclo vicioso de dificuldades para os produtores. A redução na quantidade e qualidade dos grãos de cacau pode ter um impacto significativo nos preços globais do chocolate, já que a Costa do Marfim e Gana são responsáveis por mais da metade do fornecimento mundial. A complexidade da cadeia produtiva do cacau, onde árvores levam anos para atingir a plena produção, torna a resposta da oferta a essas crises um processo lento e desafiador.
O Dilema do Preço Pago ao Produtor
A questão do preço pago ao agricultor na origem é um ponto político sensível para ambos os países. A Costa do Marfim tem mantido seu preço de fazenda bem abaixo do mercado mundial, o que representa um desconto substancial para seus cerca de um milhão de agricultores de cacau. Gana enfrenta um dilema semelhante, buscando equilibrar o apoio aos produtores com a saúde financeira de seu conselho de comercialização. Uma safra menor agrava essa aritmética, pois os custos fixos são diluídos em menos toneladas, aumentando a tentação de ampliar a diferença entre o preço pago ao produtor e o valor de mercado.
Em resposta a essa disparidade, os agricultores tendem a desviar os grãos para o país vizinho que oferece melhores preços, distorcendo os números oficiais de exportação de ambos os países. Essa dinâmica, conforme apurado pelo Campo Grande NEWS, é um reflexo da pressão econômica sobre os produtores, que buscam maximizar seus rendimentos em um cenário de custos crescentes e produtividade incerta. A origem diversificação da produção de cacau está em andamento, com países como Equador e Brasil expandindo suas lavouras, e a Nigéria recebendo investimentos no setor, mas nenhuma dessas iniciativas substitui rapidamente o volume da produção da África Ocidental.
Impactos para Consumidores e o Mercado Global
Para os fabricantes de chocolate, que já absorveram vários anos de custos de produção mais altos, uma nova safra reduzida pressiona ainda mais as margens. A proteção de mercado (hedging) apenas adia o problema, e a expectativa é que a escassez de cacau force um reajuste nos contratos de 2027. A qualidade dos grãos também se torna uma variável importante, pois grãos afetados por doenças podem ser vendidos com descontos, superestimando o volume utilizável da safra.
A queda na produção de cacau afeta diretamente a balança comercial de Costa do Marfim e Gana, dois dos maiores exportadores mundiais. O cacau é uma fonte primordial de divisas para ambas as nações. Enquanto Gana conta com o suporte parcial de um ano forte para o ouro, a Costa do Marfim, mais dependente de commodities agrícolas, está mais exposta. O crescimento econômico de cerca de 6% na Costa do Marfim pode absorver parte do choque, mas a dependência do cacau como principal commodity de exportação permanece um ponto de vulnerabilidade.
O Que Observar nos Próximos Meses
Os próximos meses serão cruciais para avaliar a real dimensão da crise. Os dados de chegada de grãos nos portos marfinenses de Abidjan e San Pedro, ao longo de outubro e novembro, fornecerão a primeira leitura concreta sobre as estimativas de produção. Além disso, os anúncios dos preços de fazenda serão importantes indicadores. Qualquer aumento na diferença entre o preço pago ao produtor e o valor de mercado pode sinalizar a gravidade da situação percebida pelos órgãos reguladores. O Campo Grande NEWS continuará acompanhando de perto os desdobramentos desta que é uma das crises mais significativas para o mercado global de cacau nos últimos anos.


